Na Belém dos tempos em que a televisão ainda não fazia parte da rotina das famílias, as histórias de visagens e assombrações ocupavam espaço no imaginário popular. Contadas à noite, nas portas das casas, essas narrativas atravessaram gerações e permanecem vivas até hoje.
Em uma cidade tranquila e com poucas opções de lazer noturno, os relatos falavam de fantasmas que passeavam de táxi pelas ruas, surgiam próximos a igarapés e até rezavam diante de cruzeiros.
Mais do que simples crendices, essas histórias ajudam a contar parte da memória cultural da capital paraense.
A lenda da Moça do Táxi
Em um dos corredores principais do Cemitério de Santa Izabel, no bairro do Guamá, uma sepultura simples traz gravado apenas o nome de Josephina Conte, jovem que morreu aos 16 anos.
Para muitos moradores, porém, o túmulo guarda a alma da famosa Moça do Táxi, uma das lendas mais conhecidas de Belém.
Segundo o conto, por volta das 22h de certa noite, um taxista recebeu uma passageira na avenida Independência. A jovem pediu que ele seguisse até a avenida José Bonifácio, em frente ao Cemitério de Santa Izabel.
Ao chegar ao destino, a passageira informou que não poderia pagar naquele momento e entregou ao motorista um endereço para que ele recebesse a corrida na manhã seguinte.
Quando foi ao local indicado, o taxista descobriu que a jovem identificada por ele em um retrato já havia morrido. A passageira seria justamente Josephina Conte.
Até hoje, funcionários do cemitério relatam que muitas pessoas visitam o túmulo em busca de informações sobre a lenda. Alguns visitantes chegam a acender velas e agradecer por graças alcançadas.
O mistério do Padre sem Cabeça
No bairro do Telégrafo, outra história atravessou décadas e continua viva na memória dos moradores mais antigos.
No final da rua Curuçá, um cruzeiro está associado à aparição do famoso Padre Sem Cabeça.
Segundo a lenda, um morador conhecido como Zé Bezerra voltava do trabalho tarde da noite quando avistou um padre rezando diante da cruz.
Ao se aproximar, percebeu algo assustador: a figura usava batina, mas não tinha cabeça.
Depois do relato, outras pessoas também afirmaram ter visto a aparição.
O trabalho de Walcyr Monteiro para preservar as histórias
Preocupado em evitar que essas narrativas se perdessem com o tempo, o escritor Walcyr Monteiro, falecido em maio de 2019, decidiu registrá-las.
Ele publicou os primeiros relatos em 1972, no extinto jornal A Província do Pará.
A repercussão foi tão grande que as 25 histórias acabaram reunidas no livro Visagens e Assombrações de Belém, cuja primeira edição chegou ao público em 1986.
Mesmo passados mais de 40 anos das primeiras publicações, a obra continua despertando curiosidade entre diferentes gerações de leitores.
Walcyr Monteiro sempre ressaltou que não inventou nenhuma das histórias. Segundo ele, todos os relatos foram transmitidos pela própria população da cidade.
As lendas mais conhecidas de Belém
O Estranho Caso do Dr. X
Considerada uma das histórias mais antigas da coletânea, a lenda teria ocorrido ainda no início do século XX.
O conto narra a trajetória de um médico que viveu em Belém durante o ciclo da borracha. Certa noite, um homem bateu à sua porta pedindo ajuda para realizar um parto.
A partir daí, a narrativa mergulha em mistérios envolvendo as pessoas atendidas pelo médico e o local para onde ele foi levado com os olhos vendados: um luxuoso quarto decorado no estilo do século XVII.
O Igarapé das Almas
O chamado Igarapé das Almas ficava onde hoje está localizado o canal da avenida Visconde de Souza Franco.
O local aparece como cenário em diversas histórias de visagens narradas em Belém.
Segundo os relatos, moradores afirmavam ter visto fantasmas de cabanos que procuravam armas supostamente escondidas no igarapé durante a Cabanagem.
Na história A Porca do Reduto, também era para o igarapé que corria uma porca que surgia e desaparecia misteriosamente após circular pelo bairro.
Noivado Sobrenatural
A história conta que, durante uma noite de tempestade, um rapaz conheceu uma jovem e acabou pedindo sua mão em casamento.
Mais tarde, porém, ele descobriu que a moça já havia morrido.
A prova estaria diante de uma lápide que registrava a morte da mulher em 1918. No local, o rapaz teria encontrado a aliança que lhe entregara anteriormente.
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