A liderança de Majur Traytowu transcende os limites da Terra Indígena Tadarimana, em Rondonópolis (MT), e se tornou um símbolo nacional de resistência, representatividade e defesa dos povos originários. Aos 30 anos, a indígena da etnia Boé Bororo é reconhecida como a primeira cacica trans do Brasil, cargo que assumiu após ser escolhida pela própria comunidade para suceder o pai, que precisou se afastar da função por problemas de saúde. Desde então, ela divide a rotina entre a preservação da cultura ancestral, a proteção do território e a luta contra o preconceito enfrentado por pessoas trans e indígenas.
Majur conta que desde a infância percebia que sua identidade de gênero era diferente daquela esperada para um menino. Cresceu desempenhando funções tradicionalmente exercidas por mulheres dentro da cultura Bororo, como os rituais de luto e atividades ligadas aos cuidados comunitários. Apesar de viver esse processo de forma natural na aldeia, enfrentou dúvidas pessoais até compreender plenamente sua identidade de gênero e iniciar a transição. Em entrevistas, ela afirma que nunca deixou de ser indígena por ser trans e que sua história demonstra que as duas identidades caminham juntas.
Transição ocorreu em época decisiva
A transição de gênero ocorreu justamente quando sua vida passava por uma mudança decisiva. Em 2021, enquanto realizava o tratamento hormonal, Majur foi escolhida pelos moradores da aldeia Apido Paru para assumir a chefia da comunidade, formada por cerca de 100 indígenas. A decisão foi baseada na confiança conquistada ao longo dos anos e não em sua identidade de gênero. “O principal é que eu faça um bom trabalho”, afirmou ao relatar que nunca sofreu discriminação dentro da comunidade Bororo por ser uma mulher trans.
Ao contrário do que ocorre fora do território indígena, Majur relata que dentro da aldeia sempre encontrou respeito. Segundo ela, os episódios de transfobia aconteceram principalmente nas cidades, onde ouviu comentários preconceituosos e ofensas. Para a cacica, esse comportamento é resultado da influência da sociedade não indígena. “Se tiver algum indígena Bororo preconceituoso é porque copiou o homem branco”, declarou em uma das entrevistas que concedeu sobre sua trajetória.
Luta por direitos e proteção territorial
Desde que assumiu a liderança, Majur passou a concentrar esforços na defesa da Terra Indígena Tadarimana. Entre suas principais preocupações estão as invasões promovidas por caçadores e madeireiros ilegais, além do aumento da circulação de álcool e drogas nas proximidades da comunidade. Ela também atua na articulação com órgãos públicos para garantir melhorias nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e proteção territorial. Antes de se dedicar integralmente à chefia da aldeia, trabalhou como agente indígena de saúde, experiência que considera fundamental para compreender as necessidades da população local.
A notoriedade nacional veio em 2023, quando Majur concedeu uma entrevista à revista Marie Claire e afirmou: “Não serei a última. Minha vida e existência são resistência”. A frase sintetizou sua visão sobre representatividade. Para ela, ocupar um espaço historicamente reservado aos homens significa abrir caminhos para que outras pessoas trans também possam exercer papéis de liderança sem abrir mão de suas identidades.
Inspiração e representatividade
Embora seja frequentemente lembrada pelo pioneirismo, Majur afirma que seu maior objetivo não é ser conhecida como a primeira cacica trans do Brasil, mas como uma liderança comprometida com seu povo. Fluente em português e na língua Bororo, ela participa de debates sobre direitos indígenas, diversidade e preservação ambiental, defendendo que tradição e inclusão podem caminhar lado a lado. Sua atuação também tem servido de inspiração para pesquisadores, organizações de direitos humanos e movimentos indígenas, que enxergam em sua história um exemplo de como identidade, cultura e ancestralidade podem fortalecer, e não dividir, uma comunidade.
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