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R$ 28,57 milhões: denúncia aponta aliado de Daniel em desapropriações, incluindo área para escola

Adriano Wilkinson apresenta documentos e afirma que desapropriações na gestão de Daniel Santos beneficiaram Alexandre José da Silva Souza, o “Karanga”, antigo subordinado do ex-secretário Alexandre Gomes; envolvidos também aparecem em outras investigações.

O jornalista investigativo Adriano Wilkinson apresentou uma nova denúncia envolvendo a administração do ex-prefeito de Ananindeua Daniel Barbosa Santos (Podemos), candidato ao Governo do Pará. Em vídeo postado em suas redes sociais, Wilkinson afirma ter reunido decretos municipais, documentos empresariais e registros funcionais que indicariam que Alexandre José da Silva Souza, conhecido como “Karanga”, recebeu pelo menos R$ 28,57 milhões em desapropriações de imóveis durante a gestão de Daniel.

O jornalista relaciona o empresário a Alexandre César Santos Gomes, ex-secretário municipal, atual vereador e candidato a deputado estadual pelo Podemos. A existência de vínculos funcionais entre Gomes e Karanga no município encontra respaldo em documentos oficiais.

Wilkinson sustenta que os pagamentos decorreram de atos administrativos assinados por Daniel quando comandava a Prefeitura. “Na reportagem de hoje, eu trago documentos que mostram como Daniel Santos assinou decretos que entregaram ao menos R$ 28 milhões ao amigo de um aliado dele”, afirma. Segundo ele, Alexandre Gomes “durante anos foi secretário de Ananindeua e chefe de Alexandre José, o Karanga, que no papel é o dono da empresa beneficiada pelas assinaturas de Daniel”.

Relações comprovadas na gestão

O ponto central da denúncia é a relação entre os três personagens: Daniel ocupava a Prefeitura; Alexandre Gomes exerceu cargos de primeiro escalão no município; e Karanga aparece em registros oficiais como servidor da antiga Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer e Juventude (Secelj), pasta que já foi comandada por Gomes.

Em julho de 2013, por exemplo, o Diário Oficial de Ananindeua registrou Alexandre José da Silva Souza, matrícula nº 27004, lotado na Secelj e designado para acompanhar e fiscalizar a execução de contrato administrativo. Naquele período, Alexandre César Santos Gomes ocupava o comando da secretaria.

Terreno para escola aparece entre operações citadas

No vídeo de aproximadamente três minutos, Wilkinson começa apresentando imagens e documentos relacionados a um terreno no bairro do Icuí-Guajará. Segundo a narrativa, o imóvel teria sido destinado à implantação de uma escola pública municipal.

O jornalista exibe um trecho de documento segundo o qual a área declarada de utilidade pública seria destinada à “realização de desapropriação do referido lote para que ali seja construído uma Escola pública municipal”. Na sequência, mostra o que apresenta como registro de pagamento no valor de R$ 3,2 milhões.

Wilkinson atribui a propriedade relacionada à operação a Alexandre José da Silva Souza e afirma que situações semelhantes teriam se repetido. Em outro quadro exibido no vídeo, apresenta uma relação de pagamentos e sustenta que, apenas em desapropriações, os valores associados a Karanga somariam R$ 28.570.000.

“É muito dinheiro público que deveria estar indo pra educação de Ananindeua, mas que acabou na conta de um empresário amigo do aliado”, afirma Wilkinson.

Alexandre Gomes foi secretário de Habitação na gestão Daniel Santos e atualmente exerce mandato de vereador em Ananindeua. Adriano Wilkinson afirma que decretos assinados por Daniel Santos envolveram R$ 28,57 milhões em desapropriações ligadas a Karanga, que mantinha ligação com Gomes, na foto com Santos.

“Karanga” trabalhou sob comando de Alexandre Gomes

A ligação funcional destacada no vídeo pode ser parcialmente verificada em registros públicos. Documento oficial de julho de 2013 identifica Alexandre José da Silva Souza como servidor da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer e Juventude. No mesmo período, Alexandre César Santos Gomes aparece oficialmente como secretário da pasta.

Anos depois, já na administração Daniel Santos, Gomes assumiu a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab). Decreto municipal de janeiro de 2023 registra formalmente Alexandre César Santos Gomes como titular da pasta. A Prefeitura também publicou diversas matérias institucionais em que ele aparece à frente de programas de habitação e regularização fundiária.

