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terça-feira, março 10, 2026

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Uma luz no fim da paralisia: pesquisa brasileira avança contra lesão medular

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Foto: Reprodução

Uma molécula estudada há quase 30 anos no Brasil começa a ganhar status de esperança real para pessoas com lesão na medula espinhal — condição que hoje não tem tratamento capaz de recuperar plenamente os movimentos perdidos. Trata-se da polilaminina, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que acaba de receber autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 de testes clínicos em humanos.

A substância é derivada da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo e essencial no desenvolvimento do sistema nervoso. Em laboratório, os cientistas criaram uma versão capaz de funcionar como uma espécie de “andaime biológico”, estimulando o crescimento dos axônios — estruturas dos neurônios que são rompidas quando há lesão medular.

Em estudo preliminar divulgado no ano passado, oito pacientes com lesão medular completa receberam a aplicação experimental durante a cirurgia. Seis apresentaram recuperação de movimentos, o que representaria 75% de melhora — percentual bem acima dos cerca de 15% observados historicamente em casos semelhantes. Dois pacientes morreram em decorrência da gravidade da própria lesão. Os resultados, no entanto, ainda não passaram por revisão independente e são considerados iniciais pelos próprios pesquisadores.

DECISÕES JUDICIAIS

Mesmo sem aprovação definitiva, decisões judiciais têm permitido o uso experimental em casos específicos. Um deles é o da nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após um acidente e recebeu a aplicação no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Segundo a família, ela voltou a movimentar o braço direito. A coordenadora da pesquisa, Tatiana Sampaio, reconhece que o uso fora de protocolo científico não é o ideal, mas admite que a gravidade dos casos pesa nas decisões judiciais.

A produção da polilaminina ocorre em parceria com a farmacêutica Cristália. A laminina é extraída de placentas doadas por gestantes em hospitais do interior de São Paulo, passa por processo de purificação e é preparada no momento da cirurgia, formando uma rede que dá suporte à regeneração das células nervosas.

A descoberta também tem mobilizado pacientes que convivem há anos com lesão medular, como a ex-atleta Lais Souza. Em mensagem publicada após conhecer a pesquisadora Tatiana Sampaio, ela escreveu: “Hoje tive o privilégio de conhecer Tatiana Sampaio. Eu precisava vir pessoalmente agradecer por todos esses anos dedicados à pesquisa. Em 12 anos de lesão, acompanhei inúmeros estudos ao redor do mundo. Li artigos, vi reportagens, ouvi especialistas, mas sem criar expectativas. Nenhum deles tinha despertado em mim o que senti ao conhecer a polilaminina. Eu sempre disse que viajaria para qualquer lugar do mundo se surgisse uma pesquisa verdadeiramente promissora. E nunca, nem nos meus melhores sonhos, imaginei que essa luz estaria tão perto. Aqui na nossa casa, no nosso país. Continuo acompanhando cada notícia, entrevista, podcast e atualização com otimismo, cautela e pés no chão. Torço para que os resultados avancem além do que hoje conseguimos imaginar. Deus, me permita estar viva para ver não apenas a minha vida impactada, mas a de milhões de pessoas. Que essa descoberta alcance quem já espera há décadas e também transforme o futuro das próximas gerações. Tatiana, hoje eu vim te dar um abraço. Porque o seu abraço eu já recebo todos os dias, a cada notícia.”

Agora, a fase 1 vai avaliar a segurança do tratamento em cinco pacientes com lesão medular completa na região torácica, com aplicação em até 72 horas após o trauma. O estudo será conduzido em parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com reabilitação apoiada pela AACD.

Se os resultados confirmarem segurança e eficácia nas próximas fases, o pedido de registro poderá ser submetido à Anvisa a partir de 2028. Até lá, a cautela científica caminha lado a lado com a expectativa de milhares de pacientes. Em um cenário em que a medicina tradicional sempre ofereceu apenas contenção de danos, a possibilidade de regeneração neural reacende uma esperança antiga — agora com assinatura brasileira e sob o crivo rigoroso da ciência.

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