O consignado privado passou a movimentar mais recursos e alcançar um número maior de trabalhadores, mas o valor médio contratado despencou 73% depois da implantação do Crédito do Trabalhador. Levantamento da Serasa Experian divulgado em 22 de junho de 2026 mostra que o tíquete médio dos empréstimos caiu de R$ 8,6 mil para R$ 2,3 mil, enquanto a inadimplência e o comprometimento da renda avançaram, acendendo um alerta sobre o risco de agravamento do endividamento das famílias.
A pesquisa analisou 191.798 contratos de empréstimo consignado privado vinculados a 88 empresas. As operações foram realizadas por 61 instituições financeiras e consideraram dados disponíveis até abril de 2026. Apesar da redução no valor individual dos financiamentos, o número de novos contratos passou de aproximadamente 11 mil para mais de 25 mil no período analisado.
A concorrência entre bancos também aumentou. Antes da criação do novo programa, cada empresa recebia ofertas, em média, de quatro instituições financeiras. O número subiu para 21 bancos e financeiras, indicando maior pulverização do crédito. Ao mesmo tempo, o prazo médio dos contratos caiu 48%, movimento que ajuda a explicar a redução dos valores liberados em cada operação.
Dados do Banco Central mostram que o volume mensal concedido no consignado privado saltou de R$ 1,5 bilhão para quase R$ 11 bilhões após a entrada em vigor do Crédito do Trabalhador, em 21 de março de 2025. O saldo total da modalidade alcançou cerca de R$ 110 bilhões em março de 2026, ante pouco mais de R$ 41 bilhões registrados um ano antes.
Crédito do Trabalhador: como funciona?
O programa permite que trabalhadores com carteira assinada, inclusive empregados domésticos, rurais e funcionários contratados por microempreendedores individuais, solicitem empréstimos com as parcelas descontadas diretamente do salário. Diretores não empregados com direito ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço também podem ter acesso à modalidade.
A contratação pode ser iniciada pela Carteira de Trabalho Digital ou pelos canais eletrônicos das instituições habilitadas. A prestação mensal não pode ultrapassar 35% da remuneração disponível do trabalhador. A taxa média informada pelo Ministério do Trabalho e Emprego estava em torno de 3,2% ao mês, abaixo das cobranças normalmente aplicadas no crédito pessoal sem garantia, no cheque especial e no rotativo do cartão.
Inadimplência e endividamento em alta
O crescimento, porém, veio acompanhado de sinais de deterioração financeira. A inadimplência no consignado privado subiu de 4,9% em novembro de 2025 para 6,6% em março de 2026. A Serasa identificou ainda que 78% dos trabalhadores que contrataram a modalidade tinham mais de 81% da renda comprometida com empréstimos e outras obrigações financeiras.
Outro dado revela que 86% das operações foram contratadas por pessoas posicionadas nas faixas mais baixas do score de crédito. O resultado indica que o programa alcançou trabalhadores que tradicionalmente enfrentavam dificuldades para obter financiamento, mas também demonstra que parte relevante dos tomadores já apresentava maior vulnerabilidade financeira.
O avanço ocorre em um cenário nacional de forte endividamento. Em março de 2026, o Brasil atingiu o recorde de 82,8 milhões de pessoas inadimplentes, contingente equivalente a aproximadamente 49% da população adulta. Cartão de crédito, contas de água, energia, gás e telefone estão entre as principais dívidas em atraso.
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