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segunda-feira, março 9, 2026

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Medo faz parte da rotina feminina: 7 em cada 10 mulheres relatam assédio

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Pesquisa da Ipsos-Ipec mostra violência cotidiana contra mulheres Foto Ceslso Rodrigues/Diário do Pará.

Quando se é mulher, uma rápida saída de casa para ir até a padaria ou a espera do ônibus em uma parada vazia pode ser sinônimo de medo. Diante da proximidade de pessoas estranhas, o coração dispara, o passo é apressado e o que mais se espera é chegar a um lugar em que se possa, enfim, sentir segura. O medo que acompanha muitas mulheres em diferentes atividades corriqueiras da vida não é à toa. Uma pesquisa inédita divulgada nesta primeira semana de março identificou, por exemplo, que 70% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio em diferentes ambientes.

Ouvindo 3.500 pessoas em 10 capitais brasileiras, incluindo Belém, a pesquisa “Viver nas Cidades: Mulheres 2026” foi realizada pela Ipsos-Ipec e pelo Instituto Cidades Sustentáveis, no âmbito do Programa Cidades Sustentáveis, em parceria com o Sesc-SP e a Fundação Grupo Volkswagen.

Mais do que a ocorrência de assédio em si, o estudo amplia o enfoque para a percepção da desigualdade de gênero e, consequentemente, em como isso se reflete em situações de assédio. Quando se trata das tarefas domésticas, por exemplo, a percepção de que as atividades são divididas igualmente entre homens e mulheres é mais forte entre os homens. Já entre as mulheres, a percepção predominante é a de que, apesar de ser responsabilidade de ambos, são as mulheres que fazem a maior parte das tarefas.

Para a supervisora da Área de Gestão de Conhecimento, Monitoramento e Avaliação da Fundação Grupo Volkswagen, Jennifer Caroline Luiz, esse é um exemplo que demonstra o quanto o machismo está presente na estrutura da sociedade e, assim sendo, essa estrutura impacta em uma ‘autorização velada’ para que assédios sejam cometidos contra as mulheres.

“Na pesquisa, 7 em cada 10 mulheres entrevistadas afirmam já ter vivido alguma situação de assédio em um dos ambientes da pesquisa. Na maioria das 10 capitais entrevistadas, a percepção é nos mesmos ambientes: ruas e espaços públicos são os primeiros locais, seguidos do transporte público e o terceiro é o ambiente de trabalho”, aponta. “Duas em cada dez mulheres dizem já terem sofrido assédio também em transporte particular e 28% já sofreram assédio dentro do ambiente familiar. Então, é uma sensação generalizada de insegurança. A mulher tem receio de transitar livremente por se sentir insegura”.

Considerando os seis locais pesquisados, aproximadamente 3/4 das mulheres entrevistadas dizem que já sofreram assédio em ao menos um dos ambientes avaliados. Essa proporção é maior em Porto Alegre (79%) e menor em Fortaleza (68%) e Belo Horizonte (68%). Em Belém, este cenário foi indicado por 70% das entrevistadas.

Jennifer Caroline Luiz

Quando perguntadas sobre medidas prioritárias para combater a violência doméstica e familiar, ‘aumentar a pena para os agressores de mulheres é a medida considerada prioritária por internautas das 10 capitais para combater a violência contra elas, sendo mais citada pelas mulheres do que por homens’. Em segundo lugar, foi citada a necessidade de ampliar os serviços de proteção às mulheres, seguida pela aceleração do andamento da investigação das denúncias.

“Nós temos, de um lado, o que as próprias entrevistadas apontam como algo que faria com que a sua percepção de insegurança diminuiria: como o fluxo muito mais agilizado e rápido para os mecanismos de denúncia. Isso faz muito eco com o que deveria ser adotado nas estratégias”, pontua Jennifer Caroline Luiz.

“É necessária uma política pública no âmbito nacional e subnacional, grandes acordos com o setor privado e empresarial, estimulando que as empresas criem políticas de denúncia e conscientização, e a sensibilização da sociedade de quanto essa agenda precisa estar presente no dia a dia e o quanto a gente precisa envolver os homens na tomada de consciência, nesta agenda. A grande transformação vem daí”.

Ainda que iluminar melhor os locais onde são registradas mais ocorrências seja uma medida importante, Jennifer destaca que medidas estruturantes são mais importantes. “A Fundação fez uma série de estudos que constataram que as mulheres têm menos acesso às políticas públicas e ao sistema de segurança pública. Nos diagnósticos da Fundação descobrimos que muitas vezes a mulher não faz a denúncia porque precisa da complementação da renda do companheiro”, exemplifica, ao citar algumas iniciativas da Fundação pautadas em mudanças estruturais.

“A nossa estratégia focou em priorizar mulheres e jovens nos nossos projetos de inclusão produtiva porque garantir uma renda mínima pode ser um alicerce muito importante para que a mulher tenha condições de fazer a denúncia, sair de casa, buscar ajuda. Na nossa estratégia de advocacy, a gente tenta contaminar os nossos parceiros para que tenham essa mesma agenda de enfrentamento e fortalecimento das mulheres também. As mulheres precisam se ver nessas iniciativas”.

