Um filme, várias versões e um roteiro cada vez mais difícil de sustentar. A crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro e a produção do longa Dark Horse ganhou nesta quarta, 13, um novo capítulo — e talvez um dos mais embaraçosos para a pré-campanha da extrema-direita.
Depois da revelação feita pelo The Intercept Brasil de que Flávio apareceu em áudios pedindo recursos milionários a Vorcaro para concluir um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro — atualmente cumprindo pena de 27 anos e 3 meses em prisão domiciliar — o ex-secretário de Cultura e deputado federal Mario Frias resolveu entrar em cena. E acabou transformando o enredo político em um verdadeiro “cada um escreve sua versão”.
Em defesa pública do projeto cinematográfico, Frias afirmou que “não há um único centavo” de Daniel Vorcaro na produção do filme. Segundo ele, a informação já teria sido negada oficialmente pela produtora Group Entertainment. Até aí, o esforço parecia ser o de conter danos. O problema é que, ao tentar apagar o incêndio, o parlamentar jogou gasolina no roteiro.
Frias também declarou que Flávio Bolsonaro “não possui qualquer relação” com a produção executiva do longa Dark Horse, do qual ele próprio seria produtor executivo. Na prática, a fala implode uma das poucas linhas de defesa que ainda circulavam entre aliados do PL: a de que o pedido de recursos ao banqueiro estaria ligado diretamente ao financiamento da obra audiovisual.
E para quem eram os R$ 134 milhões?
O resultado foi um efeito quase cinematográfico: ao negar que o dinheiro seria para o filme e ao mesmo tempo afastar Flávio da produção, Mario Frias abriu uma pergunta ainda maior — e talvez mais delicada — do que a anterior: se os R$ 134 milhões mencionados nas gravações não eram para o filme, então eram para quê?
A dúvida passou a circular nos bastidores políticos de Brasília com velocidade proporcional ao silêncio constrangido de integrantes do partido. O PL, que já vinha tentando minimizar o desgaste provocado pelos vazamentos, agora se vê diante de um problema clássico de roteiro mal amarrado: versões que começam a se contradizer no segundo ato.
Nos bastidores do Congresso, parlamentares da oposição ironizavam, nesta quarta, que Dark Horse talvez mereça trocar de gênero cinematográfico. Sai o épico político, entra o suspense financeiro.
A repercussão atingiu em cheio a narrativa construída pela extrema-direita em torno da figura de Jair Bolsonaro. Afinal, o projeto do filme vinha sendo tratado nos círculos bolsonaristas como uma espécie de reconstrução heroica da trajetória do ex-presidente. Agora, porém, a obra começa a ganhar contornos menos cinematográficos e mais investigativos. E como todo roteiro baseado em fatos políticos brasileiros, o problema nunca é apenas o primeiro áudio vazado, é sempre o próximo capítulo.
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