O bairro do Guamá, em Belém, foi tomado por cores, fantasias e resistência cultural na noite desta sexta-feira (31) com a realização da 7ª edição do Cortejo Visagento. O evento, que se consolidou como uma das expressões mais marcantes da cultura popular paraense, reuniu moradores, artistas e coletivos culturais em uma celebração que une arte, crítica social e consciência ambiental.
A concentração começou no Cemitério Santa Izabel e seguiu em cortejo até a Praça Benedito Monteiro, no coração do Guamá. Com fantasias criadas a partir de materiais recicláveis e adereços sustentáveis, os participantes transformaram as ruas do bairro em um palco de criatividade e protesto poético.
Para Eduardo Barros, de 42 anos, defensor público e participante pela primeira vez, o cortejo representa a força criativa da periferia. “Pra mim, é a periferia fazendo arte e arte em qualquer parte. Isso é bonito de ver”, disse. Fantasiado de Homem do Saco, ele explica a escolha. “A ideia era homenagear algo que traz terror ao popular, né? Um personagem fácil de reconhecer e que traz lembranças da infância. Toda criança já foi assustada por esse personagem no passado”, explica.
Entre os destaques do público, Matias França, de 50 anos, designer gráfico, desfilou como A Morte no Ver-o-Peso. “Quis prestigiar o evento com algo muito paraense, lembrando o Ver-o-Peso e também o lado difícil que o local enfrenta. É um jeito de protestar, mas também de se divertir”, contou. Ele destaca a importância da valorização da cultura local. “A cada ano que participo vejo o cortejo crescer. É fundamental valorizar o que é nosso, não só se fantasiar de personagens de outros países, mas principalmente dos nossos, do Brasil e de Belém”.
Idealizado pelo Espaço Cultural Nossa Biblioteca, o Cortejo Visagento é coordenado por Raimundo Oliveira, que enfatiza o papel transformador da arte dentro do território. “O nosso evento nasceu para mostrar o valor do Guamá, uma comunidade produtora de cultura, escola de samba, gente lutadora. Sempre tentaram diminuir a nossa imagem, mas o Visagento veio pra reconstruir isso. Queremos que as pessoas percebam que aqui também se faz transformação”, afirmou.
Segundo ele, o cortejo é mais do que uma festa: é um ato político e pedagógico. “Essa atividade cultural potente precisa estar nas ruas do nosso bairro, nas ruas que dizem que são perigosas, pra mostrar que não é nada disso. Somos gente digna, capaz de transformar a própria realidade”, completou Raimundo.
Encerrando a programação cultural de outubro, o cortejo também reforça o compromisso com a sustentabilidade e o debate ambiental, temas que se conectam à COP30, conferência do clima que será sediada em Belém em 2025. Raimundo Oliveira garante que no próximo ano o evento voltará. “Estamos preparando a oitava edição e já pensando no tricentenário do bairro do Guamá, em 2028. O cortejo é um ato de valorização da nossa gente, da nossa leitura e da nossa capacidade de transformar o território”, concluiu o coordenador.
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