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Reinserção social: a força do empreendedorismo feminino no cárcere

Do cárcere às passarelas: como a moda sustentável está transformando vidas dentro do presídio feminino. Foto: Wagner Almeida

Durante décadas, o cárcere foi visto apenas como espaço de punição. Mas, entre a privação de liberdade e os desafios, também surgem caminhos de recomeço e reinserção social. E é assim que, em uma sala repleta de tecidos, linhas, agulhas e criatividade, mulheres custodiadas estão costurando muito mais do que roupas, bolsas e acessórios: dentro do Centro de Recuperação Feminino (CRF), em Ananindeua, no Pará, elas constroem novas perspectivas de vida por meio da Cooperativa Social de Trabalho Arte Feminina Empreendedora (Coostafe), iniciativa que alia empreendedorismo social feminino, sustentabilidade e qualificação profissional.

Na cooperativa, materiais doados e itens que antes seriam descartados ganham nova utilidade pelas mãos das internas, que transformam retalhos, banners, lonas de eventos e cortinas descartadas em peças de moda sustentável, acessórios e produtos artesanais. Mais do que gerar valor comercial, a iniciativa apresenta uma forma inovadora de colocar em prática um debate antigo: a ressocialização dentro do sistema prisional.

A experiência desenvolvida pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) é a primeira no Brasil e completa mais de uma década de atuação; como forma de “um novo olhar sobre o cárcere”, a Coostafe teve sua formalização em fevereiro de 2014. 

Ao unir empreendedorismo, o projeto amplia essa discussão e mostra que a reconstrução de trajetórias pode acontecer por meio da capacitação e da valorização do trabalho, rompendo o estigma associado às mulheres em situação de cárcere. Durante a atuação no projeto, elas participam de feiras, criando uma experiência prática de gestão de negócios ainda durante o cumprimento da pena.

Atualmente, a cooperativa conta com 15 mulheres custodiadas em seu quadro ativo. O projeto é destinado à internas que, inicialmente, cumprem pena em regime fechado.

A seleção das participantes é feita pela equipe técnica da unidade penal, que acompanha a trajetória de cada custodiada desde sua entrada no sistema prisional, observando critérios como comportamento e disciplina. Embora opere com esse número atualmente, a iniciativa tem capacidade para atender até 30 cooperadas.

A rotina de trabalho das cooperadas segue uma jornada semelhante à de um ambiente profissional. As participantes atuam de segunda a sábado, em horário que normalmente vai das 8h às 18h. Em situações específicas, como a produção de figurinos para desfiles ou o atendimento de encomendas maiores, a cooperativa pode solicitar a extensão do expediente para concluir as demandas.

Um espaço de criação e pertencimento

Coordenadora de Trabalho e Produção da Seap, Raquel Lima explica que a cooperativa surgiu a partir da necessidade de estruturar e dar continuidade a atividades artesanais que já eram realizadas por internas da unidade. Segundo ela, a formalização permitiu transformar ações isoladas em uma política pública permanente.

“A cooperativa nasceu da iniciativa de uma assistente social e da direção da unidade na época. As mulheres já produziam artesanato, mas eram atividades separadas. A ideia foi profissionalizar esse trabalho, dar mais visibilidade, melhorar os produtos e criar uma estrutura que garantisse continuidade. O maior desafio dentro do sistema penal é justamente criar políticas públicas que permaneçam ao longo do tempo”, afirma.

Mais do que um espaço de assistência, a Coostafe coloca as integrantes no centro do processo produtivo. A sustentabilidade está presente em praticamente todos os processos. Os materiais recebidos por meio de doações são reaproveitados tanto na fabricação dos produtos quanto nas embalagens utilizadas para comercialização.

O projeto se tornou referência nacional justamente por levar o debate sobre ressocialização para além dos modelos tradicionais. O reconhecimento veio de diferentes instituições, incluindo a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), em 2022, que apontou a iniciativa como exemplo de boas práticas de trabalho e renda no sistema penitenciário brasileiro.

