Se tem uma coisa que o teatro paraense sabe fazer bem — e isso vem de muito antes das luzes modernas e dos efeitos cênicos — é cutucar onde dói. E é exatamente esse o caminho escolhido pela companhia Cia. Potoqueiros ao trazer de volta aos palcos o espetáculo “Lúgubre”, uma montagem que mistura tradição literária com a crueza da realidade amazônica.
Logo de saída, vale situar o leitor: a peça bebe diretamente da fonte de Dante Alighieri, autor da clássica Divina Comédia — aquela mesma que descreve o inferno, o purgatório e o paraíso como caminhos moldados pelas escolhas humanas. Aqui, porém, não há túnica medieval nem paisagem europeia: o inferno tem sotaque, calor e problemas bem nossos.
Em temporada especial pelos 10 anos da companhia, “Lúgubre” volta em cartaz nos dias 11, 12, 18 e 19 de abril, às 19h, no Espaço das Artes de Belém. Mais do que assistir, o público é convidado a atravessar a peça — literalmente. A proposta é imersiva: o espectador não fica parado na cadeira, ele circula por ambientes e se vê dentro das cenas.
A dramaturgia, assinada por Breno Monteiro e Lauro Sousa, não segue aquele roteiro clássico de começo, meio e fim bem comportados. Ela foi construída durante os ensaios, num processo vivo, quase artesanal — como se fazia no teatro raiz, onde o corpo do ator e a experiência coletiva moldavam o texto. O resultado são três atos que funcionam como uma descida simbólica aos “círculos do inferno”, mas com temas bem contemporâneos: ganância, intolerância, fanatismo, violência e até aquele velho conhecido do brasileiro… o jeitinho.
Não por acaso, a montagem faz questão de trazer esse inferno para perto. A peça escancara situações que dialogam com o cotidiano: corrupção banalizada, discursos de ódio, crises de identidade e relações humanas em ruínas. Nada de metáfora distante — é o tipo de espelho que a gente evita olhar de frente. Como resume a própria equipe, a ideia é simples e desconfortável: o inferno não é um lugar distante, ele é construído aqui mesmo, nas escolhas de cada um.
O título já entrega o clima. “Lúgubre” remete ao luto, à dor, ao que está em decomposição — e essa estética atravessa toda a encenação. São 12 atores em cena apostando no teatro físico, com forte carga corporal e emocional, criando imagens intensas que dispensam explicações longas. É o tipo de espetáculo que se sente antes de se entender.
A montagem não surge do nada. Ela foi a primeira criação da companhia, lá em 2017, e agora retorna mais madura, integrando a chamada “Tríade Divinal”, ao lado de “Catarse” e “Nártex”, que também devem ganhar espaço ao longo do ano. A promessa é fechar 2026 com a trilogia completa — um feito respeitável para um grupo independente na Amazônia, onde fazer cultura ainda exige mais resistência do que aplauso. Os ingressos custam R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia e antecipados), com vendas pelo WhatsApp (91) 98112-3688.
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