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Inteligência artificial e provas digitais redesenham investigações criminais no Brasil

Bernardo Guidali Amaral estará em Belém para debater investigação criminal, tecnologia, inteligência artificial e garantias fundamentais.

O avanço das provas digitais, o uso de dados armazenados em celulares e nuvens, a inteligência financeira e a chegada da inteligência artificial estão redesenhando as investigações criminais no Brasil. Nesta entrevista, o advogado e consultor jurídico Bernardo Guidali Amaral, ex-delegado da Polícia Federal, analisa as mudanças ocorridas nas últimas duas décadas e os desafios impostos pela tecnologia ao sistema de Justiça. Doutorando em Estado de Direito e Governança Global pela Universidade de Salamanca, na Espanha, e mestre em Direito, com ênfase em estratégias anticorrupção e políticas de integridade, ele defende que a eficiência investigativa precisa caminhar ao lado do controle judicial, da proporcionalidade e da proteção dos direitos individuais. Guidali estará em Belém na próxima terça-feira (23) para participar, no fim da tarde, do projeto “Clodomir 360°”, do escritório Clodomir Araujo Advogados, onde falará sobre investigação criminal e transformação digital na atuação jurídica.

Tecnologia e a evolução da criminalidade

P – O que mudou nas grandes investigações criminais brasileiras nos últimos vinte anos?

R: As investigações mudaram porque a criminalidade também mudou. A partir da década de 1990, a globalização reduziu barreiras entre países e facilitou a circulação de pessoas, capitais, mercadorias e informações. Esse movimento também favoreceu organizações criminosas, que passaram a atuar de forma mais integrada e transnacional. Ao mesmo tempo, a tecnologia transformou a comunicação, o armazenamento de dados e a realização de negócios. Hoje, celulares, computadores, serviços em nuvem e bancos de dados concentram enorme volume de informações sobre a vida das pessoas. Com isso, a investigação deixou de depender apenas de métodos tradicionais e passou a integrar dados de várias fontes, permitindo reconstruções mais amplas e precisas dos fatos.

O fim da era da interceptação telefônica

P – A interceptação telefônica deixou de ser o principal protagonista das investigações? O que ocupa esse espaço hoje?

R: Durante muitos anos, sobretudo nas décadas de 1990 e 2000, a interceptação telefônica foi um dos principais instrumentos das grandes investigações. Esse cenário mudou com a popularização dos aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, que reduziram a relevância das ligações tradicionais. O protagonismo passou para as provas digitais. Celulares, computadores e mídias eletrônicas passaram a reunir parte importante das evidências. Também ganhou força a análise de grandes bases de dados.

Em uma sociedade digitalizada, as pessoas deixam rastros eletrônicos em quase todas as atividades. Integrar essas informações, como ocorre nos Relatórios de Inteligência Financeira, tornou-se um diferencial das investigações modernas.

Bernardo Guidali estará em Belém na próxima terça-feira (23) para participar, no fim da tarde, do projeto “Clodomir 360°”, do escritório Clodomir Araujo Advogados, onde falará sobre investigação criminal e transformação digital na atuação jurídica.

Provas digitais e inteligência financeira

P – Estamos vivendo a era das provas digitais? Como celulares, nuvens e inteligência financeira transformaram a investigação criminal?

R: Sem dúvida. Vivemos a consolidação da era das provas digitais. Nos últimos anos, as buscas e apreensões voltaram a ter papel relevante, mas com outro objetivo. Hoje, o maior interesse nem sempre está em documentos físicos, e sim no acesso a celulares, computadores e dados armazenados em nuvem. Nesse contexto, a colaboração premiada também tem função estratégica, porque muitas vezes oferece elementos para justificar medidas mais invasivas, como buscas, apreensões e quebras judiciais de sigilo. Paralelamente, a inteligência financeira ganhou protagonismo. Os Relatórios de Inteligência Financeira se tornaram uma porta de entrada para investigações complexas, ao indicar movimentações atípicas e orientar o trabalho investigativo com mais eficiência.

Tecnologia e direitos fundamentais

P – Até que ponto a tecnologia pode ajudar as investigações e como isso gera tensão com direitos e garantias fundamentais?

R: A tecnologia ampliou a capacidade do Estado de investigar crimes complexos, mas também aumentou o potencial de interferência na esfera privada. Quanto maior o volume de informações disponíveis, maior deve ser a responsabilidade das autoridades ao solicitar, acessar, analisar e utilizar esses dados. O desafio é compatibilizar eficiência investigativa com respeito aos direitos e garantias fundamentais. Isso exige rigor técnico, proporcionalidade, controle judicial quando necessário e critérios claros para evitar excessos.

A tecnologia não elimina garantias constitucionais. Ao contrário: quanto mais poderosa for a ferramenta de investigação, maior deve ser o compromisso com a legalidade e com a proteção dos direitos individuais.

O futuro da investigação com IA

P – Quais serão as próximas mudanças da investigação criminal? O futuro passa pela inteligência artificial?

R: A inteligência artificial terá papel cada vez mais relevante, mas não substituirá o investigador. O grande desafio atual não é apenas obter informações, mas compreender enormes volumes de dados produzidos todos os dias. A inteligência artificial pode auxiliar na identificação de padrões, vínculos e conexões que seriam muito difíceis de perceber apenas pelo trabalho humano. Ainda assim, as decisões jurídicas continuarão dependendo de pessoas. Cabe ao investigador, ao delegado, ao promotor e ao juiz definir os limites legais dessas ferramentas e garantir respeito aos direitos fundamentais. O futuro passa pela inteligência artificial, mas também pela inteligência jurídica. A tecnologia será apoio, enquanto o ser humano seguirá responsável por decisões que envolvem liberdade, privacidade e Estado de Direito.

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