O Paysandu é um clube de torcida numerosa, capaz de mobilizar multidões na Curuzu e transformar o Mangueirão em um grande caldeirão. Mas, quando o assunto é decidir quem conduz os destinos da instituição, a dimensão popular do Papão encontra um cenário bem diferente: um universo eleitoral bastante reduzido.
Na eleição realizada na última terça-feira (3), apenas 554 dos 1.450 associados aptos compareceram à Sede Social. A chapa “Papão da Curuzu”, liderada por Márcio Tuma, recebeu 411 votos favoráveis e garantiu a eleição para o biênio 2027-2028.
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O resultado expõe uma questão que vai além da escolha da nova diretoria: qual é o tamanho da participação da Fiel nas decisões políticas do próprio clube? A diferença entre a força das arquibancadas e a quantidade de pessoas que efetivamente participam das eleições merece entrar no debate sobre o futuro institucional bicolor.
A matemática da urna bicolor
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da participação. Dos 1.450 associados habilitados, 554 compareceram para votar. Isso representa aproximadamente 38,2% do colégio eleitoral. Na prática, 896 pessoas não participaram do pleito, uma abstenção de 61,8%.
A chapa única recebeu 411 votos favoráveis. Outros 52 associados votaram em branco e 91 anularam o voto. Portanto, embora tenha vencido a eleição, a candidatura que comandará o Paysandu nos próximos dois anos recebeu o apoio de menos de três em cada 10 pessoas que estavam aptas a votar.
É importante separar duas questões: a vitória da chapa, que cumpriu as exigências eleitorais, e a representatividade numérica do processo. O resultado é legítimo dentro das regras do pleito, mas a participação reduzida levanta questionamentos sobre o alcance da decisão.
A existência de uma candidatura única também pode ter contribuído para diminuir o interesse de parte dos associados. Sem uma disputa pela presidência, o processo perdeu um dos elementos que costumam mobilizar eleitores. Ainda assim, não há como atribuir toda a ausência a esse fator: os números registram o não comparecimento, mas não explicam individualmente as razões.
O dado mais expressivo, porém, talvez esteja no próprio limite do colégio eleitoral. Mesmo antes da abstenção, o Paysandu tinha apenas 1.450 associados aptos a escolher os dirigentes. Para uma instituição que representa uma torcida de grandes proporções, é um universo pequeno.
Por que o torcedor comum fica de fora?
A discussão sobre participação política no Paysandu não começou nesta eleição. Em outubro de 2025, o DOL noticiou que o direito de voto para o sócio-torcedor estava sendo discutido no clube. Na ocasião, representantes de torcedores apresentaram uma proposta para ampliar a participação nas decisões institucionais.
Dias depois, o Conselho Deliberativo aprovou a criação de uma comissão especial para analisar a viabilidade da mudança. O debate envolve justamente a distância entre o torcedor que contribui financeiramente com o clube por meio de planos de associação e aquele que possui direito de participar das eleições.
O modelo tradicional de participação política bicolor está associado a categorias específicas do quadro social, como sócios proprietários, remidos e beneméritos. A composição do eleitorado divulgada para o pleito de 2026 também evidencia a presença de categorias tradicionais entre os habilitados.
Isso não significa que todo associado esteja automaticamente apto a votar: é necessário cumprir as condições previstas nas regras eleitorais e estar regular perante o clube. Mas a discussão sobre a inclusão do sócio-torcedor mostra que o acesso à arquibancada e a participação nas decisões administrativas são coisas diferentes.
O contraste com modelos adotados por outros clubes brasileiros, nos quais determinadas modalidades de associação podem permitir participação eleitoral, precisa ser analisado caso a caso. Não existe uma regra única para todo o futebol nacional. No Paysandu, entretanto, a reivindicação por ampliação do direito ao voto já entrou na pauta institucional e continua sendo um tema relevante.
A questão é simples: quem acompanha o time, compra ingresso, consome produtos oficiais e mantém uma relação permanente com o clube deveria ter caminhos mais amplos para participar das decisões? A resposta depende de mudanças nas regras internas, mas a pergunta não pode ficar restrita aos períodos eleitorais.
O desafio da democratização
Márcio Tuma seguirá à frente do Paysandu no biênio 2027-2028, agora com um mandato completo definido pelas urnas. A continuidade da gestão, porém, também traz um desafio que ultrapassa o planejamento esportivo e financeiro: aproximar a instituição da torcida quando o assunto é poder e participação.
Modernizar o estatuto (que não muda desde 2016) e discutir mecanismos de inclusão do sócio-torcedor são caminhos possíveis para ampliar o debate. Isso exigiria estabelecer critérios claros, preservar a organização administrativa e garantir que a ampliação do eleitorado ocorra de maneira responsável e transparente.
A democratização, porém, não depende apenas de abrir novas possibilidades de voto. Também exige informação, transparência, mobilização dos associados e interesse dos torcedores em acompanhar o funcionamento dos órgãos que decidem os rumos do clube.
O Paysandu não pode ser gigante apenas quando a bola rola. A força que aparece nas arquibancadas também precisa encontrar espaço nas discussões sobre orçamento, patrimônio, planejamento e escolha dos dirigentes.
Se milhares de bicolores ajudam a construir a grandeza do Papão, é legítimo questionar por que tão poucos participam diretamente das decisões sobre o futuro. Uma torcida de milhões, ou de dimensões populares expressivas, não deveria ter a representação política limitada a algumas centenas de votos sem que esse modelo seja permanentemente discutido.





