Conhecido nacionalmente pelos sucessos que marcaram o axé music nos anos 1990, o cantor Netinho também construiu uma trajetória de militância política marcada pelo apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pela participação em manifestações da direita e por episódios de forte repercussão pública. Netinho, bolsonarista declarado, morreu nesta terça-feira (13), aos 60 anos, em Salvador, na Bahia, após enfrentar um câncer. Nos últimos anos de vida, o artista chegou a disputar uma vaga de deputado federal, envolveu-se em desentendimentos com outros músicos e teve uma apresentação cancelada depois de publicações relacionadas aos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
Batizado como Ernesto de Souza Andrade Júnior, o artista alcançou projeção nacional à frente da Banda Beijo e, posteriormente, em carreira solo, com canções como “Milla” e “Beijo na Boca”. Entretanto, a partir do governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, passou a utilizar suas redes sociais e sua popularidade para defender posições políticas alinhadas à direita.
A identificação com o ex-presidente tornou-se tão explícita que Netinho se apresentou como um possível representante do bolsonarismo no Congresso Nacional.
Netinho se declarou “soldado de Bolsonaro”
A entrada de Netinho na política eleitoral ganhou força em agosto de 2021, quando a então deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) o convidou publicamente para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
O convite ocorreu durante uma passagem do cantor por Florianópolis, em Santa Catarina, onde ele acompanhava atividades de apoio a Bolsonaro, incluindo uma motociata.
Zambelli, que mantinha uma relação de proximidade com o músico, elogiou sua disposição para assumir publicamente uma posição política.
Em janeiro de 2022, Netinho confirmou a pré-candidatura a deputado federal pela Bahia e declarou que pretendia atuar como aliado do então presidente.
“Refleti muito e decidi aceitar o convite da amiga Carla Zambelli. Anuncio que sou pré-candidato a Deputado Federal pela Bahia. Eleito, serei um soldado de Jair Bolsonaro na Câmara e defenderei o povo baiano seguindo os valores Deus, Pátria, Família e Liberdade”, escreveu nas redes sociais.
A declaração consolidou sua identificação com a plataforma política bolsonarista, especialmente com pautas conservadoras e a defesa do governo federal da época.
Candidatura recebeu mais de 31 mil votos
Netinho disputou as eleições gerais de 2022 pelo Partido Liberal (PL), mesma legenda de Jair Bolsonaro.
Na campanha, utilizou a notoriedade conquistada na música para tentar ingressar na política institucional, apresentando-se como representante de valores conservadores e apoiador do então presidente.
O cantor recebeu 31.448 votos para deputado federal pela Bahia, mas não conseguiu se eleger.
Embora tenha figurado entre os candidatos mais votados do estado, a votação não foi suficiente para conquistar uma das cadeiras destinadas à bancada baiana na Câmara dos Deputados.
A derrota eleitoral não encerrou suas manifestações políticas. O artista continuou publicando opiniões e defendendo posições associadas ao bolsonarismo.
Manifestação provocou conflito com compositor de Milla
Um dos episódios mais conhecidos envolvendo Netinho e a política ocorreu em 2021, quando ele participou de uma manifestação favorável a Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo.
Durante o ato, marcado também pela presença de manifestantes que defendiam medidas de ruptura institucional, o cantor interpretou “Milla”, um dos maiores sucessos de sua carreira.
A apresentação provocou reação de Manno Góes, compositor da música e integrante da banda Jammil e Uma Noites, que criticou o uso da canção em uma manifestação política daquela natureza.
Na época, o compositor questionou o significado dos gritos de “eu autorizo”, entoados por participantes do protesto em apoio ao então presidente.
“Autorizam o quê? Golpe militar?”, questionou Manno, ao repudiar a associação de sua obra ao movimento.
O compositor chegou a anunciar medidas judiciais para tentar retirar da internet vídeos da apresentação.
A controvérsia ganhou repercussão porque colocou em lados políticos opostos dois artistas ligados a uma das canções mais populares do axé music.
Manno posteriormente se desculpou por ter utilizado uma expressão ofensiva ao se referir a Netinho, mas manteve as críticas ao uso da música no ato.
Publicações após 8 de janeiro causaram cancelamento
Em janeiro de 2023, Netinho voltou ao centro de uma controvérsia política após os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Segundo reportagem publicada pelo Brasil de Fato em 17 de janeiro daquele ano, o cantor fez publicações nas redes sociais interpretadas como manifestações de apoio aos participantes dos atos antidemocráticos.
Em uma delas, teria solicitado ajuda de caçadores, atiradores e colecionadores de armas, conhecidos como CACs, aos chamados “patriotas”.
A repercussão levou o Iate Clube de Aracaju, em Sergipe, a cancelar um show que Netinho realizaria em 28 de janeiro, durante uma programação de Carnaval.
Em comunicado, a direção da entidade afirmou que não compactuava com atos antidemocráticos e que não permitiria manifestações dessa natureza em suas dependências.
O cantor apagou a publicação questionada e negou ter incentivado violência ou terrorismo.
Ele também afirmou que suas apresentações musicais não eram utilizadas para discursos políticos e contestou a decisão do clube, alegando prejuízos financeiros e à própria imagem.
Netinho declarou que poderia adotar medidas judiciais contra informações que considerasse falsas.
Apesar do conflito, a relação profissional com a entidade foi retomada. Em fevereiro de 2025, o artista voltou a se apresentar no Iate Clube de Aracaju, em um show de trio elétrico que durou mais de quatro horas.
Críticas ao Carnaval também repercutiram
Além dos embates diretamente ligados ao bolsonarismo, Netinho tornou públicas suas críticas às mudanças no repertório musical do Carnaval de Salvador.
Em janeiro de 2025, ao explicar a ausência prolongada na folia da capital baiana, afirmou que havia decidido deixar de participar do evento em 2012.
Segundo o cantor, o estilo musical que defendia já não encontrava espaço na festa.
“Eu, Netinho, decidi não mais cantar no Carnaval de Salvador em 2012, quando percebi que minha música — tão amorosa e positiva — não cabia mais na festa infestada por músicas estranhas, a meu ver”, declarou.
Ele explicou que passou a concentrar suas apresentações carnavalescas em outras cidades e chegou a oferecer, em 2024, um show sem cachê pessoal para retornar à festa de Salvador, proposta que não se concretizou por incompatibilidade de datas.
As declarações reacenderam discussões sobre as transformações do axé e a relação entre artistas de diferentes gerações do Carnaval baiano.
Morte encerra trajetória marcada por música e política
Netinho enfrentava problemas de saúde desde 2025, quando tornou público o diagnóstico de câncer. O quadro exigiu internações e afastamento dos palcos.
Sua morte, confirmada nesta terça-feira, encerra uma carreira que reuniu quase quatro décadas de atuação musical e uma fase de intensa exposição política.
Na música, o cantor deixa sucessos associados à expansão nacional e internacional do axé. Na política, sua trajetória ficou marcada pelo apoio explícito a Jair Bolsonaro, pela tentativa frustrada de conquistar um mandato parlamentar e pelas controvérsias envolvendo manifestações públicas.
O posicionamento conservador aproximou Netinho de lideranças da direita e provocou críticas de setores contrários ao bolsonarismo, tornando suas opiniões políticas parte importante de sua imagem pública nos últimos últimos anos.
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