Após ler o artigo The Intriguing History of Cancer imunotherapy (2019), publicado na Frontiers in imunology, bate a reflexão para entender como se chegar à cura do câncer, tendo em vista que a retirada mecânica com a lâmina fina já tem seu papel definido, mas que ainda se precisa do complemento medicamentoso. O artigo detalha a trajetória histórica da imunoterapia, essa inovação aliada ao tratamento cirúrgico.
Rangeu-me a memória do escrito de Roberto Pompeu de Toledo, 20 anos atrás, na revista Veja. O texto sacoleja as têmporas com a entrevista de Salvador Dalí à revista Le Nouvel observateu: “Por causa de Julio Verne, estamos condenados a morrer como insetos”. Ou seja: caquéticos, de olhos encovados e encarquilhados pelo câncer.
Dalí questionava as ficções de Verne. Não há nada a se ganhar em outros planetas – dizia o extravagante artista. Surrealista é que gasta energia e dinheiro desnecessariamente. Todo esse esforço poderia ser convertido para conquistar o mundo científico. Seria muito mais benéfico se, em vez de voar pra lua, mergulhasse no núcleo da célula para estudar os genes e esticar a vida. Poderia deixar Amir Klink desenhar o roteiro desse mergulho. A vida é aqui na terra – ou na água -, nada de lua!
Num átimo tive vontade de tocar fogo na coleção verniana, herdada de meu pai.
Lembrei também dos Secos&Molhados, na voz do Ney Matogrosso: “Um verme passeia na lua cheia…”. Sim, até hoje acho que os autores quiseram homenagear o Verne e não o verme.
Outros que Dalí deserdaria seriam os ufologistas – antes que eles queimem esse texto e ainda assem meu fígado na Praça da República (ou Batista Campos, a praça mais bonita da terra) -, pelo mesmo motivo. Deixem os extraterrestres em paz, até mesmo o chupa-cabra de Colares. Pra quê gastar energia com isso, a hora é de abduzir o câncer. Depois a gente se dedica ao espaço, relendo Carl Sagan.
Para Dalí, se alguém morre de câncer é por culpa Júlio Gabriel Verne.
Admitamos que ler Verne realmente dá vontade de viajar na boleia com ele. Em “Viagem ao centro da terra”, dá cuíra de perfurar a magna ígnea e bater lá no Japão. Vai ver que o tio Sam leu “Da terra à lua”, iludiu-se, jogou dinheiro para o espaço, deixando o Danna-Faber Cancer Institute, em Boston, um dos grandes centros de pesquisa em câncer, a ver navios – ou naves.
Mas vale reatarmo-nos aos anos 60, época da entrevista, década marcada pela aterrissagem à lua. Naquele período o capitólio de Washington foi tomado por Mary Lasker e Sidney Faber, ativistas, além de cientistas, fazendo lobby para que dólares chegassem a pesquisas com câncer.
Após os apelos, o presidente Nixon ficou acuado e, nos anos seguintes, financiou pesquisas com câncer cujos resultados começam a brotar só agora. Se os antecessores John Kennedy e Lyndon Johnson tivessem feito o mesmo, não estaríamos nesta queda de braço. Foi uma década perdida. Os imunoterápicos já estariam em farmácias e a cirurgia robótica já teria chegado ao Acre e Haiti.
Os três presidentes que leram Julio Verne extrapolaram o juízo. Fizeram disso seus credos e ainda puseram os livros debaixo das axilas, como se fosse bíblia. Esse é o problema da deliciosa leitura de ficção, em que os endinheirados acreditam, viajam na maionese e negligenciam doenças, deixando cada vez mais longa a fila do pão – ou do açaí, se fosse por aqui. Vejam o Elon Musk: Lá quer saber de câncer! Deve ser outro apaixonado por Verne.
Por isso que gosto de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Dostoiévski. Eles e tantos outros nos aproximam do núcleo da vida – a célula.
Por Roger Normando
O autor é professor de cirurgia torácica da Universidade Federal do Pará (UFPA) e membro titulado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica.






