Quem viveu a internet dos anos 2000 provavelmente guarda na memória as comunidades do Orkut, os depoimentos dos amigos, os scraps e até as disputas para descobrir quem ocupava o topo da lista de melhores amigos. Mais de uma década após o fim da plataforma, que chegou ao fim em setembro de 2014, o nome Orkut voltou a circular na internet com uma proposta que mira justamente a nostalgia de uma época em que as redes sociais eram vistas como espaços de encontro.
O movimento partiu do próprio criador da plataforma, o engenheiro de software Orkut Büyükkökten. Em uma carta aberta publicada no site oficial do serviço, ele critica os rumos tomados pelas redes sociais nas últimas duas décadas e defende a construção de ambientes digitais mais voltados à interação entre pessoas.
Uma internet sem tanta pressão
Na publicação, intitulada “Uma internet mais gentil é possível”, Büyükkökten questiona o modelo adotado pelas grandes plataformas, baseado em algoritmos, retenção de usuários e tempo de tela. Para ele, a lógica de manter as pessoas conectadas pelo maior período possível acabou deixando a conexão humana em segundo plano.
“Você lembra de quando a internet era humana? De quando receber uma mensagem de alguém em outro continente parecia mágica?”, escreveu o criador.
Segundo ele, a transformação das redes também trouxe consequências para os usuários, especialmente com a exposição constante a mecanismos de engajamento e publicidade. Büyükkökten afirma que uma geração cresceu sob influência de algoritmos e associa esse cenário ao aumento da solidão e da ansiedade.
O criador também direcionou críticas ao avanço da inteligência artificial. Para ele, a tecnologia trouxe ferramentas importantes, mas também tornou mais difícil identificar quando existe uma pessoa real por trás de determinado conteúdo.
“As coisas estão quebradas. E agora as máquinas chegaram. A inteligência artificial é uma tecnologia extraordinária, mas está dissolvendo a única premissa que tornou as redes sociais especiais e dignas de serem construídas: a de que havia uma pessoa do outro lado”, afirmou.
O valor das antigas comunidades
Entre as principais lembranças citadas por antigos usuários do Orkut estão justamente as comunidades. E é nesse formato que Büyükkökten enxerga uma alternativa ao funcionamento dos atuais feeds, que selecionam o conteúdo exibido de acordo com algoritmos.
Na carta, ele relembra grupos criados em torno de interesses bastante específicos, desde pessoas que consertavam o mesmo modelo de moto até usuários que utilizavam a mesma linha de ônibus ou simplesmente compartilhavam o desgosto pelas segundas-feiras.
“Num feed, você é plateia; numa comunidade, você é membro. Esse era o ponto”, escreveu.
A crítica também alcança o conteúdo produzido artificialmente. O desenvolvedor cita a presença de bots, conteúdos gerados por inteligência artificial, deepfakes e agentes autônomos como parte de uma mudança que, na visão dele, ameaça a autenticidade das relações na internet.
Apesar das críticas, Büyükkökten afirma que ainda acredita no potencial da tecnologia. A diferença estaria, segundo ele, em recolocar as relações humanas no centro das plataformas.
“Um algoritmo não consegue fazer a vida valer a pena. Mas um amigo consegue. Uma comunidade consegue”, declarou.
O que acontece agora
A nova iniciativa pretende reunir pessoas interessadas em uma internet baseada em comunidades, amizade, confiança e conexão. Para isso, Büyükkökten lançou uma mobilização para medir o interesse dos usuários em alternativas às redes sociais tradicionais.
A proposta também retoma uma movimentação iniciada em 2022, quando o endereço orkut.com voltou a ficar disponível depois de anos fora do ar. Na ocasião, o criador indicou que trabalhava em um novo projeto voltado ao combate ao ódio e à desinformação e abriu espaço para que interessados deixassem seus e-mails.
Agora, a convocação é direta: os internautas podem entrar no site oficial da iniciativa e registrar apoio. A proposta ainda incentiva que os participantes convidem outras pessoas para fazer parte do movimento e enviem cartões virtuais explicando por que gostariam de ter aquele contato novamente na comunidade.
Leia a publicação na íntegra:
Oi de novo.
Sou eu, o Orkut.
Fiquei em silêncio por um tempo, mas preciso falar com você. O trabalho de toda minha vida tornou-se algo urgente como nunca imaginei. Há mais de duas décadas, criei algumas das primeiras redes sociais. E vi, junto com você, as redes sociais tomarem o rumo errado.
Você lembra de quando a internet era humana? De quando receber uma mensagem de alguém em outro continente parecia mágica? Outra pessoa tinha atravessado o mundo para compartilhar um pedacinho de si. Talvez a conexão durasse só um instante, mas era emocionante porque era real.
O que aconteceu? Vinte anos otimizando tudo para capturar a sua atenção. Feeds construídos em torno do engajamento, não da conexão. Uma geração de crianças entregue a algoritmos que as viciaram, dividiram e as venderam para anunciantes. Não é de surpreender que tenham crescido solitárias e ansiosas.
Eu ainda amo esta indústria, mas é desesperador ver o que ela se tornou. “Aja rápido e quebre coisas”, dizia o lema. Pois bem: as coisas estão quebradas. E agora as máquinas chegaram. A inteligência artificial é uma tecnologia extraordinária, mas está dissolvendo a única premissa que tornou as redes sociais especiais e dignas de serem construídas: a de que havia uma pessoa do outro lado.
Quando as pessoas me contam do que mais sentem falta no orkut.com, elas sempre falam das comunidades. Pessoas que consertavam a mesma moto. Pessoas que pegavam a mesma linha de ônibus. Pessoas que odiavam segunda-feira. Num feed, você é plateia; numa comunidade, você é membro. Esse era o ponto.
Você já viu o que a IA está fazendo com as redes sociais: bots, lixo de IA, deepfakes, agentes autônomos descontrolados, conteúdo sintético. Sabe o que a IA não consegue criar?
Alegria. Esperança. Gratidão. Encanto. Diversão. Inspiração. Amor. É isso que faz uma vida valer a pena. Cheguei a este mundo sozinho e sem nada, e de alguma forma acabei com tanto. Cada pedacinho disso veio do amor. Então, encontre-o. Dê de presente. Segure firme. Faça crescer. A vida passa rápido, e as máquinas não vão dar mais dela a você.
Vejo um futuro diferente para a internet, construído em torno de pessoas reais, com um ser humano do outro lado de cada mensagem. Um futuro que não gira em torno de algoritmos, olhos capturados e otimização de tempo na tela. A próxima geração merece um mundo melhor, onde suas comunidades recompensem a gentileza, a curiosidade, a amizade, a confiança e a conexão.
Eu quero viver nesse mundo. Sei que você também quer.
Eu sei como chegar lá: vamos reconstruir a internet pela qual nos apaixonamos. Aquela com pessoas autênticas, conexão real e pertencimento genuíno. Mas não consigo construí-la sem você.
Peço que você se junte ao movimento. Entre em orkut.com e adicione seu nome. Depois, pense em uma pessoa que você gostaria de ter lá com você e envie seu cartão de apoiador para ela. Diga por que pensou nela. Lembre a ela por que você se importa.
Um algoritmo não consegue fazer a vida valer a pena. Mas um amigo consegue. Uma comunidade consegue. Então, vamos parar de otimizar para capturar a atenção e começar a otimizar uns para os outros. E vamos fazer isso do jeito que tudo de bom na minha vida aconteceu: com amor, e juntos.
Vamos tornar a internet humana de novo, juntos!
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