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Carro elétrico faz motorista economizar mais de R$ 16 mil por ano em Belém

Belém já possui pontos de recarga para os elétricos. Fotos: Mauro Ângelo

O mercado de carros elétricos vive um momento de forte expansão no Brasil, impulsionado pela entrada de modelos mais acessíveis, principalmente de montadoras chinesas, e pela ampliação da infraestrutura de recarga. Dados recentes apontam que o país registrou crescimento de 184% nas vendas em março de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado, liderando o avanço entre grandes mercados globais. No acumulado da última década, 2015 a 2025, o salto é ainda mais expressivo, com alta de 33.000%, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Em Belém, esse avanço já começa a mudar hábitos de consumo e a rotina de quem depende do carro para trabalhar. Usuários destacam a economia e, ao mesmo tempo, reconhecem a necessidade de adaptação.

Economia e planejamento: a visão dos usuários

Leandro Moura, influenciador digital especializado em eletromobilidade e proprietário de um carro 100% elétrico, afirma que a mudança foi gradual. “Eu comecei com um carro híbrido porque tinha muito medo de mudar para o 100% elétrico. Eu queria uma zona de conforto, um carro que ainda tivesse gasolina”, disse. Segundo ele, a virada veio após estudo e experiência prática. “Eu assisti tudo que podia, estudei bateria, tecnologia, e entendi: agora eu estou preparado”.

A economia foi determinante na decisão. “Com carro a combustão, eu gastava cerca de R$ 20 mil por ano em combustível. No híbrido, caiu para uns R$ 14 mil. Hoje, no elétrico, eu gasto em torno de R$ 4.200 por ano em recarga. É uma economia de mais de R$ 16 mil”, afirmou. “Esse dinheiro hoje vira lazer. Eu consigo viajar com a minha família, fazer coisas que antes eu não fazia por causa do custo da gasolina”.

Em caso de longos deslocamentos, ele reforça que o principal desafio está no planejamento. “O carro elétrico exige planejamento, como um voo. Você tem uma rota pré-definida, precisa saber onde vai carregar e manter uma margem de segurança. Eu considero 20% de bateria uma margem segura para qualquer situação”, explicou.

Mesmo assim, Leandro avalia que a infraestrutura já permite viagens mais longas. “Hoje o Pará já tem mais de 40 pontos de recarga. Isso permite que você viaje com segurança, desde que se planeje. Eu já liguei para hotel perguntando se tinha tomada 220V. Já carreguei o carro durante a noite e segui viagem com 100% de bateria. Tudo é planejamento”, conta.

Apesar das vantagens, ele pondera que a transição ainda será lenta. “A mobilidade elétrica já é realidade, mas o Brasil ainda tem uma limitação econômica. Muita gente compra carro usado de R$ 10 mil, R$ 15 mil. O elétrico ainda não chegou nessa faixa, que é a maior faixa da população e tudo indica que ainda vai demorar muito para isso. A Fipe dos elétricos ainda fica em uma faixa alta de valor, se comparado aos de combustão”, disse.

Para motoristas de aplicativo, o impacto aparece diretamente no bolso. Marcos Souza, 45, afirma que a redução de custos foi imediata. “Eu gastava entre R$ 2.500 e R$ 3.000 por mês com combustível. Sou motorista de aplicativo há dez anos e há dois troquei para o elétrico.Hoje gasto cerca de R$ 1.000”, disse. “Já são R$ 1.500 que ficam no meu bolso”. Ele destaca que o carro atende bem ao uso urbano. “O meu não é um carro para viagem longa. É um projeto urbano. Mas para mim é muito bom, porque eu trabalho aqui na cidade”, explicou.

“A produtividade melhora porque o custo é menor e o desempenho ajuda no dia a dia. Como Belém, comparado a outros centros, é uma cidade menor, então a autonomia do elétrico aqui é muito boa. Consegue cobrir a cidade toda, sem sustos. Para quem trabalha com isso, é uma boa alternativa. Já dirigi em São Paulo e por lá tem bairros que são até maiores que Belém, então em cidades dessas o motorista precisa seguir outros cuidados”, acrescenta.

