O rock progressivo perdeu nesta semana um de seus sopros mais humanos. Aos 83 anos, morreu o saxofonista Dick Parry, músico que eternizou solos que atravessaram gerações e ajudaram a transformar o Pink Floyd em uma experiência quase espiritual para milhões de fãs ao redor do mundo. A morte foi confirmada por David Gilmour na sexta-feira (22), encerrando uma trajetória que, embora muitas vezes discreta diante dos holofotes, deixou marcas profundas na história da música.
Parry jamais precisou ocupar o centro do palco para ser gigante. Bastava o primeiro sopro do saxofone em “Us and Them” para que o ouvinte entendesse que havia algo diferente acontecendo ali. Seu instrumento não apenas acompanhava as canções do Floyd: ele parecia conversar com elas, preenchendo os silêncios espaciais da banda com melancolia, elegância e uma espécie de tristeza bonita que virou assinatura sonora do grupo.
Em “Money”, foi dele o solo rasgado, sujo e vibrante que ajudou a transformar a música em um dos maiores clássicos da história do rock. Em “Shine On You Crazy Diamond”, alternando entre sax tenor e barítono, Dick Parry criou camadas emocionais que até hoje arrepiam fãs em qualquer parte do planeta. Décadas depois, ainda voltaria a emocionar em “Wearing the Inside Out”, no álbum “The Division Bell”, provando que seu talento jamais envelheceu.
Embora nunca tenha sido oficialmente integrante do Pink Floyd, fãs e músicos frequentemente o chamavam de “o sexto Floyd”. Não era exagero. O timbre de seu sax se tornou tão reconhecível quanto a guitarra de Gilmour ou os teclados de Richard Wright.
A relação entre Dick Parry e David Gilmour começou muito antes da fama. Os dois se conheceram ainda adolescentes, em Cambridge, na Inglaterra, quando tinham apenas 17 anos. Tocaram juntos em bandas locais, como The Soul Committee, sonhando com uma carreira musical sem imaginar que acabariam participando de alguns dos discos mais influentes de todos os tempos.
Nos anos 1970, Gilmour convidou o velho amigo para participar das gravações de “The Dark Side of the Moon”, lançado em 1973. O álbum mudaria para sempre a história do rock — e Dick Parry estaria ali, soprando notas que se tornariam eternas. Depois vieram “Wish You Were Here” e outras colaborações históricas.
Mas a vida também reservou silêncio ao saxofonista. Nos anos 1980, afastou-se da música, vendeu instrumentos e passou a trabalhar como ferrador de cavalos. Parecia um adeus definitivo aos palcos. Até que um simples cartão de Natal mudou tudo. Gilmour reencontrou o amigo nos anos 1990 e o convidou novamente para tocar. Segundo relatos do guitarrista, bastaram “três frases sopradas no sax” para perceber que Dick Parry ainda possuía o mesmo tom mágico de décadas antes.
O reencontro culminaria em outro momento histórico: a participação de Parry na reunião clássica do Pink Floyd no Live 8, em 2005. Para muitos fãs, aquele show foi uma despedida emocional de uma era irrepetível do rock.
Com sua morte, o círculo de músicos que ajudaram a construir a fase mais lendária do Pink Floyd fica ainda menor. Permanecem vivos David Gilmour, Roger Waters e Nick Mason. Richard Wright morreu em 2008. Já Syd Barrett, fundador da banda e símbolo de sua fase psicodélica, partiu em 2006.
Nas redes sociais, fãs lamentaram a despedida daquele que muitos consideravam “a alma escondida do Pink Floyd”. Perfis dedicados ao rock progressivo lembraram que “Us and Them” jamais teria a mesma profundidade sem o sax de Parry. Outros destacaram como ele conseguia algo raríssimo: dialogar de igual para igual com a guitarra celestial de Gilmour sem jamais soar excessivo.
David Gilmour resumiu a perda de maneira simples e devastadora ao chamar o músico de “querido amigo” e lembrar que seu timbre era reconhecido por milhões de pessoas no mundo inteiro.
Dick Parry parte deixando um legado raro: o de ter transformado o saxofone em peça essencial do rock progressivo, num universo dominado por guitarras, sintetizadores e experimentações eletrônicas. Seu som não precisava gritar para ser inesquecível. Ele apenas surgia — suave, melancólico e gigantesco — como quem já sabia que algumas notas podem sobreviver para sempre.
E sobreviverão. Porque enquanto “Us and Them” tocar em algum velho vinil, enquanto “Money” ecoar em algum rádio distante ou “Shine On You Crazy Diamond” fizer alguém olhar para o céu em silêncio, Dick Parry continuará ali, soprando eternidade entre uma nota e outra.
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