Há 13 dias da maior manifestação católica do país – o Círio de Nazaré – a Polícia Federal abriu, nesta quarta, 30, inquérito para investigar ataques e atos de vandalismo contra imagens, templos e espaços religiosos registrados em diferentes regiões do país, entre elas um episódio ocorrido no Pará, onde uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, que ficava nas margens da BR-163, no município de Novo Progresso, como símbolo de proteção aos caminhoneiros, foi encontrada destruída e incendiada. O altar com a imagem estava no local havia cerca de três anos e foi erguido por um proprietário rural devoto da santa.
O pequeno santuário se tornou ponto de oração para moradores e viajantes que circulam pela rodovia. A investigação foi instaurada após determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e ficará sob responsabilidade da Diretoria de Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor) da Polícia Federal. Os casos já identificados como intolerância religiosa, também foram encaminhados à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Segundo relatos de testemunhas, o cadeado que protegia o espaço onde ficava a imagem de Maria na rodovia foi quebrado. Pneus teriam sido colocados aos pés da imagem e combustível teria sido utilizado para alimentar as chamas. Uma lata de cerveja foi deixada sobre a coroa da santa. A Polícia Civil do Pará instaurou inquérito por suspeita de intolerância religiosa, solicitou perícias e informou que testemunhas seriam ouvidas. A autoria e a motivação, contudo, ainda dependem da conclusão da investigação.Ataques em diferentes estados
No despacho, Flávio Dino apontou uma aparente “onda de ataques” ocorridos entre março e setembro. A apuração ocorre em meio à exploração eleitoral de temas religiosos e à circulação de conteúdos falsos nas redes sociais.
Além do caso em Novo Progresso, foram reunidas notícias sobre episódios em Salvador e Santo Amaro, na Bahia; Londrina, no Paraná; Rio Grande, no Rio Grande do Sul; Maceió, em Alagoas; Esmeraldas, em Minas Gerais; e Cuiabá e Jauru, em Mato Grosso.
Os registros envolvem a destruição de imagens de Nossa Senhora Aparecida, Santa Dulce dos Pobres, Nossa Senhora das Graças e esculturas de anjos, além de invasões e danos a terreiros, imagens de orixás, oferendas e assentamentos religiosos.
Dino afirmou que os relatos podem indicar crimes como ultraje a culto, preconceito religioso, violência contra práticas religiosas, injúria qualificada por elemento religioso, ameaça, furto, dano, incêndio e violação de domicílio. A investigação deverá identificar os responsáveis e verificar se existe alguma ligação entre os episódios ou se foram ações isoladas.
A atuação federal foi justificada pela ocorrência de casos em diferentes estados e pela necessidade de uma apuração uniforme. A Constituição estabelece que a liberdade de consciência e de crença é inviolável, assegura o livre exercício dos cultos e determina a proteção dos locais de culto e de suas liturgias.Brasil ainda tem 100 milhões de católicos
Os ataques ocorrem em um país que continua majoritariamente católico, embora atravesse uma profunda mudança em seu perfil religioso. Segundo os resultados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE, 100,2 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais se declararam católicos apostólicos romanos, o equivalente a 56,7% dessa população. Em 2010, eram 105,4 milhões, ou 65,1%. Em 12 anos, portanto, o catolicismo perdeu 8,4 pontos percentuais.
Mesmo com a redução, manifestações tradicionais de devoção continuam mobilizando multidões. O Pará, terra do Círio de Nazaré, tem 54,4% de católicos entre os moradores com pelo menos 10 anos. Em estados conhecidos pela força das festas, romarias e homenagens aos santos, a presença católica permanece ainda mais elevada. O Piauí lidera o país, com 77,4%, seguido por Ceará, com 70,4%, e Paraíba, com 69%.
Entre os estados onde ocorreram os ataques citados na decisão, os católicos representam 64,2% da população de Alagoas, 63,5% de Minas Gerais, 62,9% do Paraná, cerca de 60,6% do Rio Grande do Sul e 57% da Bahia.Crescimento evangélico é maior no Norte
Ao mesmo tempo, o Censo confirma o avanço das igrejas evangélicas. O número de pessoas que se declararam evangélicas passou de 35 milhões em 2010 para 47,4 milhões em 2022. A participação na população com 10 anos ou mais aumentou de 21,6% para 26,9%, o maior percentual já registrado pelo IBGE.
A transformação é especialmente intensa na Região Norte, onde 36,8% da população se declarou evangélica. No Pará, os evangélicos correspondem a 35,3% dos moradores com 10 anos ou mais, crescimento de aproximadamente 8,5 pontos percentuais em relação a 2010 — uma das maiores altas do país. Os católicos ainda são maioria no estado, com 54,4%, mas a distância entre os dois grupos vem diminuindo.
O crescimento evangélico, porém, é uma mudança demográfica e religiosa que não pode ser associada, sem provas, aos atos de vandalismo. A investigação, segundo Flávio Dino, deverá individualizar cada conduta e apurar suas motivações. Entre os episódios examinados também estão ataques contra terreiros e símbolos de umbanda e candomblé, religiões que passaram de 0,3% da população em 2010 para 1% em 2022.
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