“A cooperativa não é social apenas porque é formada por mulheres custodiadas. Ela também carrega outras causas. Essas mulheres trazem suas histórias, suas vivências, suas vulnerabilidades e transformam tudo isso em arte”, destaca Raquel.

Os resultados ajudam a explicar por que experiências desse tipo têm despertado atenção. Segundo o Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), mais de 300 mulheres já foram atendidas diretamente pelo projeto e não houve registro de reincidência entre as participantes acompanhadas pela iniciativa.

Raquel Lima, da Seap, observa o trabalho desenvolvido pelas mulheres ao longo das diferentes etapas de produção. Foto: Wagner Almeida

7 a cada 10 pessoas presas não trabalham! Economia circular gera oportunidades

Mais do que ensinar técnicas de artesanato, a iniciativa aposta na construção de autonomia e no fortalecimento da identidade das cooperadas, que participam de todas as etapas da produção e da gestão do empreendimento.

“São mulheres unidas em busca de um propósito: mudar de vida. Elas passam pelo cárcere, mas aprendem a enxergar novos caminhos. A cooperativa traz essa nova visão. Muitas chegam sem acesso à educação ou a um trabalho formal e, aqui, descobrem que podem ser empreendedoras, artesãs e artistas. Entendem que podem pintar, bordar, costurar, criar peças e até participar da gestão de uma empresa”, frisa Raquel.

A necessidade de ampliar esse tipo de oportunidade fica evidente nos números do sistema penal brasileiro. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que sete em cada dez pessoas presas no país não trabalham.

Produção dentro da cooperativa une criatividade, reaproveitamento de materiais e geração de novas oportunidades para mulheres custodiadas. Foto: Wagner Almeida

Por isso, ela aponta as principais mudanças percebidas através da cooperativa: “A primeira é o empoderamento feminino; a segunda, trazer as vozes que elas precisam; e a terceira é entender que eu não sou menos do que ninguém e que todo o meu talento eu posso sim usar para fazer algo diferente na minha vida, na minha história e reconstruir os meus caminhos a partir disso”.

Assim, a proposta da cooperativa, de transformar as atividades em novas oportunidades para as detentas pós-cárcere, dialoga com uma tendência crescente no mercado brasileiro: o interesse por produtos sustentáveis e, consequentemente, pela economia circular – modelo que busca reduzir o desperdício por meio do reaproveitamento de materiais; em vez de serem descartados, resíduos são transformados em novos produtos, gerando valor econômico e ambiental.

O conceito vem ganhando força no Brasil e passou a ser uma das estratégias nacionais para desenvolvimento sustentável. O governo federal instituiu em junho de 2024 a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), para promover a transição de uma economia linear para a circular.

Como os produtos chegam ao público

Entre os itens produzidos estão bolsas, porta-moedas, almofadas, ecobags, roupas, acessórios e outras peças artesanais inspiradas na cultura amazônica. Os produtos podem ser adquiridos por qualquer pessoa interessada. 

As vendas ocorrem em eventos dos quais a Coostafe participa, como feiras e desfiles, momentos em que as criações também ganham espaço na passarela; além de uma loja colaborativa mantida em parceria com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), localizada no bairro Umarizal, em Belém. 

Também é possível fazer encomendas diretamente por meio da Diretoria de Trabalho e Produção (DTP) da Seap, através do e-mail: dtp@seap.pa.gov.br. O contato da DTP serve, também, para realizar parcerias de doações ou eventos com a Coostafe.

Recursos são reinvestidos

A renda obtida com as vendas é destinada, atualmente, ao fortalecimento da própria cooperativa. De acordo com a representante da Seap, os recursos são utilizados na compra de materiais necessários para a produção. O valor que não é empregado na manutenção das atividades permanece reservado para futura divisão entre as cooperadas, processo que aguarda adequações administrativas e jurídicas da entidade.

