Uma receita criada por inteligência artificial consegue reproduzir um sabor da infância? A pergunta guiou o experimento da chef brasileira Cândida Batista, que trabalha em um restaurante selecionado pelo Guia Michelin em Viena, na Áustria. Ela decidiu colocar a tecnologia à prova ao pedir ao ChatGPT uma receita de feijão inspirada em uma preparação que aprendeu observando a mãe cozinhar.
Mais do que um teste gastronômico, a experiência virou uma reflexão sobre os limites da tecnologia diante da memória afetiva que envolve a comida.
“Eu quis testar justamente uma receita que tem significado para mim. Não escolhi um prato qualquer. É um feijão que me lembra a cozinha da minha mãe. É um sabor que eu conheço desde criança e que consigo reconhecer logo na primeira colherada. Queria saber se a inteligência artificial conseguiria reproduzir uma receita que, para muita gente, está ligada à família, à infância e às lembranças de casa”, afirma a chef.
Receita parecia correta, mas o fogão contou outra história
Segundo Cândida, o texto gerado pela IA chamou atenção pela organização e pela coerência dos ingredientes e etapas. No papel, a receita parecia funcionar perfeitamente. O desafio, no entanto, começou quando o preparo saiu da tela e foi para o fogão.
Durante o processo, ela precisou fazer ajustes em tempo real, algo que não estava previsto na versão criada pela inteligência artificial.
“Quando li a receita, pensei que ela tinha tudo para funcionar. Mas cozinhar envolve decisões que acontecem a cada minuto. Às vezes você precisa reduzir um molho por mais tempo, corrigir um tempero ou mudar completamente um caminho porque o ingrediente reagiu de forma diferente do esperado. Isso não aparece quando você lê uma receita pronta”, explica.
Técnica funciona, mas emoção não entra na receita
Mesmo com boa textura e execução tecnicamente correta, o resultado final não trouxe as mesmas referências sensoriais e afetivas que a chef esperava.
Para ela, é nesse ponto que a inteligência artificial ainda encontra um limite claro: a incapacidade de compreender o contexto emocional de um prato.
“A inteligência artificial combina ingredientes, mas não sente o cheiro, não prova o molho e não entende a memória que existe em um prato”, afirma Cândida.
O que o experimento revela sobre IA na cozinha
A experiência reforça uma percepção cada vez mais comum entre profissionais da gastronomia: ferramentas de IA podem ser úteis como apoio técnico, sugestões de receitas e organização de processos, mas ainda não substituem a sensibilidade do cozinheiro.
Isso porque cozinhar envolve variáveis que vão além da técnica, como:
- memória afetiva
- percepção sensorial em tempo real
- improviso durante o preparo
- adaptação ao ingrediente real, e não ao “ideal” descrito
Tecnologia como ferramenta, não substituição
Para Cândida Batista, a inteligência artificial pode ser uma aliada na cozinha, especialmente para estudo e inspiração. Mas a experiência prática ainda depende do olhar humano.
“Ela ajuda, organiza, sugere caminhos. Mas cozinhar é outra coisa. É presença, é memória, é ajuste constante. E isso ainda é humano”, resume.
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