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sábado, março 7, 2026

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Dormir em redes: tradição amazônica ganha espaço e voz global na COP30

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Andressa Ferreira/DOL – A cultura paraense carrega uma de suas marcas mais simbólicas na simplicidade acolhedora das redes de dormir. Em cidades ribeirinhas, comunidades amazônicas e até nos centros urbanos, a rede não é apenas um objeto doméstico — é um modo de vida, uma forma de descanso moldada pelo clima quente da região, pela arquitetura das casas e, sobretudo, pelo vínculo histórico com a floresta e com os modos tradicionais de habitar a Amazônia. Essa tradição secular, passada de geração em geração, representa ao mesmo tempo conforto, ancestralidade e resistência cultural.

Na COP30, Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Belém (PA), um espaço na Green Zone – área que não exige credenciamento e é aberta ao público de todas as idades – dedicado às redes de dormir tem chamado a atenção dos visitantes.

Mais do que apresentar um costume regional, para o historiador da Universidade Federal do Pará (UFPA), Wesley Kettle, ter um espaço como esse dentro de uma conferência global é um gesto político e simbólico que reafirma o protagonismo dos povos amazônicos em debates sobre o futuro ambiental do planeta.

“Dormir em redes é um costume herdado dos nossos ancestrais indígenas. Os europeus, logo no período da colonização, perceberam as grandes vantagens das redes e passaram a utilizar em seu cotidiano. Eram leves, ventiladas, adaptáveis ao clima tropical e, sobretudo, permitiam acomodar mais pessoas em espaços reduzidos, como os porões e conveses dos navios. Também chamadas de hamacas, as redes transformaram a logística das viagens atlânticas, porque substituíam camas e tábuas, otimizando espaço e ampliando a capacidade de transporte humano — seja de tripulantes, soldados ou passageiros comuns”, relembra o historiador da UFPA.

Historiador da UFPA celebra o espaço de representatividade e ancestralidade na COP30. Foto: Arquivo Pessoal

Modo de viver amazônico é parta da solução climática

Segundo Wesley Kettle, elementos históricos e culturais ajudaram a manter essa prática viva até hoje. “É adequada ao ambiente amazônico — ao clima amazônico. Ela permite ventilação, protege de insetos e se adapta à arquitetura de casas de madeira, palafitas. Ela é mais acessível a um público com menor poder aquisitivo. Todo tipo de passageiro dos barcos, como os navios gaiola, que navegam os rios amazônicos sempre a utilizaram. Assim, a rede se tornou uma marca da cultura do Pará”, diz o historiador.

Em meio a discussões técnicas, dados científicos e negociações diplomáticas, esse espaço traz para o centro do evento uma dimensão humana: a de que o modo de viver amazônico é parte da solução climática. A presença da rede em um ambiente internacional quebra expectativas e desloca o olhar de quem ainda enxerga a Amazônia apenas como paisagem ou recurso natural.

Foto: Emerson Coe/DOL

Para o historiador da UFPA, as redes nesse espaço da COP30 se tornam uma linguagem silenciosa que comunica pertencimento, identidade e memória cultural, mostrando que preservar a Amazônia significa, também, preservar esse modo de existir.

“Cada vez as temperaturas estão mais elevadas, a rede se torna mais importante para dormir, pois são ventiladas e leves. Caçadores na floresta a utilizam para esperar as caças na mata. O povo amazônida leva as redes para dormir nas embarcações durante as longas viagens. O preço é mais em conta, ela se adequa ao modo de vida da nossa região”, explica o historiador, brincando que não tem “nada melhor que uma rede depois de tomar um açaí”.

Povos amazônicos e o protagonismo nos debates climáticos

Para os povos ribeirinhos, indígenas e quilombolas, ver sua cultura material representada em uma conferência global é um reconhecimento raro — e necessário. A rede remete às noites nas margens dos rios, às longas viagens de barco, aos encontros familiares nas varandas das casas suspensas, ao equilíbrio entre natureza e cotidiano. É uma lembrança sensorial que conecta a vida das comunidades amazônicas ao debate climático, reforçando que elas não são espectadoras, mas protagonistas.

Leia também: Égua, o Pará está no centro do mundo: pertencimento e orgulho histórico com a COP30

O espaço dedicado às redes também transmite uma mensagem de acolhimento e descanso em meio a uma conferência marcada por tensões políticas e disputas internacionais. Para Wesley Kettle, ao convidar participantes a experimentar a rede, a COP30 cria um momento de pausa e de aproximação com a cultura amazônica. Segundo ele, “é como se dissesse, de forma suave, que desacelerar também é uma forma de cuidar do planeta — e que soluções climáticas podem emergir do respeito aos saberes tradicionais”.

“Muitos deles (estrangeiros) nunca experimentaram deitar em uma rede e sentir o corpo relaxar dessa maneira. Estão sentindo na pele a importância de considerar as soluções indígenas para os problemas reais. Experimentando a tecnologia indígena para solução de problemas. Espero que isso também seja considerado nas mesas de negociação sobre o clima”, enfatiza o historiador da UFPA.

Símbolo de sustentabilidade e respeito à ancestralidade

Para o Pará, o espaço das redes é um motivo de orgulho. Ele funciona como vitrine cultural e como afirmação de identidade, reafirmando o estado não apenas como anfitrião, mas como sujeito ativo da narrativa global sobre clima. A rede, tão cotidiana para quem vive no Norte, torna-se símbolo internacional de sustentabilidade, de adaptação ao meio ambiente e de respeito à ancestralidade.

Quem aprovou o espaço foi a paraense Dafne Pimentel. “É extremamente regional, muito confortável. É a primeira vez que eu consigo deitar aqui, porque geralmente está sempre ocupado, é um espaço super concorrido, maravilhoso. Deveria ter mais espaços assim por em Belém”, opina a jovem.

A nutricionista Helen Cohen também esteve no espaço e não poupou elogios. “É tão verdadeiro, tão paraense, né? Eu nunca pensei que eu estaria num espaço com uma rede aqui no meio de um evento global. Eu achei espetacular. Estou achando tudo muito bonito”, disse ela, encantada.


Para o historiador da UFPA, Wesley Kettle, colocar a rede no centro de uma conferência global é fazer o Pará enviar uma mensagem potente — a de que discutir o futuro do clima passa, inevitavelmente, por ouvir e valorizar aqueles que sempre souberam viver em harmonia com ele.

“A rede é uma das mais bem sucedidas tecnologias elaboradas pelos povos indígenas, é uma marca da Amazônia. Penso que isso é uma mensagem de representatividade e valorização do conhecimento ancestral indígena. Eu vejo tanta poesia nisso, em trazer para dentro do espaço da COP30 uma tecnologia indígena, que diminui as tensões e ainda estimula conexões entre as pessoas”, conclui o historiador.

No fim, o que esse espaço ensina ao mundo é simples e profundo: a Amazônia não é só floresta; é gente. É cultura viva, pulsante, resiliente.

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