Quatro dias depois da publicação da medida provisória que proibiu as casas de apostas no país, o Governo de Minas Gerais anunciou um pacote de R$ 32 milhões para socorrer Atlético-MG, Cruzeiro e América-MG. A rapidez da decisão chama a atenção, pois ainda não foi apresentado um levantamento detalhado sobre quanto cada clube efetivamente deixará de receber com o encerramento dos patrocínios das bets.
O valor será destinado por meio de contratos de publicidade e patrocínio da Cemig, da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) e da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), empresas controladas pelo Estado. Atlético e Cruzeiro ficarão com R$ 15 milhões cada, enquanto o América receberá R$ 2 milhões.
Embora o anúncio tenha sido tratado como um acordo fechado, até esta terça-feira (29) havia apenas um protocolo de intenções. Os contratos ainda seriam formalizados nos próximos dias. Também não foram divulgados integralmente o prazo dos acordos, a parcela que caberá a cada estatal, os critérios utilizados para calcular os valores nem a estimativa de retorno publicitário para as empresas.
A pressa é ainda mais evidente porque o prazo dado às bets para retirar anúncios e materiais de patrocínio termina apenas em 5 de outubro. As plataformas deverão sair do ar no dia seguinte. Além disso, a medida provisória precisa ser analisada pelo Congresso em até 120 dias e já é questionada no Supremo Tribunal Federal.
Isso não significa que os clubes não enfrentarão perdas imediatas que justifiquem essa “benesse” do Governo de Minas. O futebol brasileiro tornou-se fortemente dependente das casas de apostas, e contratos estão sendo suspensos ou revistos. Mas, antes de comprometer recursos de empresas públicas, seria necessário saber quanto já foi pago pelas patrocinadoras, quais parcelas foram canceladas e se haverá indenização, renegociação ou substituição por empresas privadas.
O caso do Flamengo é um exemplo que mostra que os impactos não são iguais para todos. Apesar da proibição, a Betano já havia quitado os R$ 268 milhões correspondentes a 2026 e decidiu manter o contrato suspenso, sem rescisão imediata, enquanto aguarda uma definição jurídica. A situação reforça a necessidade de examinar cada contrato antes de calcular o tamanho do prejuízo e avaliar a decisão precipitada do governador mineiro.
Mateus Simões, então vice-governador de Romeu Zema, afirmou que o aporte representa aproximadamente um terço do que as bets pagavam aos três clubes mineiros. O governo, entretanto, não apresentou publicamente os contratos anteriores nem demonstrativos que comprovem a perda líquida de cada equipe.
Também foram anunciadas negociações com o Athletic, de São João del-Rei, e o Uberlândia, o que poderá ampliar o volume de recursos empregados pelas estatais. Como contrapartida, os clubes deverão apoiar o futebol feminino e as categorias de base, além de oferecer ingressos gratuitos a estudantes de baixa renda. Ainda não se sabe quanto de cada contrato deverá ser efetivamente aplicado nessas ações.
É importante esclarecer que os R$ 32 milhões não sairão diretamente do orçamento de secretarias como Saúde, Educação ou Habitação. O dinheiro virá das verbas de publicidade e patrocínio das estatais. Mesmo assim, por serem empresas controladas pelo poder público, a aplicação desses recursos precisa demonstrar interesse empresarial, retorno para as marcas e critérios transparentes de escolha.
O peso social de R$ 32 milhões
Para mostrar a dimensão do aporte, o valor pode ser comparado a investimentos públicos realizados em áreas essenciais.
Com R$ 32 milhões, seria possível construir aproximadamente 160 moradias populares, considerando o limite de R$ 200 mil por unidade adotado em 2026 pelo Minha Casa, Minha Vida para famílias atingidas por desastres naturais em Minas Gerais. Outra possibilidade seria realizar melhorias habitacionais em cerca de 744 casas, tomando como referência o programa Moradas Gerais, no qual o governo mineiro anunciou R$ 43 milhões para atender mil famílias vulneráveis.
Com esse volume de recursos, também seria possível construir 13 Unidades Básicas de Saúde semelhantes à UBS implantada em Montes Claros por R$ 2,4 milhões. Se cada unidade atendesse 3,6 mil moradores, seriam alcançadas aproximadamente 46,8 mil pessoas.
Outra possibilidade seria financiar três escolas de ensino fundamental com cinco salas de aula, usando como referência o valor médio de R$ 9,2 milhões do projeto-padrão do FNDE. Juntas, as unidades poderiam receber até 525 estudantes em período integral ou cerca de 1.050 alunos em dois turnos. O parâmetro financeiro é de 2023 e serve apenas como ordem de grandeza.
Na área de saneamento, seria possível implantar cerca de 38 quilômetros de redes de esgoto, com base no investimento de R$ 112 milhões previsto em 2026 para a construção de 135 quilômetros de rede em Teresina.
Os números não diminuem a importância econômica e cultural do futebol, nem impedem que empresas públicas patrocinem equipes quando houver retorno devidamente demonstrado. O questionamento está na ordem das prioridades: antes de anunciar um socorro milionário, o Governo de Minas ainda precisa comprovar o tamanho do prejuízo, apresentar os contratos, explicar a escolha dos beneficiados e demonstrar por que duas SAFs privadas e um clube da capital necessitam de apoio estatal imediato.
No futebol, quatro dias podem decidir uma classificação. Na administração de R$ 32 milhões pertencentes a empresas públicas, contudo, a pressa exige uma justificativa bem mais sólida.
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