A primavera chega ao Porto como quem não quer perturbar a memória das pedras e das flores. Primeiro, um sopro leve sobre as margens do Douro, quase um ensaio tímido, como os mais delicados acordes iniciais de Vivaldi, ainda suspensos no ar, prometendo mais do que dizem.
O sol nasce devagar, dourando as águas do rio, e parece que bebe delas antes de se erguer por inteiro, como se precisasse do vinho antigo das correntes para ganhar força. Há algo de solene nesse instante: o Porto acorda com dignidade, como quem conhece a própria história e percebe o despetalar de sua essência milenar.
As fachadas gastas, os azulejos que contam batalhas e fé, recebem essa luz inaugural como velhos atores que ainda sabem o seu papel, mas o ensaiam todos os dias. E então, quase sem aviso, a cidade respira mais fundo. As flores desabrocham no Jardim de Cristal, em cores que não pedem licença – rosas, amarelos, lilases – e há um rumor de vida que se espalha, e um sabor de frutas vermelhas ao vento.
Crianças correm, pessoas da Melhor Idade se sentam ao sol, casais inventam promessas que talvez não cumpram. Mas é assim a primavera no Porto: como a sonata que não exige garantias; a ela só basta o instante.
O azul se faz céu com uma nitidez quase excessiva, como se alguém tivesse limpado o mundo, com a maciez do pólen e o odor das flores, durante a noite. E o Porto, com sua gravidade de granito, permite-se, por algumas horas, ser leve e silente como as caves de Gaia. Há um ritmo que percorre as ruas, nos passos apressados da Baixa, no tilintar dos bondes (que aqui chamam elétricos), no murmúrio das esquinas.
E tudo isso se encaixa como se obedecesse a uma partitura invisível. É o meio do dia, e a cidade vibra no seu tom mais alto, quase épico, como o coração da primavera de Vivaldi: pulsante, jubiloso, irresistível.
Mas o Porto sabe, como poucas cidades, a arte da transição. Quando a tarde começa a cair, há um abrandamento delicado, uma espécie de rendição ao tempo. O vento, frio desde os primeiros raios do sol, segue a soprar. No Jardim do Morro, o sol cumpre seu ritual solene e se despede com uma elegância que não precisa de aplausos.
Ele desce lentamente, tocando o Douro com uma luz quente, quase líquida, como se devolvesse ao rio aquilo que dele tomou pela manhã. As sombras alongam-se, e a cidade parece recolher-se um pouco, como quem fecha um livro no capítulo certo, sem aviso prévio.
E então vem a noite, trazendo com ela uma surpresa que não é surpresa: a lua cheia. Primeiro, pálida, discreta, como uma nota suave que mal se distingue. Mas ela cresce, ganha cor, adquire um rubro inesperado, qual o fogo da vida, e sobe sobre a Torre dos Clérigos com uma presença que impõe silêncio. Não é um espetáculo, é uma revelação. A cidade, que foi música durante o dia, torna-se escuta e acalanta o silêncio das madrugadas .
Nesse momento, o Porto parece compreender tudo: o tempo que passa, a beleza que insiste, a melancolia que não pesa. A primavera, afinal, não é apenas o florescer das árvores, mas o despertar de uma memória que se renova sem se apagar. Como em Vivaldi, o ímpeto inicial cede lugar a um fim suave, quase íntimo, como se a própria música soubesse que a grandeza precisa, por fim, descansar.
E assim a cidade adormece, mas nunca completamente, com o Douro ainda a murmurar histórias e a lua a guardar, no alto, o segredo de que tudo recomeça, sem que se queira alcançar qualquer final.
*Sérgio Augusto do Nascimento é um jornalista paraense que vive em Portugal. Foi repórter e editor e hoje é correspondente do DIÁRIO na Europa.
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