Antônio Carlos Nunes de Lima, o Coronel Nunes, construiu durante décadas uma trajetória de poder nos bastidores do futebol paraense até chegar ao comando da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Morreu aos 87 anos, em Belém, deixando uma história marcada por influência, longas permanências em cargos de direção e episódios que ultrapassaram as fronteiras do futebol paraense.
A relação de Nunes com o futebol começou a ganhar força no Paysandu, clube pelo qual nutria paixão. Em 1991, assumiu a diretoria de futebol do Papão, justamente no ano em que o clube conquistou o Campeonato Brasileiro da Série B. A experiência no comando do departamento de futebol ajudou a pavimentar o caminho que ele seguiria nos bastidores do esporte no Pará.
Sete anos depois, em 1998, Nunes chegou à presidência da Federação Paraense de Futebol (FPF). Começava ali um dos mais longos ciclos de poder da história da entidade. Ele permaneceu no cargo por quase 20 anos, até 2016.
Durante esse período, Coronel Nunes deixou de ser apenas um dirigente estadual e passou a construir espaço político na estrutura nacional do futebol. Em dezembro de 2015, foi eleito vice-presidente da CBF e, pouco depois, chegaria ao cargo máximo da entidade.
Do Pará ao comando da CBF
A primeira chegada de Coronel Nunes à presidência da CBF ocorreu em meio a uma das maiores crises da história da entidade.
Em 2016, Marco Polo Del Nero deixou o comando da confederação após ser envolvido nas investigações internacionais sobre corrupção no futebol. Nunes, então um dos oito vice-presidentes da CBF, assumiu a presidência por ser o mais velho entre eles.
Tinha 80 anos.
O primeiro período no comando durou cerca de cinco meses. Depois, Nunes voltou a ocupar a presidência da CBF entre 2017 e 2019, até a chegada de Rogério Caboclo.
A relação com a entidade, porém, ainda não havia terminado. Em 2021, Coronel Nunes voltou ao centro da crise política da CBF ao assumir novamente a presidência de forma interina, após o afastamento de Caboclo, acusado de assédio moral e sexual.
Foi a última vez que ocupou o principal cargo da entidade.
Depois de deixar a CBF, Nunes se afastou progressivamente dos holofotes e do comando do futebol brasileiro. Seu nome, no entanto, voltaria ao centro de uma disputa jurídica anos depois — desta vez, por um motivo muito diferente.
O episódio que recolocou Nunes no centro da crise da CBF
Em maio de 2025, o nome de Coronel Nunes reapareceu em uma das mais turbulentas disputas pelo comando da CBF.
O então presidente Ednaldo Rodrigues foi afastado do cargo por decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). A decisão do desembargador Gabriel de Oliveira Zéfiro citou questionamentos sobre a capacidade de Nunes de manifestar conscientemente sua vontade e sobre a autenticidade de sua assinatura em um documento considerado fundamental para o processo.
Nunes aparecia como um dos signatários de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público do Rio de Janeiro e a CBF. O acordo havia sido utilizado para tentar encerrar a disputa judicial que envolvia a eleição de Ednaldo Rodrigues.
Na decisão, o desembargador afirmou que havia dúvidas sobre a capacidade de Nunes de expressar sua vontade de maneira consciente e declarou que seus atos poderiam estar sendo conduzidos por terceiros.
A contestação da assinatura colocou em xeque a validade do acordo. Sem a participação válida de Nunes, o TAC poderia ser considerado comprometido — e o processo voltou a ameaçar a permanência de Ednaldo Rodrigues no comando da CBF.
O episódio levou novamente o nome de Coronel Nunes ao centro de uma crise institucional na entidade que ele próprio havia comandado em diferentes momentos.
Uma trajetória que começou no Pará
Antes da longa carreira como dirigente esportivo, Antônio Carlos Nunes foi coronel da reserva da Polícia Militar do Pará e também exerceu funções públicas.
Mas foi no futebol que construiu sua maior influência.
Do departamento de futebol do Paysandu à presidência da FPF, e depois ao comando interino da CBF, Nunes passou mais de três décadas circulando entre os principais centros de decisão do esporte brasileiro.
Sua trajetória começou no Pará, ganhou força durante quase duas décadas à frente da federação estadual e chegou ao topo da estrutura do futebol brasileiro.
A morte de Coronel Nunes encerra uma era de um dirigente que, por décadas, esteve entre os personagens mais influentes — e também mais controversos — dos bastidores do futebol paraense e nacional.
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