O ministro das Cidades, Jader Filho, publicou um artigo na revista Time, sob o título ‘Por que as cidades são o futuro da ação climática’, nesta quinta-feira, 13, reforçando a urgência de colocar as cidades no centro da agenda global de enfrentamento às mudanças climáticas. No texto, o ministro lembra que áreas urbanas concentram tanto os maiores desafios — como emissões, desigualdade e vulnerabilidade — quanto as soluções mais rápidas e eficientes para reduzir impactos e proteger populações.
Jader Filho também destaca o protagonismo do Brasil na construção de políticas integradas de habitação, urbanização e resiliência climática, além das iniciativas em curso para fortalecer governos locais e ampliar o acesso a financiamento climático.
A seguir, leia o artigo na íntegra.
Em 2015, o mundo fez história com o Acordo de Paris: pela primeira vez, quase todos os países do mundo se comprometeram a trabalhar juntos por um futuro mais resiliente às mudanças climáticas e com baixas emissões de carbono. Este ano também marca quase 10 anos desde a adoção da Nova Agenda Urbana da ONU-Habitat , que estabeleceu uma visão compartilhada para cidades inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis.
Uma década depois, a urgência só aumentou, e a questão já não é se devemos agir, mas onde a ação terá o maior impacto. A resposta é clara: nas cidades.
As áreas urbanas geram mais de 70% das emissões globais e respondem por 75% do consumo de energia primária. No entanto, as cidades também representam 80% do PIB global. As cidades são lugares onde as pessoas estão inovando, se adaptando e implementando soluções climáticas inovadoras. De Nairóbi a São Paulo, líderes locais estão instalando sistemas de alerta precoce, arborizando ruas para refrescar os bairros e adaptando casas para resistir ao calor e às inundações. Esses projetos não visam apenas a redução de emissões, mas sim a proporcionar às pessoas a segurança, a estabilidade e o futuro que merecem.
As cidades também são onde a crise climática impacta com mais força, especialmente para os mais de 1 bilhão de pessoas que vivem em assentamentos informais e favelas. Essas comunidades frequentemente carecem de moradia adequada, acesso a serviços básicos e proteção contra desastres. À medida que os riscos climáticos se intensificam, as desigualdades também aumentam. A crise global da habitação e a crise climática estão profundamente interligadas. Isso também significa que elas precisam ser enfrentadas em conjunto. Não pode haver justiça climática sem justiça urbana.
É por isso que a liderança do Brasil como anfitrião da COP30 em Belém é crucial. A região amazônica, muitas vezes percebida como remota, é na verdade profundamente urbana. Mais de 70% de sua população vive em cidades, e seus desafios refletem a necessidade global de conciliar a proteção ambiental com a equidade social e o desenvolvimento urbano.
O Brasil está demonstrando como esse alinhamento pode se concretizar. Desde 2023, o governo federal destinou mais de US$ 50 bilhões para habitação, além de investimentos específicos para a prevenção de riscos climáticos, como estabilização de taludes e grandes obras de drenagem, saneamento básico e melhoria de assentamentos informais. Esses esforços fazem parte de uma estratégia abrangente para ampliar o acesso à moradia adequada, promover a universalização do saneamento básico e fomentar a inclusão social em cidades e regiões brasileiras.
Essa abordagem já está sendo replicada globalmente por meio da iniciativa CHAMP — a Coalizão para Parcerias Multiníveis de Alta Ambição — que já foi endossada por 77 países. Ela convoca os países a incluírem formalmente cidades e regiões no planejamento e na implementação de seus compromissos climáticos nacionais. Na COP30, devemos ir além: das promessas à implementação.
A urgência é evidente. Das inundações no sul do Brasil às secas antes inimagináveis no norte, os extremos climáticos estão remodelando paisagens inteiras. Na região amazônica, carros agora trafegam sobre leitos de rios onde antes navegavam barcos, e famílias precisam caminhar longas distâncias para buscar água. Com ondas de calor recordes em todo o mundo, as cidades estão na linha de frente dos impactos climáticos. Mas é também onde as soluções podem avançar mais rapidamente — se apoiadas com as ferramentas e os recursos certos. Apesar de seu papel crucial, os governos locais recebem menos de 10% do financiamento climático. Menos ainda possuem a capacidade de planejamento, os dados ou a credibilidade necessários para atrair investimentos. Esse desequilíbrio precisa ser corrigido. Não podemos exigir que as cidades apresentem resultados sem lhes fornecer as ferramentas para isso.
Para transformar a ambição em ação, o Ministério das Cidades do Brasil e o ONU-Habitat organizaram conjuntamente a Reunião Ministerial sobre Urbanização e Mudanças Climáticas em 11 de novembro. O encontro reuniu ministros responsáveis por habitação, desenvolvimento urbano e meio ambiente para dialogar diretamente com governos locais e regionais e parceiros globais, reafirmando a importância crucial da ação climática local, em consonância com o espírito desta COP, focada na implementação.
Com base no trabalho do Mutirão Global da COP30, a Reunião Ministerial consolidou os resultados das quatro mesas-redondas de alto nível realizadas em Belém e os traduziu em um conjunto compartilhado de prioridades para a ação climática em múltiplos níveis. Os participantes concordaram com a necessidade de fortalecer a coordenação entre todos os níveis de governo, aprimorar os mecanismos para localizar e aumentar os componentes urbanos das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e expandir o acesso ao financiamento climático para atores locais e regionais. As discussões ressaltaram a localização como a ponte essencial que conecta as agendas climática e de desenvolvimento sustentável, destacando como a liderança local e regional pode acelerar a implementação tanto do Acordo de Paris quanto da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
Em parceria com o Ministério das Cidades, a ONU-Habitat e o ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade, também coorganizam o Centro de Cidades e Regiões , parte do Bairro do Mutirão para Cidades, Água e Infraestrutura, um espaço compartilhado inédito na COP que reflete a natureza interligada dos desafios climáticos e as soluções cocriadas que emergem de cidades em todo o mundo.
Esses espaços se ancoram no conceito brasileiro de mutirão, um esforço coletivo enraizado no conhecimento indígena, onde as pessoas se unem para construir algo para o bem comum. É o espírito que precisamos para enfrentar este momento. Da construção de moradias resilientes ao clima ao investimento em transporte público e infraestrutura verde, as cidades detêm até 40% do potencial de redução de emissões necessário para atingir a meta de 1,5°C do Acordo de Paris. Fizemos história em Paris. Em Belém, levaremos essa história para casa, para os bairros que estão no centro da ação climática, onde as pessoas vivem. E em Baku, na 13ª sessão do Fórum Urbano Mundial, em maio de 2026, daremos continuidade a esse impulso, garantindo que as cidades permaneçam centrais para as metas climáticas e de desenvolvimento na próxima década.
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