Wilkinson utiliza esse histórico para sustentar a existência de proximidade entre Gomes e Karanga. O jornalista também exibe uma fotografia em que identifica os dois juntos e associa a relação pessoal ao conjunto de operações que passou a investigar.

Alexandre José da Silva Souza, o Karanga, aparece em documento oficial como servidor da Prefeitura de Ananindeua ainda em 2013. Registros oficiais mostram que Karanga trabalhou na antiga Secelj quando Alexandre César Santos Gomes comandava a secretaria municipal.

Alexandre Gomes aparece em outra denúncia do MP

O material ganha relevância adicional porque Alexandre Gomes está no centro de outra investigação, distinta das operações de R$ 28,57 milhões apresentadas por Wilkinson. Em setembro, o Ministério Público do Pará apresentou denúncia à Justiça contra 11 pessoas por um suposto esquema que teria causado prejuízo de R$ 21,7 milhões aos cofres de Ananindeua durante a administração Daniel Santos.

Gomes é apontado pelo MP como uma das figuras centrais do grupo e foi denunciado por associação criminosa, fraude em licitação e peculato. Daniel Santos não aparece entre os 11 denunciados nesse processo específico.

Um dos episódios descritos pelo Ministério Público envolve Benedito Farias da Silva, o Bené, de 77 anos. Segundo a denúncia, ele teria sido chamado à Secretaria de Habitação para tratar de uma suposta dívida de IPTU superior a R$ 500 mil e assinado documentos sem conhecer plenamente o conteúdo. Uma desapropriação posteriormente resultou em pagamento de aproximadamente R$ 2,3 milhões. Bené declarou ao MP que não recebeu o dinheiro.

Nesse caso, quem aparece como procurador para receber a indenização é o empresário Juvenal Teixeira, apontado nas reportagens baseadas na denúncia como concunhado e pessoa de confiança de Alexandre Gomes.

MPPA denunciou Alexandre Gomes e outras dez pessoas em outro processo, que apura suposto prejuízo de R$ 21,7 milhões ao município. Empresa ligada a Alexandre Gomes também teria pago R$ 1 milhão da mansão de R$ 4,1 milhões atribuída a Daniel Santos no Ceará.

Mansão de R$ 4,1 milhões também entrou nas investigações

Alexandre Gomes ainda aparece em investigação distinta do MP sobre a aquisição de uma mansão de R$ 4,1 milhões, em Fortim, no litoral do Ceará, atribuída a Daniel Santos e posteriormente registrada em nome da deputada federal Alessandra Haber, esposa do ex-prefeito.

Reportagem exibida pelo Fantástico mostrou que uma construtora ligada a Gomes teria realizado dois depósitos que, juntos, chegaram a R$ 1 milhão para pagamento de parcelas do imóvel. O Ministério Público investiga a origem dos recursos e suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. Gomes não respondeu à reportagem exibida na ocasião.

O procurador-geral de Justiça do Pará, Alexandre Tourinho, declarou ao Fantástico que o MP investigava tanto a evolução patrimonial de Daniel quanto a hipótese de utilização de recursos públicos na formação de patrimônio particular.

Karanga reapareceu em episódio durante campanha

O apelido “Karanga” também apareceu neste mês em outro episódio relacionado à campanha eleitoral. Em 6 de setembro, uma ação das polícias Civil e Militar em um posto de combustíveis de Ananindeua apreendeu listas, computador e celulares após denúncia de possível distribuição de combustível para fins eleitorais.

Entre as lideranças mencionadas em uma planilha intitulada “Controle de veículos – Carreata – Ananindeua” estava o nome “Karanga”. As próprias reportagens que divulgaram o episódio ressalvaram, porém, que a autenticidade integral da lista e a participação individual das pessoas citadas ainda dependiam de confirmação das autoridades. A Polícia Civil informou que o material seria encaminhado à Justiça Eleitoral.

Jornalista cobra explicações sobre os pagamentos

Wilkinson encerra o vídeo sustentando que sua apuração foi construída a partir de documentos públicos e imagens e afirma que permanece aberto ao contraditório. O ponto que o jornalista coloca sob questionamento é como uma pessoa que trabalhou subordinada a Alexandre Gomes passou a aparecer, segundo os documentos apresentados por ele, associada a operações de desapropriação que alcançariam R$ 28,57 milhões durante a administração de Daniel Santos.

Em relação à denúncia anterior do MP sobre o suposto esquema de R$ 21,7 milhões, reportagens publicadas na última semana registraram que Daniel, Gomes e outros citados haviam sido procurados e não se manifestaram até aquelas publicações.

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