Diante de um diagnóstico de câncer em estágio terminal, o músico Tiago Martins Pitthan, de 49 anos, decidiu fazer o que pouca gente sequer cogita: organizar o próprio velório e comparecer a ele. “Não vou faltar no meu”, avisou, com a ironia de quem escolheu encarar o fim sem cerimônia fúnebre e sem silêncio constrangedor.
Marcado para o dia 30 de maio, no espaço da Cervejaria Canalhas, em Campo Grande, o encontro foge de qualquer roteiro convencional. Não há clima de luto, mas uma programação pensada como uma travessia musical quase uma biografia em forma de festa. Os convidados serão recebidos ao som de bossa nova, numa abertura que remete ao clássico, ao íntimo, ao início de uma história. Em seguida, o ambiente muda de tom: entra o samba de roda, com pandeiro, surdo, cavaco, tamborim, cuíca e tantã, como se a despedida pedisse corpo, ritmo e presença.
A noite avança e ganha contornos ainda mais improváveis. Um DJ assume a trilha com músicas brasileiras de diferentes décadas, misturando memórias e épocas. No meio disso, o próprio Tiago sobe ao palco com a guitarra instrumento que começou a aprender já durante o avanço da doença, quando as metástases de um câncer de estômago se espalharam pelo corpo. O gesto, por si só, já redefine o que se espera de alguém em sua condição.
O encerramento fica por conta do rock and roll, executado por bandas formadas por amigos e convidados, numa espécie de celebração coletiva que troca o tom de despedida pelo de encontro. Entre conhecidos e até desconhecidos, a proposta é simples e, ao mesmo tempo, rara: transformar o velório em vida numa experiência compartilhada, sem protocolo, sem formalidade e sem ausência do protagonista.
Não é aniversário, não é show, tampouco uma despedida convencional. É um velório com o homenageado presente, lúcido e no comando uma escolha que rompe expectativas e desloca o sentido da despedida para o campo da celebração consciente.
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