Quando George Michael entrou no palco do Maracanã, em janeiro de 1991, ele já sabia lidar com multidões. Aos 27 anos, o britânico tinha deixado para trás a imagem de galã do Wham! e se tornado um dos maiores astros do pop mundial com “Faith”, álbum que vendeu milhões de cópias e consolidou sucessos como “Father Figure” e “One More Try”.
Naquele Rock in Rio, porém, havia uma pessoa na plateia que fez o cantor perder a concentração.
Era Anselmo Feleppa, um estilista brasileiro que tinha ido ao festival como mais um espectador. George Michael percebeu os olhares vindos da plateia e, anos depois, ainda lembrava da cena com uma precisão que surpreendia. Em entrevista concedida mais de duas décadas depois, o cantor contou que, em determinado momento, evitava até olhar para uma parte do público porque Anselmo estava ali.
O relacionamento mais importante
Eles se conheceram depois. O que parecia um episódio improvável na agenda de uma estrela internacional se transformou no relacionamento mais importante da vida de George Michael.
A história, no entanto, durou pouco. Poucos meses depois de começarem a se relacionar, Anselmo descobriu que era soropositivo. Em março de 1993, morreu no Brasil, aos 36 anos, vítima de uma hemorragia cerebral relacionada à Aids. George Michael ficou devastado.
Passou cerca de dois anos sem conseguir escrever música. Quando finalmente voltou ao piano, o primeiro grande resultado daquele período foi “Jesus to a Child”, uma canção dedicada a Anselmo e que se transformaria em um dos maiores sucessos de sua carreira. A história por trás da música começa, portanto, em um estádio lotado no Rio de Janeiro.
Quem era Anselmo Feleppa
Anselmo Feleppa não era cantor, ator ou uma personalidade conhecida quando conheceu George Michael. Nascido em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 21 de agosto de 1956, trabalhava como estilista e tinha 34 anos na época do Rock in Rio II.
George Michael se apresentava no festival nos dias 25 e 27 de janeiro de 1991. O cantor era uma das atrações internacionais mais aguardadas daquela edição, que levou nomes como Prince, Guns N’ Roses, INXS e a-ha ao Maracanã. Foi durante a passagem pelo Rio que Anselmo entrou em sua vida.
Anos depois, George falou sobre aquele primeiro encontro em uma entrevista para a rádio BBC. Mesmo décadas após a morte do brasileiro, a memória ainda o emocionava. O cantor descreveu Anselmo como uma pessoa “bonita” e “incrível” e afirmou que encontrar um companheiro naquele momento de sua vida provocou uma transformação profunda.
Não era apenas um namoro. George Michael vivia, pela primeira vez, uma relação que o obrigava a baixar a guarda.
Naquele início dos anos 1990, o cantor era uma das pessoas mais famosas do mundo, mas mantinha a vida afetiva sob extremo controle. Sua sexualidade não era pública e poucos conheciam completamente o que acontecia longe dos palcos.
Anselmo entrou justamente nesse espaço protegido. Em entrevista publicada anos depois, George Michael explicou que o brasileiro conseguiu romper uma reserva emocional construída desde a juventude. “Ele derrubou minha reserva”, afirmou o cantor.
George disse que essa proteção vinha de duas origens. Parte era consequência da forma como havia sido criado. Outra parte tinha relação direta com a fama. Anselmo, segundo ele, conseguiu mudar sua relação com a confiança e com o próprio medo de se entregar. Era, nas palavras do cantor, um amor que ele não havia experimentado daquela maneira antes.
A luta contra a Aids e o luto
No início dos anos 1990, viver com HIV era uma experiência completamente diferente da atual. A terapia antirretroviral combinada, responsável por transformar a doença em uma condição crônica controlável para milhões de pessoas, ainda não existia. A epidemia provocava mortes em larga escala e o diagnóstico carregava uma enorme carga de medo e preconceito.
George Michael também temia ter sido infectado. Anos depois, ele falou abertamente sobre o impacto daquela notícia e sobre o isolamento que viveu. Além da preocupação com Anselmo e com a própria saúde, havia outro problema: sua família ainda não sabia que ele era gay.
O cantor carregava a situação praticamente sozinho. O diagnóstico chegou em um momento que seria marcado também pela morte de outro gigante da música.