Impacto para motoristas de aplicativo

Outro motorista, Domingos Pereira, 68, relata uma mudança ainda mais significativa. “Antes eu gastava mais de R$ 4.500 por mês com combustível. Hoje gasto cerca de R$ 500 porque consigo carregar em casa”, afirmou. “Na combustão, um terço do faturamento ia para o posto. Agora esse dinheiro fica comigo”. Ele mantém a mesma jornada, mas com melhor retorno. “Eu continuo trabalhando em média 12 horas por dia. A diferença é que agora o dinheiro rende mais. Antes eu sobrevivia, hoje dá para viver melhor”, disse.

Situação da indústria

Indústria automobilística e a guerra das cotas

Essa profunda transformação do mercado automobilístico brasileiro, impulsionado pela expansão meteórica dos carros elétricos, têm causado uma intensa batalha nos bastidores na indústria. O setor caminha para registrar recordes históricos em 2026, sob a forte liderança de montadoras chinesas, capitaneadas pela BYD e seu modelo mais popular, o Dolphin Mini.

De acordo com as projeções recentes do presidente da Anfavea, Igor Calvet, o emplacamento de veículos elétricos e híbridos deve fechar o ano de 2026 entre 420 mil e 450 mil unidades, consolidando um crescimento que já vinha operando na casa dos 200% nos primeiros semestres.

Esse boom foi vitaminado por uma forte concorrência que derrubou os preços iniciais da categoria para patamares em torno de R$ 100 mil e expandiu as opções de autonomia, que hoje variam de 250 quilômetros nos modelos mais populares, até mais de 570 quilômetros nos utilitários esportivos de luxo. Além disso, a produção em solo nacional ganhou tração e já responde por cerca de 40% dos eletrificados comercializados, impulsionada tanto pela chegada de novas plantas industriais quanto pela reestruturação de marcas tradicionais, como a Chevrolet.

Por outro lado, o ritmo acelerado dessa transição energética abriu uma crise de previsibilidade que ameaça parar nos tribunais. A Anfavea manifestou duras críticas contra a decisão do governo federal de abrir novas cotas de isenção tarifária temporária, que segue vigente até 31 de dezembro deste ano, para a importação de kits de veículos desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD).

A entidade argumenta que o benefício fiscal fere a isonomia de mercado e que a montagem baseada em peças puramente importadas drena a competitividade do país.

Estudos apresentados pela associação apontam para um risco de prejuízo estimado em R$ 129 bilhões em perdas para a cadeia de fornecedores de autopeças e arrecadação de tributos. Em tom de protesto, os fabricantes tradicionais agora exigem que Brasília cumpra rigorosamente o cronograma original de retomada dos impostos sobre a importação de elétricos montados no exterior, cuja alíquota máxima deve bater o teto de 35% até o próximo ano.

Para a Anfavea, a manutenção do imposto é a única garantia de que os R$ 140 bilhões em investimentos prometidos pelas montadoras para os próximos anos se transformem, de fato, em desenvolvimento tecnológico e em fábricas genuinamente brasileiras.

O Palácio do Planalto rebateu as pressões das montadoras tradicionais ao desenhar uma estratégia que busca não inflacionar o mercado consumidor e, ao mesmo tempo, forçar a nacionalização gradual da produção. Ao carimbar a renovação da cota de até US$ 463 milhões com imposto zero para os kits de peças (CKD e SKD), o governo federal atendeu diretamente aos interesses de marcas entrantes, como a chinesa BYD, que dependem desse modelo de montagem inicial enquanto finalizam suas grandes fábricas em solo brasileiro.

Para acalmar os ânimos da Anfavea e das fabricantes tradicionais, o governo aplicou uma contrapartida rígida, barrou qualquer tipo de cota ou alívio fiscal para veículos 100% montados no exterior. Desde 1º de julho de 2026, qualquer carro elétrico que chegue pronto nos portos brasileiros fora dos regimes de desmontagem é taxado com a alíquota cheia de 35% de Imposto de Importação.

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