Antes mesmo das obras e dos alertas emergenciais, a prevenção de desastres começa com informação, consciência e participação coletiva. É com esse foco que a campanha nacional do Ministério das Cidades “Aprender para Prevenir – Cidades Sem Risco” ganha força em Belém, reunindo especialistas, gestores públicos e comunidades para discutir caminhos capazes de reduzir os impactos de eventos extremos, especialmente nas áreas mais vulneráveis da cidade.
Realizado na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), o encontro colocou a educação no centro das estratégias de prevenção, defendendo que o conhecimento pode ser tão decisivo quanto grandes obras de infraestrutura na proteção de vidas.
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EIXO DA CAMPANHA DE PREVENÇÃO
Coordenadora do Cemaden Educação, Rachel Trajber foi direta ao resumir o eixo da campanha: “Educação é prevenção e educação é uma ação estruturante, não é estrutural.”
Segundo ela, o programa nasce como um braço do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais para dialogar diretamente com a sociedade. A proposta é descentralizar o conhecimento técnico e criar autonomia nos territórios. “A gente trabalha com a mesma ideia do Cemaden, que é criar um ‘Cemaden microlocal’ em cada comunidade, escola ou defesa civil. Esse núcleo faz monitoramento, alertas e pesquisa dos desastres socioambientais no próprio território”, explicou.
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Trajber destacou que a campanha chega à nona edição com um objetivo ampliado: transformar cada comunidade em agente ativo de prevenção. “É uma campanha de campanhas. A gente quer que escolas e comunidades criem suas próprias campanhas, porque a gente não dá conta sozinho.”
PERIFERIAS NO CENTRO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
A centralidade das periferias no debate foi reforçada por Samia Sulaiman, coordenadora da Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades. Para ela, os dados de Belém revelam um padrão nacional. ”Infelizmente, as áreas de risco estão nas áreas periféricas, nas áreas mais pobres, com população vulnerabilizada”, afirmou.
Ela ressaltou que o levantamento do Plano Municipal de Redução de Riscos foi essencial para dimensionar o problema. “A primeira coisa é saber desses dados. Quando a gente financiou o plano, era para ter uma dimensão da problemática, da quantidade de pessoas e das áreas prioritárias.”
Sulaiman também destacou que as ações do governo federal combinam infraestrutura e políticas sociais. “A gente tem urbanização de favelas, regularização fundiária, que traz infraestrutura urbana, e também investimentos em soluções baseadas na natureza”, detalhou.
É PRECISO “ESVERDEAR AS CIDADES”
Essas soluções, segundo Sulaiman, são fundamentais para a adaptação climática. “Como esverdear essas áreas periféricas para que elas recebam essa água? Porque a chuva e as inundações são uma realidade do território amazônico, mas elas podem ser menos impactantes.”
Ela também enfatizou o papel da educação como complemento das obras. “Mais do que as obras, as pessoas precisam conviver com essa realidade. Então, quando a gente leva educação para esses territórios, a gente reduz situações que poderiam se tornar desastres”, enfatizou.
“DESASTRE NÃO É NATURAL”
A professora Milena Andrade, coordenadora do Geodesastres e do PMRR de Belém, trouxe um ponto conceitual central para o debate. “Os desastres naturais, que não são naturais, acontecem por uma combinação de fatores: exposição, vulnerabilidade e ameaça”, explicou.
Ela explicou que um evento só se torna desastre quando há impacto direto sobre populações. “Se uma inundação acontece em um lugar sem pessoas, é um evento natural. O desastre ocorre quando há perdas, quando atinge pessoas e infraestrutura em áreas vulneráveis”, esclarceu.
Para a pesquisadora, a prevenção ainda enfrenta barreiras estruturais no país: “O orçamento para resposta aos desastres é sempre mais fixo do que o orçamento para prevenção, que tem sido reduzido”, lembrou. Além disso, há um desafio cultural: “É uma mudança de cultura. A gente precisa levar essa discussão para as escolas, para as universidades e para os territórios.”
INFORMAÇÃO QUE SALVA VIDAS
Milena Andrade reforçou que o acesso à informação é uma das ferramentas mais eficazes de prevenção. “Primeiro, é entender como os processos ocorrem. Depois, saber o que fazer quando se está em uma situação de risco e quem acionar”, ressaltou.
Ela destacou que o PMRR de Belém inclui não apenas obras, mas também materiais educativos. “Tem cartilhas de prevenção à inundação, de erosão costeira, glossários com linguagem simplificada para a população”, detalhou.
Para Rachel Trajber, essa integração entre conhecimento científico e saber local é essencial. “As pessoas conhecem o seu território. Quando você junta isso com a ciência e com a defesa civil, você melhora a capacidade de resposta”, pontuou.
SOLUÇÕES LOCAIS
As especialistas também apontaram que a prevenção passa por soluções adaptadas à realidade local. Trajber citou exemplos práticos. “Se você tem ondas de calor, o que pode fazer? Plantar árvores, criar áreas de sombra, pensar em telhados verdes, inclusive com materiais como garrafa PET”, exemplificou.
Ela destacou que essas iniciativas, apesar de simples, podem ter grande impacto. “São experimentos que diminuem a temperatura local e ajudam na adaptação climática. A gente precisa multiplicar essas experiências”, enfatizou.
UMA REDE DE PREVENÇÃO
Segundo Trajber, a campanha nacional busca justamente criar essa multiplicação de iniciativas. “Uma campanha no Rio Grande do Sul pode dialogar com uma campanha em Belém. É uma rede”, exemplificou.
Sulaiman, por seu turno, reforçou que essa articulação envolve diferentes níveis de governo e instituições. “É uma política transversal: envolve obras, planejamento e educação, além de articulação interministerial”, definiu.
Já Milena Andrade destacou o papel da universidade nesse processo: “A universidade precisa chegar nos territórios, nas escolas, levar informação e formação.”
PREVENIR PARA NÃO REMEDIAR
Ao final do encontro, o consenso entre as especialistas foi claro: prevenir desastres exige mais do que infraestrutura. Exige conhecimento, participação e mudança de mentalidade. “Os desastres vão continuar acontecendo”, afirmou Samia Sulaiman. “Mas o que a gente pode mudar é o impacto deles.”







