Começo essa história em junho de 2013. Exatamente quando iniciou minha carreira de revolucionário. Era uma bela tarde de verão, calor em Belém, a cidade vivia os primeiros meses de uma nova gestão municipal. O país, no meio do terceiro ano de um mandato presidencial.
Naquele momento, vários começaram nessa carreira, aliás. A minha foi bem curta. Logo que cheguei à praça Dom Pedro, em frente à Prefeitura, deu-se uma confusão e a Polícia Militar resolveu controlar o tumulto jogando bombas. Uma explodiu bem diante de mim. Uma névoa se deu pela rua seguida de um corre-corre. Naquele exato instante peguei um ônibus e voltei para casa e encerrei minha carreira de revolucionário.
Na verdade, a falta de convicção sobre pelo que lutar não me trouxe a gana de ficar cheirando gás. Assim como muitos, fui às ruas sem uma pauta, meio perdido, sem um motivo real pelo qual protestar. Era mais um grito entalado pelo jeito brasileiro de levar a política.
O impacto das Jornadas de Junho de 2013 na política brasileira
As jornadas de junho de 2013 causaram uma profunda mudança no perfil das manifestações de rua e, posteriormente, na própria política brasileira. A esquerda, que durante muito tempo dominou a mobilização popular, viu aquele espaço passar a ser disputado também por grupos de diferentes matizes ideológicos, inclusive mais conservadores. Junho não criou sozinho a incivilidade política nem a extrema direita brasileira, mas abriu uma avenida pela qual forças até então menos presentes nas ruas passaram a disputar o espaço público. A violência, que naquela ocasião apareceu nas depredações, também encontraria, nos anos seguintes, terreno fértil nos discursos.
De lá para cá, vimos uma piora exponencial do debate público, hoje pautado por uma pós-verdade generalizada. Assistimos a uma sucessão de escândalos, Brasília cada vez mais voltada aos próprios interesses e a uma polarização que muitas vezes esconde as verdadeiras disfuncionalidades do sistema.
Democracia e debate público: contradições e desafios
Mas essa porteira aberta pelas jornadas de junho também possibilitou que o brasileiro buscasse saber mais sobre política. Talvez essa seja uma das grandes contradições deixadas por 2013. O brasileiro passou a falar muito mais de política. O problema é que falar mais de política não significou necessariamente compreender melhor a democracia.
Palavras antes restritas ao noticiário e aos meios especializados passaram a fazer parte das conversas comuns. Congresso, Supremo, Constituição, impeachment, orçamento e corrupção ganharam outra dimensão no vocabulário popular. Houve mais interesse e mais participação, mas isso não significou, necessariamente, mais tolerância ou amadurecimento democrático.
Corrupção, fisiologismo, jeitinho e compadrio existem neste país desde o Descobrimento, mas a impressão que fica, diante da sucessão de escândalos, é que as cifras estão cada vez maiores. Os milhões passaram a ser bilhões. E com a maior naturalidade.
O excesso de corporativismo em Brasília só choca até o próximo escândalo. O problema é que, a cada vez em que o rei fica nu, uma parte da confiança nos freios e contrapesos se dissolve. Aliás, quando Montesquieu criou os freios e contrapesos no Espírito das Leis, talvez ele não estivesse contando com a existência do jeitinho brasileiro.
A fragilidade das instituições e a Nova República
A cada crise tenho a impressão que o Brasil caminha para um precipício sem volta. Infelizmente, estamos jogando fora nossa maior chance de evolução. Nossa Constituição não é perfeita, mas é a melhor que existiu até agora e fica cada vez mais fraca quando aqueles que deveriam protegê-la lutam pelo interesse próprio mais do que pelo interesse público.
E essa responsabilidade não cabe apenas a um Poder, a um partido ou a um campo ideológico. Executivo, Legislativo, Judiciário, partidos, grupos econômicos e o próprio eleitorado têm responsabilidades na preservação das regras do jogo. Quando instituições passam a ser defendidas apenas quando suas decisões nos agradam e atacadas quando produzem resultados contrários aos nossos interesses, a democracia deixa de ser um princípio e passa a ser tratada como conveniência.
As jornadas de 2013 não inventaram os problemas que vieram depois, tampouco podem carregar sozinhas a responsabilidade pelo que o país se tornou. Mas foram um ponto de inflexão. Revelaram uma crise de representação que já existia, levaram milhões de pessoas para a discussão política e abriram espaço para forças que transformariam profundamente o debate público brasileiro.
Talvez o maior problema seja que, treze anos depois, muitas das razões que levaram aquelas pessoas às ruas hoje falam mais alto e continuam sem resposta. É como se aquele dia ainda não tivesse terminado e, a qualquer momento, as ruas pudessem ficar cheias novamente.
E, a julgar pelo que vem acontecendo, eu, como democrata convicto, pressinto que terei que reativar meus superpoderes de revolucionário em breve. O excesso de excessos está matando a Nova República. Só que, desta vez, sei exatamente pelo que lutar: pela democracia, pela livre escolha, pelo Estado de Direito, pela liberdade de imprensa e de expressão e pelos direitos das minorias.
No entanto, pelo andar da carruagem, talvez não sobre ninguém para lutar comigo nas ruas. Às vezes, sinto que sou o único que acredita que essa tal de democracia ainda vale à pena — e acho que é porque ainda não conheço Daniel Vorcaro.
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