“A gente não consegue ainda fazer a divisão das contas partes. Então, nós estamos tentando alterar judicialmente o estatuto delas para que a gente consiga fazer isso de uma forma melhor; hoje, a gente consegue comprar os insumos para que elas produzam novos produtos e o que não é utilizado está sendo guardado lá até o momento que a gente conseguir dividir entre elas”, explica.

Da agulha ao sonho de empreender

A trajetória de Joyce Medeiros da Silva, de 24 anos, é um dos exemplos de transformação promovidos pela cooperativa. No regime fechado, custodiada há quatro anos e dois deles no projeto, ela conta que chegou sem qualquer experiência com costura, mas encontrou na atividade uma oportunidade de aprendizado e crescimento profissional. 

“Cheguei aqui e eu não sabia fazer nada, não sabia nem pegar numa agulha”, relembra. Agora, além de confeccionar roupas, ela ocupa a função de chefe de produção. “A cooperativa foi um pilar muito importante na minha vida. Hoje eu posso dizer que construí um perfil profissional. Costuro, faço roupas e sou chefe de produção. A cada dia a gente aprende algo novo”.

Para ela, o projeto foi “um pilar muito importante” em sua vida e mostrou que é possível recomeçar por meio do trabalho e da qualificação.

“Eu me identifiquei de imediato com a costura. É algo que faço com paixão. Hoje acredito que estou capacitada para, no futuro, ter minha própria empresa, administrar meu negócio e realizar meus sonhos”, diz.

Joyce também se encanta pela proposta sustentável da cooperativa. Apaixonada pelo universo da moda e pelo reaproveitamento de materiais, ela já projeta os próximos passos da carreira. Entre os planos estão cursar faculdade na área e continuar desenvolvendo peças sustentáveis. 

“Gosto muito de reaproveitar materiais. Coisas que as pessoas jogam fora, nós transformamos em algo novo. Isso valoriza o nosso trabalho e mostra que é possível criar peças bonitas a partir de materiais que seriam descartados… Eu imagino, no futuro, fazer faculdade de moda, exercer essa profissão e apresentar minhas roupas em vários desfiles”, planeja.

Além da qualificação técnica, Joyce destaca a importância de combater o preconceito e mostrar à sociedade que pessoas em processo de ressocialização são capazes de reconstruir suas histórias.

“Outra hora [outrora] a gente fez algo errado, mas hoje estamos aqui nos regenerando e mostrando o nosso trabalho, a nossa capacidade e o nosso empenho”, diz.

Do limão à limonada

A trajetória de Cleudiane Moura dos Santos, de 42 anos, mostra outra dimensão dos impactos da iniciativa. Custodiada há 12 anos, ela participa da cooperativa há cinco e atualmente atua como diretora administrativa. Formada em Pedagogia antes de ser presa e também graduada em Letras dentro da unidade, ela conta que encontrou na cooperativa uma forma de superar um período difícil vivido dentro do sistema prisional.

“A Coostafe é um trabalho que transforma vidas. Eu estava passando por um processo de depressão e encontrei aqui uma oportunidade de cura. Aprendi a bordar e, através desse trabalho criativo, consegui me livrar dos medicamentos e assumir uma nova posição em relação à minha vida”.

Com o passar dos anos, ela passou a integrar a gestão da cooperativa e também se tornou responsável pela elaboração de projetos de moda apresentados em desfiles. 

“Também escrevo projetos de coleções; um dos últimos foi o ‘Ya Temi Xoa’, termo indígena que significa ‘Eu ainda estou viva’. Para mim é um prazer poder ser motivo de orgulho hoje para minha família. Por quê? Porque mesmo estando privada de liberdade, consegui me ressignificar. Consegui, através do limão, fazer uma limonada”, reconhece.

