A autonomia ganhou um novo significado para Reiner Jesus Martins, de 20 anos, estudante de Agronomia que nasceu sem os dois braços e conquistou a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) dirigindo com os pés. Morador de Lavras, em Minas Gerais, ele foi aprovado no exame prático em 5 de agosto de 2026 e agora alimenta outro sonho: comprar o próprio carro para visitar a mãe com mais frequência e ampliar sua independência.
A conquista, no entanto, exigiu meses de espera e adaptações. O jovem iniciou a busca pela habilitação ainda em 2025 e precisou passar por avaliação médica, conseguir um laudo específico e encontrar uma autoescola com veículo preparado para suas necessidades.
Barreiras até a habilitação
Reiner pretendia aproveitar as férias da faculdade para obter a CNH, mas enfrentou demora na avaliação da junta médica e na emissão do laudo. O documento determinou que ele utilizasse um carro automático equipado com pomo — apoio instalado no volante — e controles do painel adaptados para os membros inferiores.
A estrutura necessária foi encontrada em Pará de Minas, na Região Centro-Oeste do estado, a aproximadamente 220 quilômetros de Lavras. Foi lá que Reiner conseguiu realizar a preparação para o exame. Segundo reportagem complementar, foram 30 aulas práticas distribuídas por 15 dias.
O jovem afirma que, além da burocracia, encontrou dificuldades relacionadas à preparação dos serviços para atender pessoas com deficiência. “Os principais desafios que tive para conseguir a CNH foram ter o laudo, a demora e o despreparo das pessoas ao me receberem, uma pessoa com deficiência”, relatou.
A aprovação chegou na primeira tentativa do exame prático, realizado em 5 de agosto. Para Reiner, a habilitação representa principalmente independência. “Essa conquista representa esforço, garra e também autonomia. É a conquista de uma liberdade que vou ter a partir do momento em que tiver meu carro”, afirmou.
Independência construída desde criança
A adaptação faz parte da trajetória de Reiner desde a infância. Ele utiliza principalmente os pés para executar tarefas cotidianas, mas também recorre à boca, ao queixo e ao tronco dependendo da atividade. Ao longo dos anos, passou por terapia ocupacional, equoterapia e hidroterapia, além de praticar modalidades como jiu-jítsu, judô e muay thai.
O estímulo da família foi decisivo para que desenvolvesse independência. Segundo Reiner, a mãe sempre procurou prepará-lo para enfrentar as barreiras existentes fora de casa. “Para aprender a escrever, comer e me vestir, essas atividades foram trabalhadas nas terapias, em que eu buscava formas de me adaptar”, explicou. Para ele, os pés assumiram funções semelhantes às das mãos.
Agronomia e planos profissionais
Atualmente, Reiner cursa o segundo período de Agronomia na Universidade Federal de Lavras (Ufla). Antes da graduação, fez o curso técnico em Agropecuária na Central de Ensino e Desenvolvimento Agrário de Florestal (Cedaf), vinculada à Universidade Federal de Viçosa (UFV).
A escolha profissional também tem influência familiar. O pai é produtor de leite em São Tiago, na região mineira do Campo das Vertentes, e Reiner pretende utilizar o conhecimento adquirido na universidade para acompanhar e contribuir com a atividade da família.[
Carro próprio é o próximo sonho
Depois da CNH, o objetivo é adquirir um veículo com as adaptações necessárias. Mais do que realizar viagens longas, Reiner deseja tornar mais simples um compromisso afetivo: visitar a mãe nos fins de semana.
Ele também planeja dirigir até São João del-Rei, fazer um passeio de maria-fumaça e, futuramente, viajar de carro até a praia. “O principal é poder ir para a casa da minha mãe nos fins de semana e visitá-la com mais frequência”, disse.
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