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Brasileiros apoiam aborto legal para vítimas de estupro? Pesquisa mostra o que pensa a população

Dados do estudo mostram que 77% dos entrevistados consideram que meninas menores de 14 anos não estão preparadas para a maternidade. Foto: divulgação/reprodução

Uma pesquisa inédita da campanha Criança Não é Mãe revelou um contraste na percepção dos brasileiros sobre violência sexual, gravidez infantil e aborto legal. O levantamento mostra que parte significativa da população desconhece a dimensão do problema, mas, ao mesmo tempo, apoia medidas de proteção e garantia de direitos para meninas vítimas de estupro.

A pesquisa “Percepção e opinião da população internauta sobre violência sexual e aborto legal” aponta que apenas um em cada três internautas identifica corretamente meninas com menos de 14 anos como as principais vítimas de estupro no Brasil.

O dado chama atenção porque os registros oficiais mostram uma realidade ainda mais grave. Em 2024, 60% dos 87.545 casos de estupro registrados no país tiveram meninas com menos de 14 anos como vítimas. Quando entram na conta também as adolescentes de 14 a 17 anos, elas representaram 69,7% de todas as vítimas de estupro no Brasil.

O estudo também investigou o conhecimento da população sobre a gravidez infantil. Entre 2019 e 2023, o Brasil registrou 82.604 casos de meninas que engravidaram, segundo os dados considerados pela pesquisa. Isso representa uma média de 16.520 casos por ano.

Apesar disso, 39% dos internautas disseram não saber estimar quantas meninas se tornam mães anualmente. Outros 25% estimaram que o número ficaria entre 1.001 e 5.000 casos por ano. A estimativa, portanto, ficou abaixo de um terço da média registrada no país.

ENQUETE – Uma menina menor de 14 anos engravidou após um estupro. O que deve acontecer?

Se o conhecimento sobre a dimensão da violência ainda é limitado, o cenário muda quando a pesquisa aborda proteção, cuidado e garantia de direitos.

O levantamento mostra que 64% dos internautas concordam totalmente com a universalização de serviços públicos que garantam aborto legal e seguro para vítimas de estupro. Considerando também os entrevistados que concordam parcialmente, o apoio chega a 72%.

A pesquisa também aponta que 57% defendem que prefeituras e governos ampliem a divulgação dos direitos de crianças e adolescentes que engravidaram, incluindo o direito à interrupção legal e segura da gestação.

Além disso, 79% afirmam que meninas vítimas de estupro devem receber amparo psicológico. Outros 72% defendem que delegacias e serviços de saúde ofereçam informações sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada.

Para Laura Molinari, co-diretora da organização Nem Presa Nem Morta, os resultados revelam uma contradição importante na percepção social sobre o tema.

“A pesquisa mostra uma contradição importante: ainda há muito desconhecimento sobre quem sofre a violência sexual e sobre a dimensão da gravidez infantil, mas, quando as pessoas são perguntadas sobre proteção, cuidado e acesso a direitos, o apoio é expressivo. Isso indica que existe uma base social importante para avançar em políticas públicas que protejam meninas vítimas de estupro e garantam o acesso ao aborto legal”, afirma Laura Molinari.

Maternidade imposta

O levantamento também mediu a percepção dos internautas sobre a maternidade imposta a meninas vítimas de violência sexual. Nesse ponto, a rejeição é expressiva.

Para 77% dos entrevistados, uma menina com menos de 14 anos não tem preparo físico ou emocional para ser mãe.

Além disso, 67% rejeitam a ideia de punir uma menina caso ela interrompa a gravidez. Outros 59% discordam de que ela deva levar a gestação adiante para depois entregar o bebê à adoção.

Os números indicam, portanto, forte resistência à ideia de impor a maternidade a meninas que ainda estão na infância.

Pesquisa ouviu 1.200 pessoas

Realizado pela Ipsos-Ipec, sob responsabilidade do Instituto Patrícia Galvão e em parceria com organizações integrantes da campanha Criança Não é Mãe, o estudo ouviu 1.200 pessoas com 16 anos ou mais.

A amostra incluiu pessoas das classes A, B, C, D e E, de todas as regiões do Brasil. As entrevistas ocorreram online, em março de 2026, por meio de questionário de autopreenchimento com perguntas fechadas.

O levantamento apresenta nível de confiança de 95% e margem de erro estimada em três pontos percentuais para mais ou para menos sobre o total da amostra.

Debate eleitoral

A divulgação da pesquisa ocorre durante o período eleitoral, colocando novamente no centro do debate temas como violência sexual, gravidez infantil e aborto legal.

Para as organizações envolvidas na campanha, os resultados podem contribuir para uma discussão mais ampla sobre saúde, educação, proteção social e garantia de direitos de meninas e adolescentes.

Leticia Ueda Vella, advogada do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, afirma que o assunto precisa fazer parte da discussão pública.

“Violência sexual, gravidez infantil e aborto legal não podem desaparecer do debate público justamente em um período em que o país discute suas prioridades. Estamos falando de direitos já previstos em lei e de políticas que têm impacto direto na vida de meninas e adolescentes. Os dados ajudam a tirar esse tema do campo do tabu e a colocá-lo onde ele precisa estar: na discussão sobre proteção, saúde, educação e responsabilidade do Estado”, afirma.

O estudo completo da campanha Criança Não é Mãe está disponível no site oficial da iniciativa: https://criancanaoemae.org.br/

Sobre a campanha

A Criança Não é Mãe reúne organizações feministas e da sociedade civil que atuam pela proteção integral de crianças no Brasil, com foco na garantia de infâncias livres de violência sexual e gravidez forçada.

A campanha trabalha com mobilização e incidência política, produção e divulgação de informações baseadas em evidências, formação de profissionais do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, articulação em rede e comunicação.

A iniciativa também defende a proteção integral de meninas e adolescentes e a garantia do acesso ao aborto legal nos casos previstos em lei.

Integram a campanha Anistia Internacional Brasil, Anis – Instituto de Bioética, Católicas pelo Direito de Decidir, Cebes, Cepia, Cladem, Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes, Coletivo Cravinas, Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, Conectas Direitos Humanos, Conselho Federal de Psicologia, Criola, Cunhã Coletivo Feminista, Frente Nacional Contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, Gajop, Grupo Curumim, Instituto Alana, Lamparina, Nem Presa Nem Morta, Portal Catarinas, Rede Feminista de Saúde e Revista AzMina.

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