Cenário apontado pela pesquisa se reflete nas ruas

Destacada pelos dados da pesquisa, a percepção de insegurança das mulheres se reflete nas ruas. Entre as mulheres que precisam trabalhar nas vias públicas, não são raros os relatos que demonstram, na prática, os desafios enfrentados pelas mulheres diariamente.

Agente de limpeza urbana, Helen Cristina, 31 anos, considera que ser mulher impõe um peso suportado nos mais diferentes momentos da vida. “Eu acho que já é um peso ser mulher porque a gente sofre tanta coisa. Tudo o que a gente faz tem esse receio de como que a gente vai ser recebido, como que vão tratar a gente. Às vezes começa desde a contratação numa empresa. Tem que ter o padrão que eles querem porque senão tu não és útil para eles. Na verdade, a gente, mulher, só vale se a gente for útil. É isso que eu entendo”.

Helen Cristina Foto Ceslso Rodrigues/Diário do Pará.

Diante de notícias cada vez mais frequentes de casos de assédio e feminicídio não só no Brasil, como em outros países, Helen considera que nunca se sentiu tão insegura como nos dias de hoje. “Se a gente sai de casa para comprar um açaí, a gente já fica preocupada. E agora, com os anos passando, eu já me sinto amedrontada. Eu acho que o que eles entendem que é, por ser mulher, é frágil e não se garante, mas não é dessa forma. A gente tem que se auto proteger. É nós por nós e Deus por nós”.

Ao ouvir uma das perguntas feitas na pesquisa – se já sofreu assédio em algum momento da vida -, Helen não titubeia ao responder. “E muito!”, aponta. “Eu já sofri assédio várias vezes. Igual aqui no meu trabalho. Eu estou trabalhando e várias vezes já tiveram homens falando: “Oi, linda!”, “Oi, gata”, “Você pode me dar o seu número?”. Isso é um constrangimento para mim porque eu só estou aqui trabalhando. A gente precisa de segurança, na verdade, porque tem muita gente com esse pensamento de que ‘ah, é mulher, ela não se garante. Eu vou pegar e fazer o que eu quero e pronto’”.

A sensação de insegurança também acompanha a autônoma Raely Borges, 27 anos. Dona de uma venda de café da manhã, ela considera que o medo é companhia constante das mulheres. “Em todas as áreas da vida da gente, hoje em dia, é impossível a gente não ter medo. Como mulher, como mãe, por todos os riscos que nossos filhos correm, principalmente se a gente precisa sair para trabalhar e deixar eles com alguém”, considera. “E mesmo que a gente tenha um casamento bom, seja feliz no casamento, mas sempre tem um risco porque até para sair de casa pra comprar um pão ou pra ir pro trabalho a gente precisa ter um certo cuidado”.

Raely Borges Foto Ceslso Rodrigues/Diário do Pará.

Ela conta que até mesmo a rotina de trabalho é impactada.

“Eu, particularmente, antes vinha mais cedo para trabalhar, eu moro em Ananindeua. Mas tiveram algumas coisas que aconteceram, negócio de assalto, essas coisas. Fora também que tem momentos em que a gente se sente perseguida, parece. Então, eu conversei com o meu esposo e a gente decidiu que eu viria um pouquinho mais tarde, tivemos que mudar o horário para não ter certos riscos. Até porque, às vezes, quando a gente mais precisa de um apoio, a gente não tem porque a sociedade, hoje em dia, está muito difícil. Aí a gente tem que ficar mudando os nossos horários, tentar de tudo para tentar se proteger”.

Locais de Ocorrência

Os espaços públicos como ruas, praças e parques e o transporte coletivo são os locais onde as mulheres internautas estão mais vulneráveis ao assédio, visto que mais da metade delas diz ter sofrido assédio nesses ambientes.

  • 56% -Na rua/ outro espaço público (praça, parque, praia)
  • 51% -Sofreu assédio dentro do transporte público
  • 38% -Sofreu assédio dentro do ambiente de trabalho
  • 33% -Em bares e casas noturnas
  • 28% -Sofreu assédio dentro do ambiente familiar
  • 17% -Sofreu assédio dentro de transporte particular como mototáxi, táxi, UBER e 99
  • BELÉM
  • Situações de assédio sofridas pelas mulheres entrevistadas em Belém
  • 52% – Na rua/ outro espaço público (praça, parque, praia)
  • 45% – Dentro do transporte público
  • 28% – Dentro do ambiente de trabalho
  • 30% – Em bares e casas noturnas
  • 30% – Dentro do ambiente familiar
  • 16% – Dentro de transporte particular como mototáxi, táxi, UBER e 99
  • Fonte: Pesquisa “Viver nas Cidades: Mulheres 2026”.

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