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CBV veta atletas trans em competições femininas, e Tifanny dispara: “Meus 10 anos não foram em vão”

Tifanny Abreu se emocionou ao reagir à nova política da CBV que restringe a categoria feminina a atletas do sexo biológico feminino.

A jogadora Tifanny Abreu, do Osasco São Cristóvão Saúde, reagiu neste sábado (15) à nova política da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) que restringe suas principais competições femininas a atletas classificadas como de sexo biológico feminino. Em um pronunciamento emocionado após a estreia no Campeonato Paulista, a atleta trans classificou a mudança como um “enorme retrocesso” e prometeu adotar todas as medidas possíveis para continuar defendendo seu direito de permanecer no esporte.

“O voleibol é minha vida, meu trabalho. A CBV está tirando de mim tudo o que eu tenho, que é o amor pelo voleibol e a profissão que venho exercendo todos esses anos”, afirmou Tifanny ao ler uma carta aberta.

Aos 41 anos, ela ressaltou que possui dez temporadas no vôlei feminino e disse que a consequência da decisão ultrapassa sua situação individual, atingindo também clube, torcida, patrocinadores e outras pessoas trans que enxergam em sua trajetória uma referência.

A atleta foi ainda mais contundente ao questionar o método escolhido pela entidade. “É um enorme retrocesso na luta pelo reconhecimento e inclusão de todas as pessoas no esporte”, declarou, comparando o retorno de critérios genéticos a práticas de verificação utilizadas décadas atrás no esporte feminino. Tifanny concluiu dizendo que “não vou me calar” e acrescentou: “Meus 10 anos não foram em vão e vou lutar por eles e por todos vocês”.

Entenda a nova política da CBV

A nova Política de Elegibilidade para a Categoria Feminina foi publicada pela CBV na sexta-feira (14). O documento determina que a elegibilidade será verificada inicialmente por triagem destinada a identificar a presença ou ausência do gene SRY. Segundo a própria confederação, a exigência será aplicada de maneira geral e uniforme às atletas submetidas à política. A CBV sustenta que a mudança acompanha alterações adotadas internacionalmente pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

De acordo com o texto oficial, a FIVB passou a utilizar a triagem do gene SRY como critério inicial de categorização por sexo em setembro de 2025, enquanto o COI revisou sua política em março deste ano. A CBV afirma que decidiu alinhar suas competições nacionais às normas atualmente aplicadas no cenário internacional.

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Impacto na carreira de Tifanny Abreu

Na prática, a norma impede Tifanny Abreu de disputar competições nacionais abrangidas pela política, entre elas as Superligas A e B da temporada 2026/2027, a Supercopa de 2026, a Copa Brasil de 2027 e torneios nacionais de vôlei de praia. A recusa em realizar a triagem não é tratada como infração disciplinar, mas a atleta que não comprovar a elegibilidade pelos critérios estabelecidos fica impedida de competir.

Tifanny, entretanto, continuará disputando o Campeonato Paulista deste ano. A Federação Paulista de Voleibol (FPV) decidiu manter as regras vigentes quando a competição começou, em 13 de agosto, um dia antes da publicação da nova política da CBV. Segundo a entidade estadual, futuras competições serão analisadas pelos setores jurídico e de saúde.

A reação do Osasco também foi imediata. O clube informou que foi surpreendido pela nova regulamentação e afirmou que não participou da elaboração das regras. O departamento jurídico foi acionado para avaliar a norma e estudar os próximos passos. Em nota, a equipe reafirmou apoio integral a Tifanny e destacou a trajetória construída pela atleta desde que chegou ao clube, em 2021.

Durante a partida contra o Pinheiros, no Ginásio José Liberatti, Tifanny recebeu manifestações de apoio da torcida. Seu nome foi gritado nas arquibancadas e torcedores exibiram mensagens de solidariedade. Mesmo em meio à repercussão da nova regra, a atleta participou normalmente do confronto, que terminou com vitória do Pinheiros por 3 sets a 2.

Pioneirismo e controvérsia

A trajetória de Tifanny é marcada pelo pioneirismo. Depois de atuar no Brasil e no exterior, ela concluiu sua transição de gênero e, em 2017, recebeu autorização da FIVB para disputar competições femininas. Ainda naquele ano, tornou-se a primeira mulher trans a atuar em uma partida oficial da Superliga Feminina. Desde então, sua presença nas quadras transformou-se em um dos principais símbolos do debate sobre inclusão de atletas trans no esporte brasileiro.

A mudança da CBV encerra, na prática, o modelo anterior, que permitia a participação de atletas trans mediante critérios hormonais. Até então, a entidade adotava limites de testosterona. A nova política substitui esse parâmetro por uma categorização baseada inicialmente na triagem genética do gene SRY.

Controvérsia científica e esportiva

A discussão científica e esportiva permanece controversa. A CBV argumenta que o alinhamento às normas internacionais busca assegurar equidade competitiva e uniformidade regulatória. Por outro lado, especialistas ouvidos pela imprensa afirmam que ainda não existe consenso científico suficiente para estabelecer de forma ampla uma vantagem competitiva de mulheres trans em relação a mulheres cis em todas as modalidades e contextos esportivos.

Para Tifanny, porém, o debate ganhou uma dimensão pessoal e profissional imediata. Em uma temporada que pode ser a última antes de sua aposentadoria, ela vê a possibilidade de disputar novamente a Superliga ser interrompida por uma regra publicada após quase uma década de atuação autorizada no vôlei feminino. Sua resposta indica que a controvérsia deverá sair das quadras e avançar também para o campo jurídico.

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