As apostas consumiram cerca de R$ 500 mil, provocaram dívidas, abalaram relações pessoais e contribuíram para um período marcado por depressão e síndrome do pânico. Aos 24 anos, Gustavo Pereira decidiu mudar de rumo e agora tenta reconstruir a vida vendendo café em um semáforo de Lages, na Serra de Santa Catarina. A história ganhou repercussão nas redes sociais depois que um vídeo mostrando a nova rotina do jovem viralizou.
Durante aproximadamente seis anos, Gustavo conviveu com a dependência em jogos de apostas. O prejuízo financeiro acumulado, segundo ele, chegou a aproximadamente meio milhão de reais. Além de perder dinheiro, contraiu dívidas com bancos e pessoas próximas e teve o nome negativado.
A dimensão dos problemas fez o jovem reconhecer que precisava interromper o ciclo. Ele descreve aquele período como o momento em que chegou ao “fundo do poço” e percebeu que precisava buscar uma mudança.
Café no semáforo: a nova rotina
A saída encontrada começou com uma ideia simples. Gustavo percebeu que muitas pessoas deixam suas casas cedo para trabalhar e não conseguem tomar café. Decidiu então levar a bebida diretamente aos motoristas que passam pelas ruas de Lages.
A venda começou poucos dias antes de sua história ganhar projeção. Gustavo prepara os cafés e inicia o trabalho por volta das 6h, permanecendo no semáforo até aproximadamente 9h ou enquanto houver produto disponível. Com o aumento da procura, passou também a trabalhar em alguns períodos da tarde.
O objetivo vai além de garantir dinheiro imediato. Gustavo afirma que utiliza a renda para tentar organizar as dívidas deixadas pelas apostas. Além da venda de café pela manhã, mantém outros trabalhos durante a tarde e à noite.
Confiança como forma de pagamento
Um detalhe do negócio chamou atenção nas redes sociais. Gustavo adotou como lema a frase “Você confia na qualidade e eu confio em você”.
Os copos são entregues com um QR Code para pagamento. O cliente pode pegar o café e efetuar a transferência posteriormente, numa estratégia baseada na confiança entre vendedor e consumidor.
O contato diário com as pessoas também ganhou outra função. Para Gustavo, permanecer ocupado e trabalhando tornou-se parte importante da tentativa de manter distância dos jogos.
Vídeo viraliza e expõe dependência
O que começou como alternativa para obter renda rapidamente ganhou uma dimensão que o jovem não esperava. Quando gravou o vídeo que viralizou, estava apenas no sétimo dia vendendo café.
Em cerca de 24 horas, o perfil “Café do Guga” saltou de aproximadamente 300 para mais de 4 mil seguidores. Uma das publicações ultrapassou a marca de 500 mil visualizações, levando a história para muito além das ruas de Lages.
A repercussão também abriu espaço para Gustavo falar publicamente sobre as consequências que enfrentou por causa das apostas.
Seis anos de dependência e o processo de reconstrução
O jovem relata que os prejuízos não ficaram restritos ao dinheiro. A dependência afetou sua saúde emocional e sua relação com pessoas próximas. Depois de reconhecer o problema, decidiu abandonar os jogos e procurar maneiras de impedir uma recaída.
Gustavo afirma ter utilizado ferramentas disponibilizadas pelo governo para bloquear seu acesso às plataformas de apostas. Segundo ele, o mecanismo ajudou a criar uma barreira contra novas apostas, embora a vontade de jogar ainda possa aparecer.
A aproximação com familiares e pessoas de confiança também fez parte desse processo. O jovem afirma que reconhecer a dependência e deixar de esconder o problema foram passos importantes para começar a reconstrução.
Dívidas e o recomeço com o café
Parar de apostar, entretanto, não apagou as consequências financeiras. Gustavo ainda precisa enfrentar as dívidas acumuladas durante os anos de jogos e afirma que pretende regularizar a situação por meio do trabalho.
A venda de café tornou-se, assim, uma das faces mais visíveis desse recomeço. Pela manhã, ele oferece os copos aos motoristas; durante o restante do dia, realiza outros trabalhos para aumentar a renda.
O jovem passou ainda a usar a própria experiência como alerta nas redes sociais. A intenção, segundo ele, é mostrar a outras pessoas envolvidas com apostas que reconhecer a dependência e buscar ajuda pode ser o primeiro passo para interromper o ciclo.
A história que começou com perdas estimadas em R$ 500 mil agora ganhou um símbolo bem mais simples: um copo de café vendido no semáforo. Para Gustavo, cada venda representa não apenas renda para pagar as dívidas, mas mais um passo na tentativa de recuperar a vida que diz ter perdido durante os anos de dependência.
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