Passar 43 anos sem conseguir arrotar parece apenas uma curiosidade, mas transformou a rotina da britânica Gemma Renwick em uma sequência de dores e constrangimentos. Aos 43 anos, ela descobriu que os ruídos involuntários que saíam de sua garganta, comparados ao coaxar de um sapo, estavam relacionados a uma condição rara conhecida como disfunção cricofaríngea retrógrada (R-CPD) ou “síndrome do não arroto”.
Moradora de Eastleigh, no condado de Hampshire, na Inglaterra, Gemma conviveu com o problema praticamente durante toda a vida. Além de não conseguir arrotar, apresentava inchaço abdominal intenso, excesso de gases, pressão no peito e dores que, em determinados momentos, dificultavam até mesmo continuar comendo ou bebendo.
Outra característica chamava atenção de quem estava por perto. Como o ar não conseguia ser eliminado normalmente pela boca, Gemma produzia ruídos involuntários na garganta. Os sons lembravam o coaxar de um sapo e frequentemente surgiam em situações sociais e profissionais.
Durante a juventude, o barulho já provocava constrangimento. Mais tarde, passou a incomodá-la também em reuniões de trabalho, telefonemas e conversas com clientes.
O que é a síndrome do não arroto?
A explicação está no funcionamento do músculo cricofaríngeo, localizado na parte superior do esôfago.
Em condições normais, quando o gás sobe do estômago pelo esôfago, esse músculo relaxa e permite que o ar seja eliminado pela boca. Nas pessoas com R-CPD, ele não relaxa adequadamente nesse sentido.
O curioso é que o músculo pode funcionar normalmente durante a alimentação, permitindo a passagem de alimentos, mas falhar no movimento contrário necessário para liberar o gás.
O resultado é o acúmulo de ar no esôfago, estômago e intestino. Entre as consequências estão distensão abdominal, pressão no peito e no pescoço, ruídos na garganta e aumento da flatulência. Estudos clínicos descrevem justamente a incapacidade de relaxamento adequado do esfíncter esofágico superior como uma característica da R-CPD.
A busca por um diagnóstico
Gemma começou a procurar ajuda médica com maior frequência a partir dos 21 anos, mas passou décadas sem descobrir a origem do problema.
Ao longo desse período, recebeu tratamentos ou foi investigada para diferentes condições. Segundo seu relato, chegaram a ser consideradas síndrome do intestino irritável, refluxo, ansiedade, doença celíaca e intolerância à lactose.
Nada, porém, explicava completamente o conjunto de sintomas.
As crises podiam ser tão intensas que Gemma precisava deixar compromissos e eventos antes do fim para voltar para casa e se deitar. Bebidas gaseificadas e alcoólicas também agravavam o quadro.
Em situações mais severas, o acúmulo de gás provocava tamanha pressão que ela sentia dificuldade para respirar e engolir.
O papel do TikTok na descoberta e tratamento
Depois de anos de consultas, a pista decisiva surgiu de maneira inesperada: pelas redes sociais.
Em 2024, Gemma assistiu no TikTok a um vídeo sobre pessoas que não conseguiam arrotar. Ao perceber que os sintomas apresentados eram semelhantes aos seus, começou a pesquisar a R-CPD e finalmente encontrou uma possível explicação para aquilo que enfrentava desde criança.
A descoberta levou a britânica a procurar tratamento particular.
Em maio de 2026, ela recebeu uma aplicação de toxina botulínica diretamente no músculo cricofaríngeo. O procedimento, que Gemma chama de “Throatox”, utiliza a substância com finalidade médica, diferente das aplicações estéticas pelas quais o Botox ficou popularmente conhecido.
Nesse caso, a toxina reduz temporariamente a contração do músculo, facilitando seu relaxamento e permitindo que o gás acumulado seja eliminado.
Primeiro arroto aos 43 anos
Os efeitos apareceram poucos dias depois.
Gemma contou que começou a perceber pequenos arrotos por volta do quarto ou quinto dia após o procedimento. Gradativamente, passou a eliminar o ar com mais facilidade.
A experiência representou algo completamente novo para uma mulher que havia passado toda a vida sem conseguir realizar naturalmente uma função considerada banal pela maioria das pessoas.
Cinco semanas depois do tratamento, ela relatou não apresentar mais o inchaço abdominal constante nem os problemas provocados pelo acúmulo de gases que a acompanharam durante décadas.
A utilização de toxina botulínica para R-CPD vem sendo estudada. Em um estudo prospectivo apresentado em publicação científica da área de neurogastroenterologia, 47 dos 51 pacientes tratados e acompanhados por três meses conseguiram arrotar após a aplicação. A pesquisa também registrou efeitos adversos, principalmente dificuldade temporária para engolir.
Por isso, o procedimento deve ser avaliado e realizado por profissionais especializados. Dificuldade de deglutição, refluxo, regurgitação e alterações temporárias na voz estão entre os efeitos que podem ocorrer após a aplicação.
Depois de finalmente descobrir a condição, Gemma passou a compartilhar sua experiência nas redes sociais para aumentar o conhecimento sobre a R-CPD. O relato encontrou outras pessoas que passaram anos convivendo com sintomas semelhantes sem saber que a incapacidade de arrotar poderia estar relacionada a uma alteração específica.
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