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“Tábua do sexo”: prática chocante volta aos holofotes em São Paulo

Estrutura de madeira com orifícios teria sido usada para encontros sexuais sem identificação entre participantes; relatos chegaram à CPI dos Pancadões e levantam alerta sobre adolescentes, ISTs e exploração em festas clandestinas.

O chamado “Baile da Tábua” voltou ao centro das discussões sobre os pancadões clandestinos de São Paulo após uma reportagem do Balanço Geral, da Record, revelar relatos sobre uma estrutura de madeira utilizada para práticas sexuais de risco. Segundo a denúncia, participantes permaneceriam em lados opostos da estrutura e teriam contato sexual através de orifícios, sem necessariamente conhecer ou visualizar a outra pessoa. Há relatos de presença de adolescentes nesses ambientes, o que amplia a preocupação das autoridades.

Apesar da repercussão, é importante diferenciar o que está comprovado do que permanece no campo das denúncias. As fontes consultadas mostram que a existência dessa prática foi relatada publicamente por profissionais de saúde, policiais e integrantes da Câmara Municipal de São Paulo ao longo dos últimos anos. Porém, não foram encontrados registros oficiais que permitam afirmar a existência de um evento organizado especificamente com o nome “Baile da Tábua”, nem confirmar como fato todas as histórias associadas à prática.

O que seria a “tábua do sexo”?

A descrição mais recente apresentada pela Record fala em uma estrutura de madeira com vários orifícios. Homens e mulheres ficariam posicionados em lados diferentes, de maneira a impedir ou dificultar o contato visual durante atos sexuais. A emissora relacionou os relatos a pancadões e afirmou que policiais mencionaram a prática durante as discussões sobre essas festas clandestinas.

A referência, entretanto, não surgiu agora. Anos antes, a médica Albertina Duarte, conhecida pelo trabalho com saúde de adolescentes, já havia relatado ter ouvido de pacientes histórias sobre práticas chamadas de “tábua do sexo” em bailes funk. Em entrevista à Trip, ela descreveu relatos recebidos em consultório envolvendo relações com diferentes parceiros durante uma mesma ocasião.

As descrições antigas e recentes não são completamente idênticas. Isso reforça a necessidade de cautela ao tratar a expressão como se designasse uma única dinâmica padronizada.

“Filhos da madeira”: história sem comprovação

Um dos elementos mais impactantes difundidos nas redes sociais é a afirmação de que jovens que engravidassem nessas circunstâncias chamariam os bebês de “filhos da madeira”, porque não saberiam identificar o pai.

A expressão aparece em reportagens reproduzindo as denúncias, mas não há, nas fontes oficiais consultadas, levantamento, registro médico ou investigação divulgada que comprove a existência de crianças efetivamente identificadas dessa maneira. Portanto, o relato deve ser tratado como alegação associada ao fenômeno, e não como fato estabelecido.

Também circulam referências à Favela São Rafael, em Guarulhos, e a regiões da Zona Leste de São Paulo. Nas buscas realizadas, porém, não foi localizada confirmação oficial suficiente para atribuir especificamente a esses locais a existência da estrutura descrita nas denúncias.

Adolescentes acendem alerta

O aspecto mais grave das denúncias está relacionado à eventual presença de crianças e adolescentes.

Durante debates relacionados aos pancadões, integrantes da Câmara Municipal já registraram relatos sobre menores em ambientes envolvendo drogas e sexo. Em discussão sobre a criação de uma frente parlamentar para acompanhar festas clandestinas, o vereador Rubinho Nunes afirmou ter recebido informações envolvendo meninas de 12 e 13 anos na prática denominada “tábua”. A declaração é do parlamentar e não equivale, por si só, à comprovação judicial de casos específicos.

A própria CPI dos Pancadões chegou a aprovar requerimentos relacionados à hipersexualização de menores e à atuação de bares e adegas ligados às festas clandestinas.

O Estatuto da Criança e do Adolescente também proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos. No município de São Paulo, existe legislação específica voltada ao combate à comercialização ilegal de álcool para crianças e adolescentes.

Presença de adolescentes em ambientes com drogas, álcool e práticas sexuais foi uma das preocupações discutidas durante a CPI dos Pancadões. Polícia Militar registrou mais de 104 mil chamados relacionados a bailes clandestinos em São Paulo durante 2025, média de 286 reclamações por dia.

Pancadões viraram alvo de CPI

O problema vai além das denúncias envolvendo sexo.

A CPI dos Pancadões foi instalada pela Câmara Municipal de São Paulo em maio de 2025 para investigar possíveis omissões de órgãos públicos na fiscalização da perturbação do sossego e das festas clandestinas. O relatório final foi aprovado em abril de 2026, após meses de depoimentos, diligências e discussões.

Em uma das oitivas, o capitão da Polícia Militar José Eduardo de Campos Tenucci relatou problemas envolvendo armas de fogo, roubos, consumo de drogas e funcionamento irregular de bares e adegas na região do Campo Limpo. Segundo ele, operações periódicas vêm identificando estabelecimentos sem autorização, que são comunicados às subprefeituras para providências administrativas.

Outro depoimento à CPI apontou tráfico de drogas e aliciamento de menores em determinados eventos, mas representantes ligados à cultura funk também defenderam durante as discussões que não se deve confundir o funk enquanto manifestação cultural com crimes eventualmente praticados em festas clandestinas.

Mais de 100 mil chamados em um ano

Os números mostram a dimensão das reclamações envolvendo pancadões na capital paulista.

Dados da Polícia Militar obtidos pela Folha de S.Paulo apontam que foram registrados 104.555 chamados relacionados a bailes clandestinos em 2025, contra 95.718 no ano anterior. A média chegou a aproximadamente 286 reclamações por dia, crescimento de 9,2% em um ano.

As ocorrências não significam necessariamente crimes em todos os casos, pois parte expressiva das reclamações está relacionada a perturbação do sossego e excesso de barulho.

São Paulo também possui a chamada “Lei do Pancadão”, que pune o uso de som excessivamente alto em veículos estacionados em vias públicas. A legislação foi criada, entre outros objetivos, para enfrentar perturbações e situações associadas ao consumo de álcool e drogas por menores.

Consentimento também é ponto central

As circunstâncias descritas nas denúncias ainda levantam questões que vão além da prevenção de doenças.

Quando há menores, intoxicação por álcool ou outras drogas, coerção, exploração ou impossibilidade de manifestação livre da vontade, a situação pode envolver violações graves de direitos e exigir atuação das autoridades competentes.

Por isso, os relatos precisam ser apurados individualmente. A simples circulação de vídeos, depoimentos ou histórias nas redes sociais não permite concluir que todos os episódios atribuídos ao chamado “Baile da Tábua” tenham ocorrido da maneira descrita.

O que está documentado é que os pancadões clandestinos foram objeto de investigação parlamentar, que autoridades relataram ocorrências envolvendo armas, drogas, menores e estabelecimentos irregulares e que a denominada “tábua do sexo” aparece em relatos públicos há anos. A extensão atual da prática e os locais específicos onde eventualmente ocorre, entretanto, não estão comprovados pelas fontes oficiais disponíveis.

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