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Daniel Mira reflete sobre criação em livro inspirado na Amazônia

Daniel Mira, escritor

Entre rios, ventos e histórias ancestrais, o artista e pesquisador Daniel Mira encontrou na Floresta Amazônica um território fértil para repensar o próprio sentido da criação. Essa experiência deu origem ao livro O vento veio e falou comigo, publicado pela Hanoi Editora, no qual o autor propõe uma reflexão profunda sobre imaginação, memória e o ato de criar.

A obra nasce de uma jornada vivida às margens do rio Tapajós, especialmente em Alter do Chão, distrito de Santarém, no Pará. Ali, em contato com comunidades locais, anciãos e a paisagem amazônica, Mira ampliou sua investigação artística e filosófica, cruzando experiências pessoais com referências da fenomenologia e da etnografia.

Mais do que um relato de viagem, o livro se constrói como um ensaio sensível sobre o processo criativo. Com textos que transitam entre poesia, reflexão e narrativa, acompanhados por fotografias e pinturas do próprio autor, a obra convida o leitor a desacelerar e a cultivar uma escuta mais atenta do mundo.

No prefácio, a filósofa Lúcia Helena Galvão destaca o caráter crítico do trabalho ao comentar que a cultura contemporânea muitas vezes produz “fachadas” sem profundidade. Para ela, o livro de Daniel Mira aponta justamente para o caminho oposto: uma retomada de memória e sentido diante de um cenário marcado pela pressa e pela superficialidade.

Ao longo das páginas, o autor propõe que criar não significa produzir mais, mas aprofundar a experiência. Em vez de repetir fórmulas ou responder à lógica da produtividade, ele sugere um gesto criativo que nasce do encontro com o inesperado — um processo que envolve atenção, presença e abertura ao imprevisível.

Essa perspectiva dialoga diretamente com a vivência amazônica que transformou seu olhar artístico. Foi ali que histórias, paisagens e imaginários locais revelaram novas possibilidades de perceber o mundo e de construir imagens, tanto na fotografia quanto na escrita.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Pará, Daniel Mira fala sobre o impacto da Amazônia em sua trajetória, a crise contemporânea do imaginário e os caminhos possíveis para recuperar uma criação mais humana e sensível.


Pingue-pongue com Daniel Mira

O que o levou a buscar a Floresta Amazônica como espaço de imersão criativa?

Esse livro começa a partir de um convite que recebi de uma amiga chamada Celia Matsunaga, que depois foi minha orientadora no mestrado. Ela desenvolvia um projeto chamado Visualidades da Amazônia, iniciado na região de Alter do Chão com algumas comunidades. Eu já participava desse grupo de pesquisa e fui para lá muito curioso, com muita vontade de conhecer a floresta, que eu ainda não conhecia.

Isso aconteceu por volta de 2015 para 2016. A partir dessa experiência, redimensionei o meu olhar e o processo criativo para uma dimensão de fluxo da vida e da natureza. O contato com o rio Tapajós, com as comunidades e com todo esse imaginário me povoou de uma maneira muito distinta. Foi uma proposição de pesquisa, mas que acabou se transformando em uma integração profunda com tudo aquilo.

Capa do livro

Por que escolheu Alter do Chão para essa jornada?

Alter do Chão também surgiu a partir desse convite da Celia. Mas o lugar se revelou muito especial por reunir vários elementos. Ele tem essa dimensão turística conhecida, mas também guarda uma relação interessante com a história portuguesa, porque existe uma cidade irmã chamada Alter do Chão em Portugal.

Para mim, o que mais chamou atenção foi a potência de vida da floresta amazônica ali, associada à fluidez dos rios e à paisagem que envolve as pessoas, a vegetação e toda a cultura local. É um lugar encantador e também muito misterioso, por concentrar uma floresta com tanta vida e tanta história.


Em que momento você percebeu que a experiência na floresta estava transformando seu modo de criar?

O primeiro impacto já aconteceu na primeira visita. O contato com a paisagem e com os contextos ecológicos despertou um grande deslumbre. Mas foi na segunda viagem, quando fui entrevistar comunidades da Flona Tapajós, que algo realmente mudou.