Em novembro de 1991, Freddie Mercury morreu em consequência de complicações relacionadas à Aids. Menos de seis meses depois, em abril de 1992, George Michael foi convidado para participar do concerto em homenagem ao vocalista do Queen, realizado no estádio de Wembley, em Londres.
A apresentação entrou para a história. George Michael cantou “Somebody to Love” diante de uma multidão e recebeu elogios pela potência vocal. Para o público, era uma homenagem a Freddie Mercury. Para o cantor, porém, aquela noite tinha uma dimensão muito mais pessoal.
Enquanto homenageava um artista morto pela Aids, George acompanhava de perto a doença de Anselmo. Pouco tempo depois, o brasileiro voltou ao Brasil para receber tratamento.
Em 26 de março de 1993, Anselmo Feleppa morreu após sofrer uma hemorragia cerebral relacionada à Aids. George Michael não estava com ele. O cantor revelou posteriormente que a morte foi inesperada. Anselmo havia retornado ao Brasil para receber uma transfusão de sangue e acabou sofrendo a hemorragia.
Mais tarde, o artista disse que passou anos tentando lidar com a perda. A morte de Anselmo marcou o início de um período de profunda crise emocional e criativa. O cantor e compositor simplesmente parou de escrever. Para alguém que havia construído a carreira compondo alguns dos maiores hits do pop britânico, o bloqueio foi absoluto. “Eu não escrevi uma nota de música”, lembraria anos depois.
O retorno com “Jesus to a Child”
O silêncio durou cerca de dois anos. Nesse intervalo, George Michael também enfrentava uma batalha judicial contra a Sony Music. O cantor processava a gravadora, alegando que seu contrato era excessivamente restritivo. O processo terminou em derrota, mas a crise profissional acabou funcionando como mais um elemento em um período já dominado pelo luto.
Em 1994, uma frase, um piano e o começo de uma nova fase George Michael estava improvisando diante de um teclado quando uma melodia começou a surgir. Ele criou uma sequência simples e começou a cantar. Entre as frases que apareceram estava uma imagem que daria nome à canção: “Jesus to a Child”.
A composição avançou rapidamente. O bloqueio criativo havia terminado justamente quando George conseguiu transformar a perda em música. “Jesus to a Child” nasceu como uma homenagem ao brasileiro que havia mudado sua vida.
A escolha do título e da sonoridade também carregava elementos pessoais. A música tem influências da bossa nova, uma conexão que muitos críticos associaram ao período vivido por George Michael ao lado de Anselmo.
A canção foi lançada em janeiro de 1996 e chegou diretamente ao primeiro lugar da parada britânica. Era o primeiro single solo de George Michael a estrear no topo das paradas do Reino Unido. Também representava o retorno do cantor a uma carreira que havia atravessado anos de silêncio, luto e disputas judiciais.
George Michael ainda não havia assumido publicamente sua homossexualidade. Por isso, a identidade da pessoa que inspirou a música permaneceu durante algum tempo envolta em especulações. O cantor só assumiria publicamente que era gay em 1998. Mesmo antes disso, fazia questão de manter Anselmo presente de outra maneira. Em apresentações ao vivo, George Michael dedicava “Jesus to a Child” ao brasileiro.
Em maio de 1996, George Michael lançou “Older”, seu terceiro álbum de estúdio em carreira solo e o primeiro trabalho inédito em seis anos. O artista que havia dominado as rádios com o pop exuberante de “Faith” agora apresentava uma sonoridade mais adulta, marcada pelo jazz, pelo soul, pelo R&B e por uma atmosfera melancólica.
“Older” trazia sucessos como “Fastlove”, “Spinning the Wheel”, “You Have Been Loved” e a própria “Jesus to a Child”. George Michael dedicou “Older” ao brasileiro e, anos depois, fez uma declaração que ajuda a dimensionar a importância daquele relacionamento para o disco: “não há uma faixa naquele álbum que não seja sobre Anselmo”, afirmou.
George Michael morreu em 25 de dezembro de 2016, aos 53 anos, mais de duas décadas depois de perder Anselmo Feleppa. E até hoje “Jesus to a Child” marca não apenas o retorno de George Michael às paradas, mas a maneira que ele encontrou para transformar uma história profunda de amor vivida em memória.
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