O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (22), durante discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. Em uma fala de mais de 20 minutos, o presidente defendeu a democracia, criticou a ingerência externa e abordou temas como o fim da escala 6×1, o combate ao crime organizado e a atuação da ONU diante dos conflitos internacionais.
Embora tenha feito diversas referências aos Estados Unidos, Lula não citou nominalmente o presidente norte-americano, Donald Trump. A declaração sobre o “quintal” foi uma referência aos discursos recentes do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que voltou a utilizar a expressão “quintal dos EUA” para tratar da América Latina no contexto da chamada Doutrina Donroe.
A Doutrina Donroe é uma releitura feita pelo governo Trump da Doutrina Monroe, formulada na primeira metade do século 19 e historicamente associada à defesa da primazia dos Estados Unidos sobre a América Latina.
“Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para a maior integração entre vizinhos”, afirmou Lula. O presidente também mencionou a situação da Venezuela e declarou que a população do país “merece decidir seu próprio destino”.
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Na segunda-feira (21), em entrevista à CNN Internacional, Lula havia afirmado que Trump “age como um imperador” e pedido que o presidente norte-americano não interferisse nas eleições brasileiras.
Lula critica ingerência externa e fala sobre eleições
Durante o discurso, o presidente afirmou que a democracia voltou a ser colocada em xeque e criticou o que classificou como ingerência externa em processos eleitorais.
“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zona de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constitui gestos anacrônicos”, declarou.
Lula também falou sobre as eleições brasileiras e afirmou que o país decidirá entre a “democracia e o negacionismo”. Sem citar nominalmente o adversário Flávio Bolsonaro (PL), disse que “alguns abusam” da liberdade “para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”.
O presidente também alertou para o impacto das redes de desinformação durante a campanha eleitoral e defendeu o sistema eleitoral brasileiro.
“Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto”, afirmou.
Ao concluir o trecho sobre o tema, Lula declarou: “Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano.”
Críticas à ONU
Logo no início do discurso, Lula criticou o que chamou de “crescentes desmandos das superpotências” e voltou a questionar a atuação do Conselho de Segurança da ONU diante dos conflitos internacionais.
“Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas”, disse.
Segundo o presidente, a organização está falhando em sua missão de evitar guerras e perdeu credibilidade diante da comunidade internacional.
“O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército, nem arsenais, nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, afirmou.
Lula também defendeu a escolha entre modelos distintos de organização internacional. “Somos chamados a optar entre o multilateralismo e o unilateralismo. Democracia ou extremismo? Soberania ou subordinação? Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um estadista”, declarou.
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Bets e fim da escala 6×1
Na tribuna da ONU, Lula também levou ao cenário internacional duas pautas defendidas pelo governo durante a campanha pela reeleição: o combate às bets e o fim da escala de trabalho 6×1.
“A indústria milionária das bets transforma o vício em lucro, sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo milhões de lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio”, afirmou.
O presidente também defendeu mudanças na jornada de trabalho para garantir dois dias de descanso por semana.
“O mundo do trabalho está em transformação. Pessoas idosas querem permanecer ativas, jovens desejam empreender, o trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família. No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6×1 para garantir ao trabalhador dois dias livres por semana”, disse.
Tarifaço e defesa do Pix
Lula ainda fez referências às tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, mas novamente sem mencionar Trump diretamente.
O presidente defendeu o Pix e criticou pressões para alterar o modelo da infraestrutura de pagamentos brasileira.
“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, declarou.
Sobre as exportações, Lula afirmou que, apesar das tarifas norte-americanas, o Brasil deve alcançar um novo recorde neste ano.
“Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações. Ainda há muito a ser feito”, afirmou.
Combate ao crime organizado
Outro ponto abordado por Lula foi o combate ao crime organizado. O tema ganhou destaque nas relações entre Brasil e Estados Unidos em 2026 após o governo norte-americano classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
O governo brasileiro se posicionou contra a classificação, enquanto Flávio Bolsonaro atuou junto a autoridades norte-americanas e passou a explorar o assunto politicamente.
Na ONU, Lula afirmou que a população está “cansada da violência”, mas defendeu que o Brasil mantenha a responsabilidade sobre a segurança de suas fronteiras e de seus cidadãos.
“O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades”, declarou.
O presidente também defendeu cooperação internacional para combater o tráfico de armas e o fluxo de dinheiro ligado às organizações criminosas.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.
Segundo Lula, essa é a lógica de uma proposta que ele entregou pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos para combater a lavagem de dinheiro praticada por criminosos brasileiros no exterior.
Lula e Trump não se encontraram
Nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, Lula e Trump não se encontraram nem se cumprimentaram. Houve um intervalo de quatro minutos entre a saída de um e a entrada do outro no local.
Segundo diplomatas ouvidos pelo UOL, encontros e desencontros entre autoridades em eventos desse porte podem ser resultado de decisões para evitar determinados contatos.
Lula foi o primeiro chefe de Estado a discursar na Assembleia Geral da ONU. A delegação brasileira contou com o chanceler Mauro Vieira, o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, e a primeira-dama Janja da Silva.
Também participaram da comitiva Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais; Sérgio Danese, embaixador do Brasil na ONU; e Audo Faleiro, assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial da Presidência.






