Lucas Contente (DOL) – A arte e a cultura foram o centro do debate em uma das sessões da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30) nesta quarta-feira (12), terceiro dia do evento. A mesa, intitulada “Narrativas e Contação de Histórias para Enfrentar a Crise Climática”, reuniu artistas, formuladores de políticas públicas, lideranças indígenas e representantes culturais para discutir como as expressões artísticas podem sensibilizar a sociedade e impulsionar ações em prol da meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C.
Participaram da sessão a ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes, a primeira-dama e enviada especial para as mulheres na COP30, Janja Lula da Silva, a ex-ministra da Cultura da Alemanha, Claudia Roth, o escritor e líder indígena Davi Kopenawa Yanomami, o cineasta Juliano Salgado, filho do fotógrafo Sebastião Salgado, e o ator Kleber Toledo.
Davi Kopenawa: “Falamos com a terra, com a floresta, com a água”
Em sua fala, o escritor e líder Yanomami Davi Kopenawa destacou a importância de valorizar os saberes tradicionais e de ouvir o que ele chamou de “fala da terra-mãe”. “É muito importante que vocês, nós, o mundo inteiro, estejam preocupados. Essa COP30, o Brasil, a Amazônia… vocês precisam apoiar a nossa cultura. Os americanos e os estrangeiros não entendem a nossa língua. Cada um de nós, povos da terra, é diferente. Temos outra cultura, somos outro povo. Nós, Yanomami, somos indígenas do Brasil. Estou tentando explicar para que vocês possam compreender”, afirmou.
Kopenawa ressaltou que os povos indígenas têm uma relação espiritual e simbiótica com o meio ambiente.
“Muitas pessoas falam sobre nós, dizem que falamos diferente — e é verdade. Nós falamos com a terra, com a floresta, com a água, com as montanhas, com as casas, com os pássaros que vivem junto conosco, com a nossa cultura e com a nossa terra-mãe”, disse.
Segundo ele, os saberes tradicionais ensinam a compreender o silêncio da natureza e a importância de preservar o equilíbrio entre todos os seres.
“A fala da terra-mãe é o silêncio. É por meio do silêncio que conseguimos sonhar, escutar o som da terra, que fala com todo mundo. Nós conseguimos pegar um pedacinho desse saber para criar a nossa associação, para defender nossos direitos, nossa terra, nossa língua, nossos costumes, nossa dança e nosso canto. Isso é muito importante para nós”, afirmou.
O líder Yanomami alertou para os impactos das mudanças climáticas sobre as comunidades indígenas. “As mudanças climáticas, para nós, povos da floresta, são muito ruins. Estão destruindo e envenenando nossos rios, trazendo doenças diferentes. Somos guerreiros — guerreiros de vocês e de nós mesmos — para nos defender”, disse.
Kopenawa encerrou reforçando o papel do Ministério da Cultura e a responsabilidade compartilhada pela preservação da Amazônia.
“Falo em nome do meu povo Yanomami: estamos protegidos, porque somos guerreiros e temos o dever de proteger a nossa grande floresta e a nossa Amazônia brasileira. Língua, costume, dormir, sonhar, proteger — essas palavras são verdadeiras.”
Margareth Menezes: “A arte é ponte para mobilização e conscientização”
Em seguida, a ministra Margareth Menezes destacou que a arte e a cultura sempre estiveram conectadas à natureza e são instrumentos fundamentais para promover mudanças de comportamento diante da crise climática.
“A arte faz parte desse universo que nos toca a todos, de alguma forma. Não é apenas o gosto ou a expressão, mas, principalmente, o sentimento. É nesse lugar que habitam as nossas emoções, que a arte traduz e manifesta”, afirmou.
Ela relembrou sua participação na Eco 92, no Rio de Janeiro, e ressaltou que a crise climática atual é consequência da falta de ações efetivas após décadas de alertas científicos.
“Os eventos climáticos que estamos vivendo foram anunciados há muito tempo. Na Eco 92, os cientistas já alertavam para os efeitos dos gases que desequilibravam a atmosfera. O que vivemos hoje é resultado da falta de providência e de sensibilidade de décadas passadas”, disse.
Margareth defendeu que a luta contra as mudanças climáticas seja uma pauta unificadora global.
“Temos nossos conflitos sociais, religiosos e políticos, mas a grande pauta que precisa nos unir hoje é a luta contra as mudanças climáticas. Essa deve ser a nossa religião, a bandeira de cada um de nós”, afirmou.
Janja: “Precisamos de um mutirão global para salvar o planeta”
A primeira-dama Janja Lula da Silva, enviada especial do Brasil para a pauta de mulheres na COP30, reforçou a importância da arte como ferramenta de engajamento social.
“A arte e a cultura são ferramentas essenciais nesse processo. Além de mobilizar, transformam vidas, geram emprego e renda. É desse lugar que podemos levantar bandeiras, promover festivais, criar músicas e expressões que sensibilizem a humanidade”, destacou.
Para Janja, a resposta global à crise climática exige união. “Precisamos de um grande mutirão global para salvar o planeta — e salvar a nós mesmos. O planeta não pertence a nós; ele pertence a todas as gerações, a todos os povos, a todas as formas de vida”, afirmou.
Claudia Roth: “Cultura é a voz da democracia e precisa ser protagonista”
A deputada e ex-ministra da Cultura da Alemanha, Claudia Roth, ressaltou o papel da cultura como elemento essencial na mobilização contra a crise climática e na defesa da democracia.
“Arte e cultura não são adornos reservados a tempos de prosperidade. Elas são o som e a voz da democracia — e as democracias, em todo o mundo, estão sob ataque”, disse.
Claudia destacou que mais de 40 milhões de pessoas já foram deslocadas por causa das mudanças climáticas e que essa crise ameaça também a identidade e a cultura dos povos indígenas.
“Precisamos dos artistas para dar voz ao movimento climático, aos povos indígenas, aos invisíveis. Uma canção, um poema, um filme ou um grafite podem mudar o mundo”, afirmou.
Ela também apresentou iniciativas desenvolvidas na Alemanha, como o “Ponto de Cultura Verde”, que incentiva práticas culturais sustentáveis e neutras em carbono, e padrões ambientais obrigatórios para produções audiovisuais.
Juliano Salgado: “As árvores são as raízes do céu”
O cineasta Juliano Salgado compartilhou reflexões sobre o legado artístico e ambiental de seu pai, o fotógrafo Sebastião Salgado, destacando a exposição sobre a Amazônia em cartaz nas Docas, em Belém.
“Essa exposição tem a qualidade de ser totalmente concreta. São fotografias que nunca mais vão mudar. Elas contam a história de um mundo que ainda existe na Amazônia — um mundo protegido pelos povos indígenas, que produz as chuvas e permite que o Brasil continue sendo habitável”, explicou.
Juliano também falou sobre o trabalho do Instituto Terra, fundado por Sebastião e Lélia Salgado, que promove a recuperação de áreas degradadas por meio do reflorestamento.
“Neste ano plantamos 500 mil árvores e, no próximo, vamos ampliar para 1,2 milhão. Essas árvores restabelecem o ciclo da chuva e aumentam a renda de famílias rurais. A solução está em transformar a agricultura e inserir as árvores no nosso cotidiano”, afirmou.
Segundo ele, a arte e a natureza caminham juntas na sensibilização social. “Quando conseguimos promover essa reflexão por meio da arte, despertamos a consciência coletiva. As árvores são as raízes do céu — elas conectam a terra, a água e o ar, e garantem a vida no nosso continente”, concluiu.
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