Uma das funções mais importantes do jornalismo é fazer perguntas. Parece algo óbvio, mas basta acompanhar algumas coletivas de imprensa para perceber que muitos profissionais perderam, ou talvez nunca tenham desenvolvido, esse impulso fundamental da profissão.
Nas coletivas da Copa do Mundo, da Série C ou mesmo em jogos de Remo e Paysandu, é cada vez mais comum encontrar perguntas longas, carregadas de análises táticas, estatísticas e contextualizações que duram mais do que a própria resposta. O repórter fala durante dois minutos, monta uma tese inteira que viram na internet, estende um tapete vermelho para o entrevistado e, no fim, entrega a ele a oportunidade perfeita para responder exatamente aquilo que deseja.
Pergunta não é discurso. Pergunta não é palestra. Pergunta não é demonstração de conhecimento. Pergunta serve para obter respostas, especialmente aquelas que o entrevistado talvez preferisse não dar.
A crise de identidade do jornalismo esportivo
Quando um treinador faz escolhas questionáveis, quando um time atravessa uma má fase, quando um dirigente toma decisões controversas ou quando um jogador apresenta desempenho abaixo do esperado, o papel do jornalista não é suavizar o cenário. Também não é atuar como assessor de imprensa informal do clube. Quem paga o salário não é o clube, mas a empresa.
O jornalismo esportivo vive uma crise de identidade. Em muitos casos, a busca por proximidade, acesso e engajamento transformou repórteres em personagens que evitam qualquer tipo de constrangimento aos entrevistados. O resultado são coletivas previsíveis, sem tensão, sem contrapontos e sem informação relevante.
Influenciadores e a fronteira borrada
A situação fica ainda mais evidente com a presença crescente de influenciadores em entrevistas coletivas. Muitos realizam um trabalho sério e competente, mas outros utilizam o espaço para defender clubes, justificar derrotas ou reforçar narrativas que interessam às diretorias e às torcidas. Quando isso acontece, a fronteira entre comunicação e militância esportiva fica perigosamente borrada.
O bom repórter não está ali para agradar treinador, dirigente ou jogador. Também não está ali para agradar a torcida. Sua responsabilidade é com o público e com a informação.
Perguntas difíceis fazem parte do jogo. Questionar contradições, cobrar explicações e insistir em temas desconfortáveis não é falta de respeito. Pelo contrário: é justamente o que diferencia o jornalismo de uma conversa entre amigos.
Quando o repórter deixa de perguntar o que precisa ser perguntado, ele deixa de cumprir sua principal função. E quando isso acontece, a coletiva perde seu sentido, o público perde informação e o jornalismo perde relevância.
Voltamos a qualquer momento..
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