Para ela, o aprendizado adquirido poderá beneficiar outras mulheres no futuro. “Quando eu sair daqui, agora que já estou no semiaberto, de repente eu consigo montar uma cooperativa de mulheres em situação de vulnerabilidade. Posso pegar todo esse aprendizado, juntar com o talento que cada uma vai ter e construir uma cooperativa de mulheres”, projeta.

Por 12 anos Cleudiane esteve em regime fechado; na última segunda-feira (25), progrediu para o regime semiaberto – etapa que permite o cumprimento da pena com maior acesso a atividades externas. A mudança permitirá que ela trabalhe fora da penitenciária e dê os primeiros passos rumo à reinserção social, retornando à unidade apenas para pernoitar.

“Hoje sinto como se tivesse uma missão cumprida dentro desse lugar. Abriu-se um novo horizonte e preciso trilhar esse novo caminho. Espero que toda essa experiência e essa bagagem que adquiri aqui contem na hora de voltar ao mercado de trabalho. Se antes meu nome saiu nos jornais por algo ruim, a partir de agora quero ser lembrada por coisas boas”.

Gerar oportunidades para outras pessoas

Como mencionado por Cleudiane, para mulheres que deixam o sistema prisional, empreender também pode significar ocupar um novo papel na economia: o de gerar oportunidades para outras pessoas. 

A qualificação recebida dentro da cooperativa amplia as chances de que essas futuras costureiras, artesãs, estilistas e gestoras criem seus próprios negócios após o cumprimento da pena, transformando-se não apenas em fonte de renda para suas famílias, mas também em potenciais empregadoras. 

Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostram que os pequenos negócios representam cerca de 97% dos empreendimentos do país, respondem por 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e foram responsáveis por aproximadamente 72% dos empregos gerados em 2024. Nesse contexto, iniciativas como a Coostafe ultrapassam o conceito de ressocialização e passam a atuar como uma porta de entrada para a geração de empregos e o desenvolvimento econômico.

Gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae Pará, Renata Batista observa que iniciativas ligadas ao reaproveitamento de materiais e à produção sustentável têm encontrado espaço cada vez maior entre consumidores.

“Nos últimos anos, observamos um crescimento consistente de pequenos negócios ligados à sustentabilidade, reaproveitamento de materiais, bioeconomia e economia circular. Há uma demanda crescente dos consumidores por produtos com propósito, identidade sustentável e impacto social positivo”.

Segundo ela, o movimento é particularmente forte no estado paraense.

“No Pará, isso aparece de forma muito forte em segmentos como moda autoral, artesanato sustentável, biojoias, reaproveitamento têxtil e produtos desenvolvidos a partir de resíduos ou matérias-primas regionais. Muitas mulheres empreendedoras têm encontrado nesse caminho uma oportunidade de transformar conhecimento manual e criatividade em fonte de renda”, ressalta.

Renata Batista, gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae no Pará. Foto: Carlos Borges / Sebrae Pará

Sobre iniciativas como a Coostafe, Batista avalia que “têm um impacto muito significativo porque unem inclusão social, sustentabilidade e geração de renda. Muitas vezes, negócios ligados à economia circular exigem baixo investimento e podem ser desenvolvidos a partir de conhecimentos manuais já existentes”. 

Para Batista, o impacto dessas iniciativas vai além da qualificação profissional e ganha ainda mais relevância no caso das mulheres, que muitas vezes enfrentam desafios adicionais ao deixar o sistema prisional.

“No caso das mulheres, isso ganha ainda mais importância, porque muitas delas retornam ao convívio social tendo a responsabilidade pelo sustento da família e enfrentando dificuldades de acesso ao mercado formal de trabalho. O empreendedorismo surge como alternativa viável para geração de renda imediata”, afirma.

O post Reinserção social: a força do empreendedorismo feminino no cárcere apareceu primeiro em Diário do Pará.

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