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Ônibus lotado e horas no caminho: o drama de quem vai ou volta do trabalho

Horas no ônibus, paradas lotadas e cansaço: o drama de quem vai ou volta do trabalho. Foto: Mauro Ângelo

Para 1,26 milhão de brasileiros, chegar ao trabalho exige uma verdadeira jornada antes mesmo de o expediente começar. Esse contingente gastava mais de duas horas apenas no percurso de ida entre a residência e o local de trabalho, segundo os resultados preliminares da amostra do Censo Demográfico 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O levantamento mostra que 71,2 milhões de pessoas se deslocavam de casa para trabalhar. A maioria, cerca de 40,1 milhões — o equivalente a 56,3% — fazia o trajeto entre seis minutos e meia hora. Outros 14,5 milhões levavam de meia hora a uma hora, enquanto 7,4 milhões enfrentavam viagens de uma a duas horas.

Pará se destaca em longos deslocamentos

O extremo dessa realidade alcança diretamente o Pará. Entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, Itaituba e Abaetetuba estão entre os 20 com as maiores proporções de trabalhadores submetidos a deslocamentos superiores a duas horas.

Dados da tabela 10331 do Sistema IBGE de Recuperação Automática (Sidra) mostram que 6,82% dos trabalhadores de Itaituba levavam mais de duas horas para chegar ao trabalho. O percentual coloca o município na 9ª posição nacional.

Em Abaetetuba, a proporção chega a 5,17%, garantindo ao município a 12ª colocação. As duas cidades paraenses são as únicas de fora do eixo Rio de Janeiro–São Paulo entre as 20 primeiras posições. O ranking reúne 11 municípios fluminenses, sete paulistas e os dois paraenses.

A liderança nacional pertence a Queimados, no Rio de Janeiro, onde 12,52% dos trabalhadores enfrentavam mais de duas horas de percurso. Nova Iguaçu e Belford Roxo, também na Baixada Fluminense, aparecem em seguida.

Desafios geográficos

O quadro paraense apresenta um aparente contraste. De acordo com o Censo, 92,1% da população ocupada do Pará trabalhava no próprio município de residência, índice superior à média brasileira, de 88,4%. Apenas 5,8% precisavam atravessar limites municipais para exercer a atividade profissional.

Trabalhar no mesmo município, porém, não significa necessariamente trabalhar perto de casa. No Pará, municípios extensos, comunidades rurais, ilhas, rios e estradas com diferentes condições de trafegabilidade podem transformar deslocamentos internos em viagens demoradas.

É o que ajuda a explicar a presença de Itaituba e Abaetetuba no ranking nacional. O IBGE, entretanto, não investigou as causas específicas da demora em cada município. Portanto, fatores geográficos, econômicos e de infraestrutura ajudam a contextualizar os resultados, mas não podem ser apresentados isoladamente como explicação definitiva.

Em Itaituba, o desafio começa pelo tamanho do território. O município possui mais de 62 mil quilômetros quadrados e baixa densidade populacional. A economia reúne atividades de mineração, comércio, serviços e uma extensa estrutura logística ligada aos terminais de transbordo de grãos de Miritituba.

Trabalhadores podem enfrentar longos percursos entre comunidades, distritos, áreas de garimpo, propriedades rurais, instalações portuárias e a sede municipal. Parte das viagens combina rodovias, ramais, travessias fluviais e balsas. Nesse cenário, a distância é medida não apenas em quilômetros, mas também pela espera e pelas condições do caminho.

Em Abaetetuba, no Baixo Tocantins, a geografia impõe outro tipo de dificuldade. O município é formado por ramais e 72 ilhas, segundo informações da própria prefeitura. Para moradores das áreas ribeirinhas, o deslocamento pode envolver barcos, rabetas, transporte de linha e, depois, outro trecho por terra.

Horas no ônibus, paradas lotadas e cansaço: o drama de quem vai ou volta do trabalho. Foto: Mauro Ângelo

O tempo de viagem também pode variar conforme as marés, os horários das embarcações e as conexões disponíveis. Para quem sai das ilhas para trabalhar na sede municipal ou em cidades vizinhas, o trajeto diário pode se tornar uma sucessão de esperas.

Mobilidade em Belém e Região Metropolitana

Na capital paraense, o Censo mostra uma realidade menos extrema, embora ainda marcada por engarrafamentos e demora no transporte público. Em Belém, 54,7% dos trabalhadores levavam entre seis minutos e meia hora para chegar ao serviço. Outros 27,4% gastavam de meia hora a uma hora, enquanto 16% enfrentavam trajetos de uma a duas horas.

A proporção de trabalhadores que levavam mais de duas horas era de aproximadamente 2%. O percentual está bem abaixo dos índices de Itaituba e Abaetetuba, mas representa milhares de pessoas expostas diariamente a viagens desgastantes.

O principal meio de transporte utilizado também revela diferenças entre o Pará e o restante do país. Nacionalmente, o automóvel liderava os deslocamentos, utilizado por 32,3% dos trabalhadores, seguido pelo ônibus, com 21,4%, e pela motocicleta, com 16,4%.

No Pará, a motocicleta aparecia em primeiro lugar, com 28,7%. Na sequência vinham ônibus, com 17,5%; deslocamentos a pé, com 16,7%; automóvel, com 16%; e bicicleta, com 11,7%. Os números evidenciam a força de meios individuais e de menor porte, principalmente em municípios onde a oferta de transporte coletivo é limitada.

BRT já reduz viagens na Região Metropolitana

Na Região Metropolitana de Belém, parte da resposta ao problema começou a operar em novembro de 2025, com a implantação do BRT Metropolitano. O sistema utiliza corredores exclusivos, terminais de integração, estações e tarifa única para atender passageiros de Belém e de municípios ligados pelo eixo da BR-316.

Segundo o Governo do Pará, o percurso feito pelo BRT nos horários de maior movimento pode representar uma redução de até 50% no tempo gasto em comparação com o transporte convencional. A frota também passou a contar com ônibus climatizados e veículos elétricos adquiridos no conjunto de investimentos realizados para a COP30. O sistema, no entanto, ainda enfrenta o desafio de alcançar integração plena com todas as linhas municipais.

Os investimentos metropolitanos representam um avanço, mas não atingem diretamente os dois municípios paraenses mais destacados no levantamento. Itaituba está no oeste do Pará e Abaetetuba, no Baixo Tocantins, não integra o corredor do BRT da BR-316.

Soluções adaptadas à realidade amazônica

Para reduzir os deslocamentos extremos nessas localidades, serão necessárias soluções adaptadas à realidade amazônica: melhoria de ramais e estradas, transporte hidroviário regular, integração entre barcos e ônibus, pontos seguros de embarque, horários confiáveis e planejamento das rotas de acordo com as comunidades atendidas.

O Censo deixa claro que mobilidade no Pará não pode ser pensada apenas como trânsito urbano. Em uma região onde rios também são ruas e as dimensões municipais desafiam o mapa, melhorar o caminho até o trabalho significa enfrentar distâncias, esperas e desigualdades históricas. Afinal, duas horas perdidas antes do expediente não são apenas um problema de transporte: são tempo retirado do descanso, da família e da própria vida.

Os dados consideram o tempo habitual gasto somente no trajeto de ida, da residência ao trabalho principal, por pessoas ocupadas de 10 anos ou mais que trabalhavam fora de casa. Os resultados são preliminares e foram estimados a partir das áreas de ponderação do Censo 2022.

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