Ao final da década de 80, ainda na residência médica, eu costumava sair, às terças, do hospital da Beneficência Portuguesa-RJ, hoje Gloria D’Or, para pegar o busão e saltar na Central do Brasil, para mais um plantão noturno na equipe Chapot-Prévost, do hospital Souza Aguiar. Ao amanhecer retornávamos para cumprir a carga horária da residência médica já com as pálpebras pesadas. Aos domingos subia a estrada de Jacarepaguá para mais uma jornada de 24 horas – extra para melhorar o apurado. Da janela, via-se a galera passar para a praia do Recreio, mas sem destilar inveja. Ali buscávamos oportunidades.
Quem conhece um pouco de Friedrich Nietzsche sabe que ele criou um dos pensamentos mais esfuziantes sobre o assunto: “aquilo que não te mata te deixa mais forte”. Nesse bordão sobrevivemos eu e todos aqueles que se veem nesse relato.
Marty Makary é cirurgião de renome nos EUA, a ponto de enfrentar Trump, sem tremer, quando esteve na direção do FDA. Em seu recente livro, Blind Spots, questiona os programas de residência médica que insistem em plantões de 36 horas e carga horária estendida, demonizando o modelo clássico criado por William Halsted ao final do século 19. A doutrina halstediana prima pela cultura de precisar se sacrificar para se tornar médico forte. No sentido inverso, Makary relata que o torpor provocado pela privação de sono seja teste de resistência e, como não bastasse, carrega mentores rigorosos – não obstante, rudes.
Para Makary, foi método criado pelos “sumos sacerdotes” para formar cirurgiões. Residentes escalavam o topo do limite físico e mental. Mesmo assim acreditava-se, de alguma forma, que era necessário. A maioria sobrevivia e ainda seguia na mesma toada quando ganhavam o canudo.
Há tendência em mudar o panorama atual, com restrições à carga horária. Em alguns casos, tribunais de justiça estão apoiando a nova ordem. Entretanto a busca pela demonização à figura de Halsted, o criador do modelo, talvez seja exagero. Percebe-se no pensamento de Makary que ele não aceita e ainda chama o movimento de “seita”: Operar sem dormir era distintivo de honra. Hoje é visto como uma atitude irresponsável. Muitos dos que viveram à época insistem que aqueles eram ‘bons tempos’ e que os estudantes e residentes de hoje precisam trabalhar mais.
Ele retrata como “dissonância cognitiva” e a “justificativa do esforço” para compor sua defesa, além de explicar a perpetuação de muitos dogmas da medicina.
No filme “Whisplash, em busca da perfeição (2014)” é um bom paralelo para dialogar com o tema. É a história de um baterista que chega à exaustão para poder se tornar um músico de jazz reconhecido. É a mais fiel cópia do pensamento de Halsted no beat de Nietzsche, que finda por laurear os que se dedicam ao extremo.
Se a película é tradução extrema desse tema, por sua vez a plateia sai sem saber se aplaude a vitória artística ou testemunha a vitória do abuso. O filme combina bem com este ensaio, sem necessariamente representar condenação à geração halstediana – aquela que me embalou. É um relato que reconhece a beleza perigosa do mito antes de desmontá-lo. Seria caso de se reger uma iconoclastia a Halsted, ou seria apenas um saudosismo disfarçado que me embalas?
Mas há uma ironia biográfica pouco descrita: Halsted era dependente de cocaína e depois de morfina. Construiu a doutrina da resistência sobre-humana enquanto ele mesmo dependia de substâncias para sustentar o ritmo. Ou seja, os “sumos sacerdotes halstedianos” descendem de um fundador que não superava a exaustão por força de filosofia, quiçá caráter, mas a mascarava quimicamente. Isso não invalida a citação de Nietzsche, mas ressignifica bastante o mito de origem.
Por fim, vale refletir se melhoraremos se desconstruirmos o modelo atual e progredir na iconoclastia de Halsted. Pelo visto, é o que está se anunciando.
Por Roger Normando






