O consumo de sucos de polpa em Santarém agora se vê acompanhado de açúcar refinado, enquanto refrigerantes, biscoitos recheados e bebidas de caixinha ganham espaço nas mesas. Esta transformação alimentar chamou a atenção da nutricionista Many Medeiros, pesquisadora do Projeto Tecendo Linhas do Cuidado Integral à Saúde na Amazônia.
Many Medeiros, que é pós-graduada em Saúde Pública e mestra em Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida, relata o aumento do consumo de açúcar, tanto em preparações caseiras quanto em produtos industrializados, onde aparece como xarope de glicose ou milho.
A observação da nutricionista levanta uma questão central para o Projeto Tecendo: a segurança alimentar é, fundamentalmente, uma questão de saúde. A pesquisa busca entender os impactos desta mudança na dieta da população.
Ultraprocessados: Baixo Preço e Longa Durabilidade
O avanço dos alimentos ultraprocessados sobre a culinária regional é impulsionado por fatores como o preço. Esses produtos chegam mais baratos às prateleiras, muitas vezes isentos de impostos, o que a pesquisadora atribui ao lobby de multinacionais.
A publicidade exaustiva, a associação com brinquedos e personagens infantis, e embalagens que prometem “fonte de vitaminas” ou “fibras” contribuem para a popularidade desses itens, iludindo o consumidor sobre sua saudabilidade.
No interior da Amazônia, a durabilidade é um fator decisivo. Famílias sem geladeira ou com dificuldade em pagar a conta de luz veem nos ultraprocessados uma opção acessível. Embora a conservação seja uma vantagem, o consumo desses produtos compromete a saúde devido aos aditivos e conservantes.
Obesidade e fome oculta: riscos documentados
Os riscos dos ultraprocessados são amplamente documentados. O Brasil é referência mundial com a classificação NOVA, desenvolvida pelo professor Carlos Monteiro da USP, que categoriza alimentos em in natura, minimamente processados, processados e ultraprocessados. Essa classificação é base para o Guia Alimentar para a População Brasileira e políticas públicas.
Many Medeiros divide os danos em três frentes: ambientais, com desmatamento e maior uso de recursos; à saúde, com o aumento de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e alguns tipos de câncer; e econômicos, impactando os cofres públicos com mais gastos em medicamentos e internações no SUS.
O resultado é um paradoxo: crescem a obesidade e doenças crônicas, enquanto persistem a desnutrição e a fome oculta, caracterizada pela falta de nutrientes em dietas pobres em vitaminas e minerais. No Pará, dados de 2023 do Sisvan indicam que 4,64% das crianças menores de cinco anos acompanhadas tinham peso abaixo do esperado e 15% altura abaixo do esperado.
Políticas públicas e a segurança alimentar na Amazônia
A pesquisadora ressalta a desigualdade do Brasil, que se reflete na alimentação. Gênero e raça influenciam o acesso a uma dieta adequada. Mulheres, frequentemente provedoras e cuidadoras, ganham menos e enfrentam maior vulnerabilidade, especialmente durante a gravidez e puerpério, afetando a saúde do recém-nascido.
Na região Norte, esse cenário se agrava para indígenas, quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares. Programas como o Bolsa Família e o Gás do Povo são cruciais, priorizando mulheres e transferindo renda que se torna essencial para a segurança alimentar. Sem gás para cozinhar ou geladeira, o alimento fresco perde espaço para o pacote pronto.
Compreender as múltiplas opressões vivenciadas, especialmente pelas mulheres na Amazônia rural, é fundamental para o Projeto Tecendo. A agricultura familiar emerge como uma estratégia de saúde, embora sua integração na Estratégia Saúde da Família (ESF) seja ainda transversal.
O Projeto Tecendo destaca iniciativas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que exige 45% de alimentos da agricultura familiar; o Programa Saúde na Escola, que leva equipes da ESF às escolas; e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que compra de agricultores para abastecer instituições.
Apesar desses programas, ajustes são necessários. A falta de articulação entre os setores da saúde e da agricultura limita o alcance das ações intersetoriais. O Projeto Tecendo busca exatamente essa convergência entre nutrição, política pública e território, integrando a ESF com a agricultura familiar e a transferência de renda para otimizar as ações de saúde.






