Foto: Oswaldo Forte / Diário do Pará
Neste Dia das Mães, o Diário do Pará destaca histórias que vão além das arquibancadas. Quatro mães mostram como o amor pelos filhos e a paixão pelo futebol paraense se entrelaçam, criando laços que atravessam gerações e fortalecem a identidade familiar dentro e fora dos estádios.
Entre memórias de infância, viagens marcantes, rotinas adaptadas aos jogos e tradições que passam de mãe para filho, elas revelam que torcer por Paysandu e Remo não é apenas um hábito esportivo, mas uma forma de viver, educar e compartilhar emoções em família.
Mais do que acompanhar partidas, essas mulheres constroem histórias dentro do futebol, onde cada gol, cada viagem e cada encontro no estádio se transforma em lembrança afetiva e legado.
Confira as histórias de cada uma delas:
Ana Cláudia: o Paysandu como sangue, memória e devoção familiar
Torcedora do Paysandu Sport Club, Ana Cláudia Rodrigues, 55 anos, administradora de sistemas de informação e professora de cursos de qualificação profissional, carrega o clube como parte da própria identidade. Mãe de Nicole Rodrigues de Magalhães e avó da pequena Julia, de apenas 1 ano e 3 meses, ela afirma que a paixão pelo Paysandu não tem um ponto de partida claro, ela “sempre esteve lá”.
“Eu não sei te dizer quando comecei a torcer, porque na cidade onde eu morava não tinha televisão. Então a influência veio do meu pai, né, hoje falecido. Na verdade, eu já cresci nesse ambiente”, conta.
A ligação com o clube foi se fortalecendo ao longo dos anos e ganhou ainda mais significado quando passou a ser vivida em família, especialmente ao lado da filha Nicole. “Na verdade, eu comecei a acompanhar mais de perto os jogos do Paysandu em 2011. Foi quando isso virou mais presente no meu dia a dia”, lembra.
A partir daí, mãe e filha criaram uma rotina própria em torno do clube. “A gente começou a ir ao estádio juntas quando dava. E quando não dava, a gente assistia os jogos em casa mesmo, sempre juntas. Era o nosso momento, sabe? Só nosso.”
Ela reforça que essa convivência transformou o futebol em algo maior dentro da relação entre as duas. “Não era só o jogo. Era estar com ela, comentar cada lance, sofrer e comemorar juntas. Isso ficou muito forte entre nós.”
Ana Cláudia também recorda outras experiências marcantes dentro do universo bicolor. “Em 2014, eu fui voluntária na área de segurança do Paysandu. Participei de eventos, vivi o clube por dentro mesmo. Isso te aproxima ainda mais.”
Ela relembra ainda uma mobilização histórica da torcida. “Em 2013, a gente organizou um evento na sede do clube. No começo achamos que não ia dar ninguém, mas depois tinha quase 900 pessoas. Virou uma grande reunião de torcedores.”
Outro momento especial foi o centenário do clube. “Eu desfilei, fiquei responsável pelas taças do Paysandu. Eu tenho foto com elas. Isso é muito forte, porque você deixa de ser só torcedora e passa a fazer parte da história também.”
Hoje, essa paixão segue viva dentro da família. A pequena Julia já começa a ser apresentada ao ambiente do clube. “Ela ainda é muito pequena, mas quando o Paysandu faz gol, ela já reage. Isso já mostra que a história continua.”
E Ana Cláudia resume o sentimento com simplicidade: “Eu nunca fiz loucura por fazer, mas tudo que eu vivi pelo Paysandu valeu a pena. Só de ser Paysandu, pra mim, já é tudo.”
Andreza: o Remo entre a correria da vida, a maternidade e a paixão incondicional
Autônoma, Andreza Leoyana Araújo Rebelo, 32 anos, torcedora do Clube do Remo, cresceu dentro do universo azulino. Mãe de Kayla Maria Rebelo, de 10 anos, ela resume sua relação com o clube como algo presente desde a infância, ainda que tenha passado por períodos de afastamento da arquibancada.
