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O menor cemitério de Belém tem só 28 túmulos e guarda uma história centenária

Necrópole Israelita, em Belém na Soledade, primeiro cemitério israelita do Brasil aberto em 1842 e fechado em 1915, foto de Moisés Unger 2013. Foto: Reprodução/Roitblog

Em meio à movimentação de uma das áreas mais conhecidas de Belém, existe um pequeno espaço que guarda uma história que atravessa quase dois séculos. A Necrópole Israelita, localizada no bairro da Soledade, possui apenas 28 túmulos e é apontada como o primeiro cemitério israelita do Brasil.

O local foi estabelecido em 1842, décadas antes do Cemitério Israelita de Inhaúma, no Rio de Janeiro, criado em 1916. Segundo a pesquisa apresentada pelo jornalista e pesquisador José Roitberg, a necrópole funcionou até 1915.

Apesar do tamanho reduzido, o cemitério reúne registros importantes da presença judaica na Amazônia. Das 28 sepulturas, 16 não possuem qualquer inscrição. As demais ajudam a reconstruir parte da história dos judeus que chegaram a Belém durante o século 19. Entre os túmulos estão os de três rabinos que atuaram na cidade: Mordecai Hacohen, Eliahu Avudaram e Mordecai Laredo.

Um dos primeiros rabinos a atuar no Brasil

A sepultura mais antiga com data confirmada é a do rabino Mordecai Hacohen, que morreu em 1848.

Segundo os historiadores Egon e Frieda Wolff, no livro As Mishpakhot de Belém, Hacohen teria sido um dos primeiros rabinos investidos no cargo no Brasil. Ele chegou à região em meio ao movimento de imigração judaica vindo do Marrocos.

A própria lápide é considerada um registro importante, já que, de acordo com o material pesquisado, praticamente não existem outros documentos que comprovem a passagem e a existência do rabino em Belém.

A necrópole também abriga o rabino Eliahu Avudaram, descrito em sua lápide como “caridoso, estimado e importante”, e Mordecai Laredo, que morreu em 1881. Na inscrição de Laredo há uma referência ao pai, o rabino Joseph, de Tanger, cidade localizada no Marrocos.

Cemitério tem túmulo com inscrições em francês

Outro túmulo que chama atenção é o de Alfred Levy, morto em 1872. A sepultura possui inscrições em francês e registra que Levy nasceu em Erstroff, na Lorena, França. Segundo o material, a pequena comunidade francesa tinha apenas 209 habitantes em 2010.

A presença dessa sepultura também reforça a diversidade dos grupos judaicos que passaram pela capital paraense.

Como surgiu a comunidade judaica em Belém?

A existência da Necrópole Israelita está diretamente ligada à chegada de judeus à Amazônia.
Segundo historiadores dedicados ao tema, cerca de mil famílias judaicas emigraram para a região entre 1810 e 1930.

Uma ideia comum é a de que a comunidade judaica de Belém tenha sido formada exclusivamente por judeus vindos do Marrocos. A história é mais complexa.
Os primeiros imigrantes marroquinos chegaram à região entre 1810 e 1820, ainda durante o período de exploração e exportação das chamadas “drogas do sertão”.

Muitos vieram de cidades do norte do Marrocos, como Tanger, Tetuan, Ceuta, Arcila e Larache. Esses grupos eram formados, em parte, por descendentes dos judeus expulsos da Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1496. Eram judeus sefarditas que mantinham tradições ligadas à Península Ibérica.

Eles falavam diferentes idiomas, entre eles espanhol, português, ladino e haquitia, além de francês e inglês.

Belém teve duas sinagogas históricas

As diferenças entre os grupos também apareceram na formação das instituições religiosas.
Segundo Samuel Benchimol, autor de Eretz Amazônia, um dos grupos era formado pelos chamados toshavim, judeus que já viviam no Marrocos antes da chegada dos descendentes dos expulsos da Península Ibérica. Eles estiveram ligados à criação da Eshel Avraham, em 1826.

Já os chamados megorachim, descendentes dos judeus expulsos da Espanha e de Portugal, estiveram ligados à Shaar Hashamaim, criada em 1828.

As duas sinagogas continuam existindo em Belém, em construções erguidas posteriormente, em 1947.

A imigração judaica foi maior do que se imagina

A comunidade judaica que chegou à Amazônia não era formada apenas por marroquinos.
Também houve a presença de judeus franceses, ashkenazitas e de grupos vindos de regiões como Turquia, Líbano, Síria e Egito.

Durante e depois da Primeira Guerra Mundial, mais de cem famílias ashkenazitas chegaram à Amazônia.

O estatuto da Junta Governativa da Congregação Hebraica do Pará, de 1902, chegou a mencionar a presença de judeus dos ritos “ortodoxo português ou alemão”. Essa diversidade também pode ser percebida nas inscrições encontradas nos antigos cemitérios judaicos da região.

Outros cemitérios judaicos surgiram no Pará

Com o crescimento da comunidade, a presença judaica também se espalhou por outras cidades paraenses. Além de Belém, houve comunidades em locais como Cametá, Mocajuba, Gurupá e Tocantins.

Cametá, por exemplo, chegou a ter duas sinagogas e um cemitério. Posteriormente, parte da comunidade se mudou para Belém e levou consigo os rolos da Torá, incorporados às sinagogas existentes na capital.

Em Belém, o Cemitério do Guamá passou a contar com um quadro israelita a partir de 1883.
Segundo o levantamento citado no material, existem 566 sepulturas judaicas no chamado Cemitério Judeu Antigo do Guamá.

Já em 1940 foi inaugurado o Cemitério Israelita Novo do Guamá, que possuía 492 sepulturas, conforme dado publicado em 1997. Ainda segundo o levantamento, em 1940 havia 1.253 sepulturas judaicas em todo o Pará.

Túmulos antigos também estão espalhados pelo interior

A presença judaica histórica pode ser encontrada ainda em outras cidades do estado.
Em São Miguel do Guamá, existe o túmulo de Leon Israel, morto em 13 de fevereiro de 1886.
Em Óbidos, há uma Necrópole Israelita que, segundo o material, foi limpa e preservada pela prefeitura. Já em Bragança, existem quatro túmulos de judeus. O local é descrito como completamente abandonado.

Em uma das sepulturas ainda é possível ler a inscrição de Abraham Marrashe, que nasceu em setembro de 1869 e morreu em março de 1912.

Um pequeno cemitério com uma grande história

Com apenas 28 túmulos, a Necrópole Israelita de Belém pode parecer pequena diante de outros cemitérios da cidade.

Mas suas sepulturas ajudam a contar uma história muito maior: a chegada de diferentes grupos de judeus à Amazônia, a formação de comunidades religiosas, a criação das primeiras sinagogas e a expansão dessa população pelo Pará.

Localizado na avenida Serzedelo Corrêa, nº 154, na Soledade, o espaço permanece como um dos registros mais antigos da presença judaica em Belém.

A pequena necrópole, com seus túmulos antigos e inscrições em diferentes idiomas, é também uma espécie de documento a céu aberto sobre uma comunidade que ajudou a construir parte da história de Belém e da Amazônia.

Fonte: © José Roitberg
ABEC – Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

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