O Brasil que trabalha com as mãos calejadas, sob sol forte, lama, fuligem e risco diário foi capturado com rigor e impacto pelo fotógrafo Sebastião Salgado, um dos mais importantes nomes da fotografia mundial, ele percorreu o país registrando profissões marcadas por esforço extremo, repetição e invisibilidade — do corte da cana aos garimpos, das lavouras às linhas industriais.
Esse retrato direto, sem filtros, ganha agora nova leitura com a chegada da exposição “Trabalhadores” a Belém, neste 1º de maio, na Galeria 1 do Centro Cultural Banco da Amazônia, reunindo 150 imagens em preto e branco produzidas entre as décadas de 1980 e 1990. A mostra apresenta um mergulho visual no cotidiano de homens e mulheres que sustentam, muitas vezes longe dos holofotes, as engrenagens da economia global.
Com um estilo marcado pelo contraste intenso e pela composição rigorosa, Salgado construiu ao longo da carreira uma narrativa visual que atravessa continentes e revela diferentes formas de trabalho — do campo às fábricas, das minas às plataformas de petróleo. No percurso brasileiro, Salgado revela diferentes realidades do trabalho e ganha contornos históricos ao registrar, por exemplo, os cortadores de cana em Pradópolis (SP), em 1987, atuando após a queima dos canaviais, prática comum à época e diretamente ligada à produção de álcool combustível.
Outro recorte significativo surge em 1990, em Itabuna (BA), onde o cultivo do cacau expõe etapas fundamentais da cadeia produtiva do chocolate, da colheita à fermentação dos grãos em estruturas de madeira. São imagens que documentam não apenas o trabalho em si, mas também as relações econômicas e sociais que o sustentam.
Momentos mais impactantes
É, no entanto, no Pará que a exposição encontra um de seus momentos mais emblemáticos. Em 1986, na Serra Pelada, Salgado registrou o auge do garimpo de ouro a céu aberto, formando um dos conjuntos mais impactantes da fotografia documental contemporânea. As imagens revelam milhares de trabalhadores organizados em uma espécie de “formigueiro humano”, subindo encostas íngremes com cargas que ultrapassavam 60 quilos, em jornadas marcadas por esforço extremo e precariedade.
Além do Brasil, a série percorre outros territórios do trabalho global, incluindo operários têxteis em Bangladesh, metalúrgicos e trabalhadores de estaleiros, além de atividades de extração em condições severas, como mineiros de carvão na Índia e trabalhadores do enxofre na Indonésia, expostos a vapores tóxicos. Em muitos desses contextos, o avanço tecnológico não eliminou a centralidade do esforço físico, apenas transformou suas formas.
As fotografias também registram profissões em transição ou desaparecimento, como métodos tradicionais de pesca do atum, na Sicília, evidenciando mudanças estruturais no mundo do trabalho já nas décadas retratadas. Ainda assim, as imagens permanecem atuais. “Muitos desses tipos de trabalho continuam existindo. Com toda tecnologia, o mundo ainda tem uma condição muito desigual. A gente vê isso no Brasil, cotidianamente, onde situações de trabalho análogo à escravidão ainda aparecem o tempo todo”, afirma o produtor da exposição, Álvaro Razuk.
A mostra tem curadoria de Lélia Salgado, parceira histórica de Sebastião Salgado, que destaca a transformação do trabalho ao longo do século XX: “Trabalhadores fala do mundo do trabalho, de quando ele mudou de um trabalho manual para industrial”. Após a morte do fotógrafo, em 2025, o acervo ganhou ainda mais projeção internacional, com exposições realizadas em países como Alemanha e Estados Unidos, além de capitais brasileiras como Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Brasília. Belém é a primeira cidade das regiões Norte e Nordeste a receber a mostra.
Além da exposição, a programação inclui atividades formativas que ampliam o debate sobre fotografia documental. Entre os destaques estão a palestra “Trabalhadores hoje: o que a fotografia aprendeu com Salgado?”, com a pesquisadora Maíra C. Gamarra, em maio, e o minicurso “Horizontes da Fotografia Amazônica Contemporânea: Da Prática à Curadoria”, ministrado pela artista visual Evna Moura em julho.
A programação do Centro Cultural Banco da Amazônia se encerra em agosto com a oficina “Campo, corte e extracampo – Olhos de ver com Salgado”, conduzida por Miguel Chikaoka.
Com patrocínio do Banco da Amazônia e realização da Maré Produções, a exposição chega a Belém como um registro histórico e visual de um mundo do trabalho que, apesar das décadas que o separam do presente, segue ecoando na realidade brasileira.
Do desaparecimento à resistência: o trabalho sob a lente de Salgado
O olhar de Sebastião Salgado não apenas registrou profissões — ele congelou no tempo realidades que, em muitos casos, desapareceram ou seguem existindo à margem, marcadas por esforço extremo e pouca visibilidade.
Profissões que praticamente desapareceram ou foram transformadas:
- Garimpo manual em larga escala, como o de Serra Pelada, hoje inviável nos moldes dos anos 1980
- Métodos tradicionais de pesca artesanal, como a “mattanza”, substituídos por práticas industriais
- Processos industriais com forte uso de mão de obra manual, hoje automatizados
- Cadeias produtivas agrícolas com técnicas rudimentares, substituídas por mecanização intensiva
Profissões que persistem sob condições duras:
- Cortadores de cana-de-açúcar, ainda submetidos a jornadas exaustivas e metas rigorosas
- Trabalhadores rurais em lavouras diversas, muitas vezes expostos ao calor extremo e baixa remuneração
- Garimpeiros em áreas ilegais ou precárias, com alto risco e pouca proteção
- Carregadores e trabalhadores informais, dependentes do esforço físico intenso para subsistência
- Atividades que, em alguns casos, ainda beiram o trabalho análogo à escravidão, realidade que segue sendo flagrada no Brasil contemporâneo
Mais de três décadas depois, o contraste entre o que desapareceu e o que resiste revela uma constatação incômoda: o mundo mudou, mas o peso do trabalho — especialmente o mais duro — continua recaindo sobre os mesmos corpos.
O post Sebastião Salgado expõe em Belém o Brasil dos trabalhadores invisíveis apareceu primeiro em Diário do Pará.