“Começou desde que eu me entendo por gente, as idas ao estádio foram desde muito cedo. Lógico que, com o passar do tempo, acabei deixando de ir por um período, mas em 2024 eu voltei a frequentar o estádio e foi quando eu realmente vi o quanto amo esse time”, relata.
A rotina, porém, nunca foi simples. Andreza afirma que tenta não perder jogos do Remo, mesmo com os desafios do dia a dia. “Não perco nenhum jogo. Às vezes é complicado conciliar tudo, mas tento organizar da melhor forma possível. E a minha mãe também me salva nesses momentos, ainda mais pra ver o Remo”, diz.
A filha, Kayla Maria Rebelo, já faz parte desse universo. Mesmo com apenas 10 anos, cresce cercada pelo clube no cotidiano da mãe.
“Incentivo a Kayla do jeito que posso. Sempre falo com ela dos jogos, mando as publicações do Remo, figurinhas no WhatsApp. Sem contar que ela ama usar minhas camisas do Remo. Como ela diz, são nossas”, conta Andreza.
Mais do que incentivar, ela busca criar pertencimento. “Espero que ela tenha o mesmo amor que eu tenho pelo Remo e que em breve esteja em todos os jogos comigo, mas não só pra me agradar, e sim porque ela realmente quer viver isso também.”
Quando fala das próprias experiências como torcedora, Andreza não hesita em destacar os momentos de intensidade, aqueles em que o amor pelo clube fala mais alto que qualquer planejamento.
“Loucura tem um monte, né? Teve uma vez que eu saí correndo debaixo de chuva de moto pra chegar a tempo no Mangueirão antes do jogo. Já teve também um dia em que eu estava trabalhando até seis horas da tarde, saí correndo direto pro estádio… quando cheguei, o Remo já tinha feito gol nos primeiros minutos e eu estava subindo a rampa. Fiquei com uma raiva absurda”, relembra, entre risos.
A reação foi imediata: “Na hora eu mandei mensagem pro meu chefe dizendo que não tinha condição, que precisava de alguém urgente pra me substituir porque no próximo jogo do Remo eu ia sair mais cedo, de qualquer jeito.”
Mas a maior aventura veio em uma viagem decisiva. “Acho que a maior loucura foi ir pro Rio de Janeiro ver o Remo no Maracanã, em um jogo da Série A contra o Flamengo. Tinha tudo pra dar errado. Meu pai estava no hospital, várias coisas acontecendo… mas eu peguei tudo e fui mesmo assim”, conta.
A conexão com o Remo, segundo Andreza, também está presente até em seu próprio nome, que carrega uma história curiosa e familiar.
“Na verdade, o meu nome era pra ser homenagem ao time. Meu pai queria que fosse Azulina. Mas minha mãe não quis, ficou Leoyana. Na hora de registrar ainda escreveram de um jeito, mas ele insistiu que precisava ter o ‘L.E.’ pra ficar ligado ao Leão. No fim, ficou Andreza Leoyana mesmo”, explica.
Janaína: o Paysandu como herança, emoção e pertencimento familiar
Janaína da Costa Martins, 32 anos, assistente administrativa, torcedora do Paysandu Sport Club, mãe de Ana Ellen Martins Puga, de 4 anos, carrega no cotidiano uma relação com o futebol que mistura identidade, memória familiar e intensidade emocional.
Ela afirma que o vínculo com o clube nasceu antes mesmo da própria consciência. “Costumo dizer que já nasci bicolor. A paixão pelo Paysandu veio através do meu pai. Ele é o responsável por todo esse sentimento e vivência. Inclusive, obrigada, seu Arthur, por ter me feito Paysandu”, diz.
A relação com o futebol foi se fortalecendo na adolescência, quando passou a compreender melhor o esporte e a frequentar estádios. “Acredito que por volta dos 12 ou 13 anos eu comecei a entender mais o futebol, porque o amor pelo clube já era muito forte em mim. Perto dos 14 eu já estava mais presente no estádio, e desde então nunca mais parei”, relata.
Hoje, essa vivência se estende à filha. “Agora faço questão de mostrar pra minha filha como é sentir, respirar, viver e, às vezes, até sofrer pelo nosso time”, afirma.