Em uma conversa com dona Conceição, liderança local, ela começou a contar histórias de quando chegou à região. Ela relatou que fazia o trajeto até Santarém de canoa, empurrando com madeira pelas margens do rio Tapajós — uma viagem que levava cinco dias.

Quando ela descreveu esse percurso, eu visualizei toda aquela linha do rio e percebi como o imaginário dela tinha uma potência criativa enorme. Foi um momento muito forte para mim.

Outro instante marcante foi quando conversei com seu Joaquim, que contou a história do vento e da “mãe do mato”. Ele dizia que, em certa ocasião, o vento chegou e falou com ele. Para quem vem da cidade, isso pode parecer quase folclore, mas para as comunidades é algo natural. Ali percebi que estava acessando outra dimensão de criação, ligada ao imaginário da floresta.


No livro, você fala sobre abandonar formas rígidas para acolher o imprevisível. O que significa criar sem controle?

Nós crescemos com imaginários muito contaminados por formas massivas de cultura. Muitas vezes temos imagens prontas sobre como as coisas devem ser. Isso torna nossa visão muito rígida.

Criar a partir do imprevisível significa esvaziar essas referências e prestar atenção no momento. Quando você encosta o lápis ou o pincel no papel, por exemplo, não é apenas você que conduz o gesto. Existe uma relação entre você, o instrumento e o espaço. A imagem surge desse encontro.

É parecido com o trabalho de um barqueiro na Amazônia. Ele precisa ler constantemente o fluxo do rio. Não existe um caminho totalmente fixo. Criar sem controle não é algo aleatório, mas um tipo de controle atento ao instante.


Como diferenciar disciplina criativa de produtividade vazia?

No pensamento ocidental, muitas vezes se associa disciplina a rigidez. Mas existe outro tipo de disciplina, ligada à atenção, à presença e às virtudes humanas.

No processo criativo, isso significa criar algo que dialogue com o futuro, não apenas repetir o que já existe. Hoje vivemos uma produtividade muito materialista, que transforma tudo em produto.

A disciplina criativa é quase espiritual. É uma forma de estar presente e de produzir algo que realmente seja necessário para as pessoas — e não apenas mais um objeto de consumo sem alma.


Você menciona uma crise do imaginário marcada pela pressa e superficialidade. Como percebe isso no cotidiano?

Quando falo de imaginário, não me refiro apenas a imagens visuais. É algo ligado à potência da imaginação, quase como a semente de uma ideia.

Hoje vivemos com muita pressa. Consumimos experiências sem realmente vivê-las. Isso faz com que superficializemos tudo — desde a alimentação até a forma como pensamos o mundo.

Se uma pessoa sempre repete as mesmas experiências, o imaginário dela também fica limitado. Ela deixa de acessar outras culturas, outras percepções. E isso empobrece muito a experiência humana.


O que perdemos quando o ato de criar vira apenas performance produtiva?

Perdemos aquilo que é essencialmente humano. O ser humano é um ser poético e sensível.

Quando transformamos a criação em mera produtividade, tiramos a alma das coisas. A criação verdadeira tem a ver com dar sentido, com trazer algo que seja bom, belo e justo.

Quando fazemos algo com intenção humana — seja uma obra de arte ou até uma mesa de madeira — deixamos ali marcas da nossa singularidade. A massificação, ao contrário, produz repetição e apaga essa presença humana.


Depois dessa experiência, o que passou a ser inegociável no seu processo criativo?

O que se tornou inegociável é a intenção humana no presente. O processo criativo precisa ser um estado de presença real.

É um momento em que me esvazio para deixar a vida passar através de mim. Foi isso que senti na Amazônia.

Esse estado de presença, quase meditativo, permite que a criação aconteça de forma mais profunda, conectada ao sentimento e à experiência da vida.


Serviço

Livro: O vento veio e falou comigo
Autor: Daniel Mira
Editora: Hanoi Editora
Páginas: 212
Formato: 15 x 23 cm
ISBN: 978-65-8017-342-6
Preço: R$ 120
Onde encontrar: Amazon

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