A morte do cantor Netinho, nesta terça-feira (13), aos 60 anos, em Salvador, trouxe de volta a história de Milla, personagem que deu nome ao maior sucesso de sua carreira e marcou gerações de brasileiros. Ao contrário do que muitos imaginavam, Milla não foi uma criação fictícia. A mulher existiu e inspirou uma composição de Manno Góes, nascida de um romance de verão vivido pelo músico na década de 1980, na Ilha de Itaparica, na Bahia. A canção, eternizada na voz de Netinho em 1996, transformou uma experiência pessoal em um dos maiores clássicos do axé music.
A revelação sobre a verdadeira identidade da musa foi feita pelo próprio compositor em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, em 2015. Na ocasião, Manno contou detalhes do relacionamento e explicou como as lembranças daquele período se transformaram em versos conhecidos por milhões de pessoas.
Com sua morte, a história da mulher que inspirou a composição voltou a despertar a curiosidade dos fãs.
O romance de verão que inspirou Milla
A história teve início nos verões de 1986 e 1987, quando Manno Góes costumava frequentar Mar Grande, localidade da Ilha de Itaparica, próxima a Salvador.
O cenário reunia elementos que mais tarde apareceriam na letra da música: o cais, um farol apagado e um moinho abandonado. Foi durante uma dessas temporadas que o compositor conheceu uma jovem chamada Milla.
Segundo Manno, ela era baixinha, tinha covinhas, demonstrava alegria e gostava de escrever poesias. A afinidade entre os dois deu origem a um relacionamento que durou aproximadamente três meses.
A convivência, entretanto, foi interrompida quando a jovem precisou se mudar para Recife, em Pernambuco.
A separação encerrou o namoro, mas não apagou as lembranças que o compositor guardou daquele período.
O reencontro e a inspiração para a canção
Anos depois, a história ganhou um novo capítulo. Milla retornou a Salvador e, por coincidência, passou a morar no mesmo prédio onde Manno Góes residia.
O reencontro surpreendente reforçou a lembrança daquele relacionamento e ajudou a inspirar a composição.
Em entrevista ao Fantástico, Manno associou o episódio ao verso “O destino te mandou de volta, para o meu cais”.
A referência ao cais não era apenas uma imagem poética. O local fazia parte do cenário real onde os dois haviam vivido o romance.
Ao recordar a história, o compositor confirmou que a personagem da música havia existido.
“Milla existiu realmente. Foi um amor de verão que aconteceu em Mar Grande, como a música retrata”, declarou.
Apesar do reencontro, os dois não retomaram o relacionamento. Na época em que Manno revelou a história, ambos já haviam constituído suas próprias famílias.
Mulher que inspirou o sucesso manteve vida discreta
Embora tenha dado nome a uma das canções mais populares do axé, Milla permaneceu distante da exposição pública.
De acordo com o compositor, a mulher seguiu sua vida, casou-se e teve filhos.
Manno também afirmou que estava casado e tinha filhos, ressaltando que o antigo romance havia se transformado em uma lembrança afetiva.
A identidade completa da mulher não foi divulgada na reportagem do SBT News.
Netinho transformou romance em fenômeno nacional
Embora a composição tenha sido escrita por Manno Góes, foi na voz de Netinho que “Milla” conquistou projeção nacional.
A música integrou o álbum Netinho ao Vivo!, lançado em 1996, três anos depois de o artista deixar a Banda Beijo para seguir carreira solo.
O disco ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas no Brasil, consolidando o cantor como um dos principais representantes do axé music nos anos 1990.
A interpretação de Netinho transformou a canção em presença constante nas rádios, nos trios elétricos, nas micaretas e nas festas populares.O sucesso também ultrapassou as fronteiras brasileiras.
Em Portugal, “Milla” permaneceu durante dez semanas na primeira posição das paradas musicais e contribuiu para que o álbum alcançasse o segundo lugar entre os mais vendidos do país em 1998. A composição ainda ganhou versões em seis idiomas, ampliando sua circulação internacional.
Disputa por “Milla” colocou Netinho e Manno Góes em lados opostos da política
A música “Milla”, um dos maiores sucessos da carreira de Netinho, também se tornou motivo de conflito entre o cantor e seu compositor, Manno Góes. A divergência ganhou repercussão nacional em setembro de 2021, quando Netinho, apoiador declarado de Jair Bolsonaro, interpretou a canção durante uma manifestação pró-governo na avenida Paulista, em São Paulo. Manno, crítico do bolsonarismo, condenou a utilização de sua obra naquele contexto político.
O compositor questionou os discursos de participantes da manifestação, especialmente os gritos de apoio a medidas de ruptura institucional. A discussão ultrapassou as redes sociais e passou a envolver direitos autorais, liberdade de manifestação política e os limites da utilização pública de composições musicais.
Manno anunciou que buscaria medidas judiciais para retirar da internet vídeos da apresentação. Netinho, por sua vez, defendeu seu direito de interpretar uma música que ajudou a popularizar nacionalmente. O episódio expôs a distância ideológica entre os artistas, que haviam construído uma relação profissional ligada a um dos maiores clássicos do axé.
Consequências judiciais
A disputa teve consequências judiciais para ambos os lados. Em maio de 2021, a Justiça determinou que a então deputada Carla Zambelli retirasse de suas redes sociais o vídeo em que Netinho cantava “Milla” durante o ato bolsonarista, sob pena de multa diária de R$ 5 mil. Em 2022, a parlamentar foi condenada, em primeira instância, a pagar R$ 20 mil por danos morais ao compositor.
Netinho também processou Manno Góes após ser chamado de “débil mental” nas redes sociais. A ação teve desdobramento em 2024, quando a 14ª Vara Criminal de Salvador absolveu o compositor na queixa-crime apresentada pelo cantor. A decisão considerou o contexto de polarização política envolvendo os artistas.
Apesar das disputas, Netinho não foi judicialmente proibido de cantar “Milla” em seus shows. A controvérsia autoral concentrou-se principalmente na divulgação da música em vídeos associados à manifestação política. A composição, assinada por Manno Góes e Tuca Fernandes, permaneceu como um dos maiores sucessos da carreira do cantor, que morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos.
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