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Uber demite 3.300 funcionários para enfrentar robotáxis; como ficam os motoristas e entregadores da plataforma?

Empresa reduz níveis de gestão, praticamente acaba com trabalho totalmente remoto e prepara investimentos superiores a US$ 10 bilhões em veículos autônomos diante do avanço de rivais

A Uber anunciou nesta quarta-feira (2) a demissão de cerca de 3.300 funcionários, o equivalente a aproximadamente 10% de sua força de trabalho global. É o maior corte realizado pela companhia desde a pandemia de Covid-19 e ocorre enquanto a empresa tenta simplificar sua estrutura e responder ao avanço dos robotáxis, considerados uma potencial ameaça ao atual modelo de transporte por aplicativo.

As demissões atingem funcionários corporativos e não significam a retirada de 3.300 motoristas ou entregadores da plataforma. A Uber possuía aproximadamente 34 mil empregados no mundo no fim de 2025, segundo seu relatório anual.

A reestruturação foi comunicada aos trabalhadores pelo CEO Dara Khosrowshahi. Segundo ele, o crescimento da companhia trouxe mais níveis hierárquicos, necessidade de coordenação e responsabilidades fragmentadas, tornando algumas decisões mais lentas.

“Uma organização mais enxuta significará responsabilidades mais claras, decisões mais rápidas e mais tempo dedicado à construção em vez da coordenação”, afirmou o executivo. A economia obtida, acrescentou, deverá ser direcionada para crescimento, inovação e novas competências.

Robotáxis pressionam modelo de negócios da Uber

Por trás da reorganização está uma transformação que pode mexer profundamente com o mercado de mobilidade: a expansão dos carros autônomos.

A Uber pretende investir mais de US$ 10 bilhões em robotáxis nos próximos anos, apoiando empresas responsáveis pelo desenvolvimento de sistemas de direção autônoma e tentando posicionar seu aplicativo como uma das principais plataformas para solicitar viagens sem motorista.

O desafio é evitar que a tecnologia retire da Uber parte de sua relevância como intermediária entre passageiros e veículos.

Uma das principais ameaças é a Waymo, que já opera veículos autônomos nos Estados Unidos e mantém relação comercial com a Uber em mercados como Austin e Atlanta. Ao mesmo tempo, a empresa de robotáxis vem expandindo operações sem depender do aplicativo da companhia.

A Tesla também amplia investimentos nessa disputa, aumentando a pressão sobre o mercado tradicional de transporte por aplicativo.

Reestruturação interna e home office

As mudanças vão além das demissões.

A Uber pretende reduzir em cerca de 20% o número de gestores, embora parte desses profissionais possa permanecer na empresa em funções sem responsabilidade direta de chefia.

A companhia também vai praticamente cortar pela metade a quantidade de pequenas equipes que possuem apenas um ou dois subordinados diretos. Áreas de engenharia, ciência e entregas serão reorganizadas, enquanto operações de restaurantes, varejo e entregas diretas passarão a trabalhar de maneira mais integrada.

A estratégia é diminuir estruturas consideradas excessivamente fragmentadas e acelerar a execução de projetos.

Home Office será exceção

Outra mudança significativa envolve o trabalho remoto.

Com a reorganização, somente cerca de 1% dos funcionários poderá permanecer trabalhando integralmente a distância. Para os demais, continuará valendo a política híbrida que exige presença física no escritório durante três dias da semana.

A empresa também pretende concentrar trabalhadores em polos considerados estratégicos, reduzindo a dispersão geográfica das equipes.

Corte não foi atribuído à IA

Apesar da onda de demissões associada à inteligência artificial em várias empresas de tecnologia, o CEO da Uber não atribuiu os 3.300 cortes diretamente à IA.

Segundo a reportagem originalmente publicada pela Reuters e reproduzida pela Forbes, mais de 123 mil desligamentos já haviam sido contabilizados em quase 390 empresas de tecnologia neste ano pelo site Layoffs.fyi.

No caso da Uber, a justificativa apresentada oficialmente está concentrada na simplificação da estrutura, redução de níveis hierárquicos e redirecionamento dos recursos para áreas consideradas estratégicas.

Ações sofrem com temor dos investidores

A pressão tecnológica também chegou à Bolsa.

As ações da Uber acumulavam queda de quase 8% no ano, com desempenho inferior ao índice S&P 500, em meio às preocupações de investidores sobre o avanço da concorrência e, principalmente, sobre o impacto futuro dos veículos autônomos.

Após o anúncio da reorganização, entretanto, os papéis chegaram a avançar no pré-mercado de Nova York, sinalizando uma reação inicialmente positiva dos investidores à promessa de redução de custos.

Uber Eats também enfrenta pressão

A disputa não está limitada ao transporte de passageiros.

No segmento de entregas, a Uber enfrenta concorrência de empresas como DoorDash e Instacart, além de plataformas regionais.

A companhia busca aumentar escala nesse mercado e reforçar sua capacidade de competir. A reorganização das divisões de restaurantes, varejo e entregas diretas faz parte desse movimento.

Maior demissão desde 2020

O corte anunciado agora é o maior promovido pela Uber desde maio de 2020.

Naquele momento, a pandemia derrubou drasticamente a procura por viagens e levou a empresa a eliminar aproximadamente 6.700 empregos, quase um quarto do quadro existente naquele período.

A diferença é que a rodada atual ocorre em um momento de expansão dos negócios.

No segundo trimestre de 2026, a Uber registrou US$ 14,2 bilhões em receita, crescimento de 12% em relação ao mesmo período anterior. As reservas brutas alcançaram US$ 58 bilhões, com alta de 24%.

O cenário mostra que as demissões não foram apresentadas como resposta a uma crise imediata de faturamento. Elas integram uma tentativa de preparar uma empresa mais enxuta para uma transformação tecnológica que pode mudar a própria lógica do transporte por aplicativo.

Se os robotáxis avançarem em larga escala, a Uber terá o desafio de continuar sendo a plataforma escolhida pelos passageiros mesmo em um mercado no qual parte crescente das viagens poderá ocorrer sem motorista ao volante.

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