A sessão da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados, realizada na última terça, 2, transformou-se em mais um capítulo da crescente polarização política em Brasília. O embate envolveu o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) e o deputado paraense Éder Mauro (PL), que trocaram acusações e insultos durante uma discussão sobre segurança pública, facções criminosas e a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
A tensão começou quando Henrique Vieira fez críticas, com base em fatos já noticiados, a relação histórica da família Bolsonaro com personagens ligados ao crime organizado no Rio de Janeiro.Durante sua fala, o parlamentar fluminense afirmou: “Membros da família Bolsonaro, no Rio de Janeiro, têm relação histórica, orgânica e próxima com o crime organizado.”
Como sustentação, o deputado citou as homenagens prestadas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) ao ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega — apontado pelas investigações como liderança do “Escritório do Crime” — além da nomeação de familiares do ex-policial em gabinetes ligados ao hoje senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Reação truculenta e acusação sem provas
A declaração provocou reação imediata e agressiva de Éder Mauro, um dos principais aliados do bolsonarismo na bancada paraense. Conhecido por seu histórico de abordagens violentas e pelo comportamento intempestivo, o ex-delegado elevou o tom de voz e partiu para o ataque pessoal para defender a família Bolsonaro, prática que adota de forma recorrente em suas redes sociais. Em tom exaltado, ele gritou: “E você vem falar de Bolsonaro? Ora, se manca, meu irmão! Quando você falar de Bolsonaro, você tem que lavar sua boca. Quem mandou matar Marielle não foi Bolsonaro… foram vocês mesmos que mataram.”
A acusação proferida por Éder Mauro é uma uma notícia falsa sem nenhum lastro com as investigações oficiais. Os irmãos Brazão – Domingos Brazão (conselheiro do TCE-RJ) e Chiquinho Brazão (ex-deputado) – foram condenados a 76 anos e 3 meses de prisão por organização criminosa e homicídio. No inquérito da Polícia Federal, os irmãos foram identificados como mandantes do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.
Durante as investigações ficaram confirmadas as ligações e relações que eram públicas, entre Flávio Bolsonaro com a dupla presa. Em 2022, durante a campanha eleitoral, o então deputado federal Chiquinho Brazão apoiou publicamente a candidatura da família Bolsonaro, tendo participado ativamente de carreatas pedindo votos para a reeleição de Jair Bolsonaro, chegando a discursar em trios elétricos ao lado do senador Flávio Bolsonaro.
Falta de inteligência ou ausência de caráter
Diante dos ataques, Henrique Vieira respondeu ao parlamentar paraense em tom firme, criticando a postura agressiva do colega: “Não sei se é por falta de inteligência ou ausência de caráter. Você tenta lacrar com frases de efeito e mentiras, distorcendo o meu discurso. Vossa Excelência acorda com ódio, dá bom dia com ódio, dorme com ódio.”
O deputado do PSOL também acusou o colega de promover ataques de cunho pessoal em vez de enfrentar os argumentos técnicos apresentados. Posteriormente, o pastor Henrique Vieira relatou em suas redes sociais que foi alvo de ataques à sua fé cristã e que chegou a ser chamado de “pastor do inferno” durante o tumulto, tendo seu direito de fala cerceado na comissão.
Histórico dos envolvidos
O confronto ocorreu em meio à repercussão da viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde o senador buscou apoio para classificar facções brasileiras como entidades terroristas. O tema serviu de estopim para o choque entre duas trajetórias opostas no parlamento: Henrique Vieira é pastor evangélico, escritor, ator e deputado federal pelo PSOL-RJ. Atua em pautas de direitos humanos, combate à desigualdade e é uma das principais lideranças da esquerda cristã no Congresso. Iniciou a carreira como vereador em Niterói e ganhou projeção nacional mediando debates sobre religião e política.
Já Éder Mauro é ex-delegado da Polícia Civil do Pará e construiu sua trajetória política baseada no populismo penal e em discursos de endurecimento no combate à criminalidade. Sua carreira é marcada por controvérsias ligadas a métodos violentos de atuação e episódios de truculência verbal. Alinhado à ala ideológica do bolsonarismo, o deputado já teve publicações derrubadas ou sinalizadas por plataformas digitais devido à propagação de desinformação estrutural, ataques às instituições democráticas e ofensas direcionadas a ministros do STF.
Na Câmara, parlamentares apontam que sua principal atuação baseia-se em produzir cortes agressivos focados em engajamento digital. Éder Mauro foi réu em um processo no Conselho de Ética da Câmara após publicar um vídeo adulterado e fora de contexto. O deputado paraense acumula diversas representações por violência política de gênero, ataques a parlamentares mulheres e ofensas verbais pesadas contra parlamentares da oposição durante sessões de comissões temáticas.
A troca de acusações do início desta semana escancara o clima hostil na Comissão de Segurança Pública da Câmara, colegiado frequentemente dominado pela chamada “bancada da bala” e que serve de palco para embates ideológicos violentos, paralisando debates técnicos sobre a segurança do país.
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