Durante um evento do PL Mulher, em Londrina (PR), no último sábado, 8, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou a defender o que chamou de “submissão saudável da esposa ao marido”. Entre elogios à “mulher auxiliadora” e críticas a feministas, ela exaltou papéis tradicionais de gênero e afirmou que a direita deve lutar contra quem “defende a morte de bebês inocentes no ventre de suas mães”.
“As feministas odeiam quando eu falo isso. Sou uma mulher ajudadora, auxiliadora do seu esposo. Entendo o meu chamado como mulher. Sou preciosa. Sei a minha missão. Entendo o meu propósito na terra. E quando falo sim, eu sou auxiliadora e ajudadora. E a Bíblia fala da submissão da esposa ao marido, mas é a submissão saudável”, disse a mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O discurso, travestido de valores religiosos, representa um retrocesso perigoso. Ao romantizar a subordinação feminina, Michelle apaga décadas de luta por igualdade e tenta resgatar a velha cartilha patriarcal que confinava as mulheres ao silêncio e à obediência doméstica.
Declarações defendem submissão
Não há “saúde” em qualquer submissão. Há apenas a tentativa de recolocar as mulheres sob tutela, em um país que ainda enfrenta índices alarmantes de violência de gênero. Enquanto figuras públicas como Michelle pregam a volta a papéis “naturais”, o mundo segue assistindo às mulheres ocuparem o topo do poder e da ciência.
Hoje, elas governam nações, dirigem empresas e transformam a sociedade. Entre os exemplos estão Claudia Sheinbaum Pardo, física e engenheira ambiental que se tornou a primeira mulher presidente do México; Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu; Ursula von der Leyen, líder da Comissão Europeia; Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil e atual presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco dos Brics; e Kamala Harris, ex-vice-presidente dos Estados Unidos.
Essas lideranças não são exceções — são o resultado direto da luta feminista que abriu caminhos para que as mulheres deixassem de ser “ajudadoras” e se tornassem protagonistas.
Quando a Fé se Torna Corrente
Usar a fé como argumento para impor hierarquia de gênero é uma distorção perigosa. A religião deve servir ao amor e à justiça — não à dominação. O mundo já viu o que acontece quando a submissão feminina é transformada em lei divina.
O exemplo mais extremo está no Afeganistão, o país com maior disparidade de gênero no planeta. Sob o regime teocrático do Talibã, as mulheres vivem privadas de liberdade, proibidas de estudar, trabalhar, circular sozinhas ou participar da vida pública. São forçadas a se esconder sob burcas e a depender de um tutor masculino até para sair de casa.
Essas restrições colocam o Afeganistão no último lugar dos índices globais de igualdade de gênero — e lembram ao mundo o custo brutal do machismo institucionalizado.
A Escolha Civilizatória entre Fé e Liberdade
Defender a submissão feminina é ignorar a história e desdenhar o futuro. É retroceder para uma era em que as mulheres não podiam decidir nem por si mesmas.
O Brasil precisa olhar adiante — porque nenhuma sociedade prospera quando ensina metade de sua população a se ajoelhar.
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