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quinta-feira, março 12, 2026

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A ‘Broderagem’ que vira romance: O mecanismo secreto da sexualidade em Tremembé

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Série mergulha nos bastidores da prisão dos famosos. Foto: Reprodução

Em uma reveladora entrevista concedida ao jornalista Beto Ribeiro em seu canal no YouTube, o escritor Ullisses Campbell detalhou o funcionamento da sexualidade e do contato físico dentro do sistema prisional brasileiro, com foco especial na Penitenciária de Tremembé. Campbell explica que, no ambiente carcerário, existe uma “sexualidade adaptativa fluida”.

Embora a sexualidade flua nas duas unidades (masculina e feminina), ela é mais rapidamente aceita e flui mais velozmente na feminina, pois as mulheres tendem a ser mais afetuosas. As relações entre elas se estabelecem rapidamente, assemelhando-se a namoros ou casamentos, com casais que se beijam hoje e no dia seguinte já estão dormindo no mesmo beliche.

O Início Sutil em Tremembé

Na unidade masculina de Tremembé, o contato íntimo começa de forma mais sutil. Uma causa fundamental para a formação de casais homoafetivos é o frio extremo. Localizada no Vale do Paraíba, próximo a São José dos Campos, a região é conhecida por suas baixas temperaturas.

Como não há cobertores suficientes ou o frio é tanto que um único cobertor não resolve, os detentos são obrigados a dormir juntos para se aquecer. O contato inicial se dá na “posição de valete”, como na carta de baralho: um virado para a frente e o outro para trás, com o rosto de um na altura do pé do outro. Eles ficam ali, sob o mesmo cobertor, apenas para esquentar um ao outro.

Entretanto, após várias noites de frio intenso nessa posição, o que começa como um “valete” rapidamente evolui para um “rei” ou um “coringa”. Os detentos passam a dormir rosto a rosto (frente a frente), e o beijo surge como mais uma forma de aquecimento. Campbell salienta que, pela manhã, a relação é negada, sendo tratada apenas como “broderagem” (companheirismo), sem paixão, mas a parceria se reafirma à noite, quando precisam dormir juntos novamente.

Complicidade e Sobrevivência

Além do frio, a formação de “pares” (companheiros de cela) é uma dinâmica de sobrevivência. A cumplicidade pode nascer de uma motivação muito específica: a proteção.

Um recém-chegado (novato) na prisão, que passa as primeiras noites sem dormir devido ao medo, pode ser abordado por um companheiro de cela. Este par, que nem sempre é um casal, oferece proteção, dizendo: “dorme que eu te vigio”. Isso é crucial, pois se o novato dormir, pode ter seus poucos bens (como sandálias havaianas, escova de dente) roubados. Dependendo da penitenciária, essa cumplicidade, que Campbell classifica como inocente em sua origem, pode até mesmo proteger contra um assassinato. Essa dinâmica de proteção mútua perpetua-se durante toda a estadia no cárcere.

O escritor também observa que a atenção e tensão sexual são inerentes ao regime fechado, onde os presos passam 24 horas por dia com os mesmos colegas de cela.

Visitas Íntimas e a Realidade da Cela

A dificuldade em obter visita íntima também influencia as relações dentro da cela. Nem todos conseguem ter acesso a visitas íntimas, sendo necessário que o detento seja “casado”.

Ainda assim, a sexualidade no cárcere é complexa. Campbell menciona casos notórios, como o de Cristian Cravinhos, que chegava a ter visita íntima, mas, mesmo assim, mantinha relações sexuais com seu companheiro de cela.

A vida na cadeia exige uma adaptação constante, e a sexualidade se torna uma manifestação dessa adaptação, impulsionada tanto pela necessidade de afeto e intimidade quanto pela urgência de aquecimento e proteção no ambiente prisional. É como se a prisão, sendo um ambiente de privação total, forçasse os laços humanos a se manifestarem de formas não convencionais, onde a cumplicidade noturna se torna a nova regra de relacionamento.

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