Janaína define o estádio como parte essencial da sua vida. “Ir ao estádio é minha válvula de escape, meu lazer. Se eu estiver de folga e o Paysandu estiver jogando em casa, pode me procurar lá, eu vou estar no estádio. Sem dúvidas”, conta, com bom humor.
Quando o jogo é fora de casa, a experiência muda de cenário, mas não de intensidade. “Quando o jogo é fora, a gente assiste em casa, juntas. Eu e ela”, diz, reforçando a presença constante da filha na rotina de jogos.
O acesso de 2014: emoção difícil de esquecer
Entre tantas lembranças, uma se destaca de forma especial: o acesso do Paysandu em 2014. Janaína descreve o momento como um dos mais intensos que já viveu como torcedora.
“Foi um momento delicado pro Paysandu. A gente estava precisando de vitória, dependendo de outros resultados. No primeiro jogo no Mangueirão, vencemos por 2 a 1. Meu corpo ficou paralisado, eu queria gritar, chorar, rir, abraçar desconhecidos ao mesmo tempo”, relembra.
A tensão seguiu até o jogo decisivo. “No segundo jogo, o Paysandu venceu por 1 a 0, com um gol quase aos 45 do segundo tempo. Foi uma loucura. Depois disso, foi todo mundo pro aeroporto receber o time, aquela caminhada no sol quente”, conta.
E ela resume a experiência de forma direta: “Meu Deus, é muito bom ser Paysandu. É inexplicável. O futebol respira.”
Helena: o Remo, a família e a emoção que atravessa gerações
Farmacêutica, 32 anos, Helena Diniz é torcedora do Clube do Remo e vive o futebol como parte da própria rotina e da vida familiar. Mãe de Mariana Leal, ela construiu sua relação com o clube a partir de um encontro entre tradição e convivência, e hoje transforma essa paixão em algo que já começa a ser compartilhado dentro de casa.
Ela lembra que o primeiro contato mais direto com o Remo veio por meio do esposo. “Venho de uma família de azulinos. Porém, só fui mesmo me relacionar com o time depois que conheci meu esposo. Tanto que a primeira vez que vi o Leão jogar, foi ele que me levou”, conta.
A partir daí, o vínculo se consolidou na rotina. Helena alterna entre o estádio e a casa, onde acompanha os jogos sempre que possível. “Sempre que dá, vou ao estádio. Mas quando não dá, assisto em casa mesmo e torço igual. O importante é torcer”, diz, com leveza.
Entre tantas partidas, dois episódios ficaram gravados na memória da torcedora. O primeiro deles tem relação direta com um momento muito pessoal de sua vida.
“Existem duas situações que considero muito importantes. Uma delas foi um dia antes de descobrir que estava grávida, quando fui a um jogo no Baenão. Foi algo que marcou muito minha história”, relembra.
O outro é um dos momentos mais celebrados pela torcida azulina: o acesso à elite do futebol brasileiro. “O dia do acesso à Série A foi um dos mais incríveis que já vivi. A energia era surreal, foi lindo demais, uma emoção que não dá pra explicar”, afirma.
A filha Mariana Leal já faz parte desse universo, mesmo antes de nascer. Helena conta que a relação da menina com o clube começou ainda na gestação.
“A Mari desde a barriga já era azulina, rs. Ela adora futebol, brinca bastante. Ainda não tivemos a oportunidade de levá-la ao estádio, mas assim que possível ela vai fazer o ‘debut’ dela no Baenão”, diz.
No dia a dia, o clube já faz parte da rotina familiar e das brincadeiras da criança, que cresce cercada por essa identidade azulina.
Quando o assunto são as maiores emoções vividas pelo clube, Helena não hesita em destacar um episódio de entrega total.
“Acho que minha maior loucura foi ter ido de pé quebrado para o jogo do acesso. Fui de bota ortopédica e muleta, mas fui mesmo assim”, relata.
Ela afirma que, apesar da filha ainda ser pequena para compreender esse tipo de gesto, a tendência é que Mariana cresça acompanhando essa mesma paixão. “Ela ainda não entende essas loucuras, mas com certeza vai nos acompanhar”, completa.
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