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Ver-o-Peso pode ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial 

Antes mesmo de o sol nascer, o Ver-o-Peso já está em movimento. A chegada do pescado e do açaí, a preparação dos alimentos, a comercialização de ervas, temperos e produtos amazônicos e a relação entre feirantes e frequentadores fazem parte de uma rotina que atravessa gerações. É essa cultura viva, construída no cotidiano, que os trabalhadores querem ver reconhecida como patrimônio cultural imaterial, a partir do pedido apresentado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

A discussão vai além das estruturas que formam o complexo histórico. O Ver-o-Peso já é marcado por construções que ajudam a contar a história de Belém, como o Mercado de Ferro, o Mercado Municipal, o Solar da Beira, a Praça do Relógio e a Praça dos Estivadores. Mas, para o professor e historiador Márcio Neco, existe outro patrimônio que não pode ser separado desse cenário: aquele produzido pelas pessoas que trabalham e circulam pelo local.

“Uma característica de um patrimônio cultural material é o físico, a edificação, a cultura materializada em algo concreto. E o patrimônio imaterial são as culturas, os costumes, os conhecimentos, a criatividade que é desenvolvida em determinado espaço”, explica.



Segundo Neco, o Ver-o-Peso reúne essas duas dimensões. As edificações fazem parte do patrimônio material, enquanto as práticas desenvolvidas diariamente pelos trabalhadores representam uma dimensão imaterial que continua sendo construída e transmitida.

Saberes que estão no cotidiano

Entre os elementos que podem sustentar a importância do reconhecimento estão conhecimentos que fazem parte da rotina da feira. O historiador destaca os saberes relacionados às ervas e aos produtos naturais da Amazônia, além das técnicas utilizadas pelos trabalhadores para preparar, conservar, apresentar e comercializar os produtos.

“A forma como aquelas pessoas, aqueles trabalhadores, desenvolvem as técnicas para sua venda, como também o preparo dos seus produtos, o descascado da castanha, o carregamento dos peixes, a produção dos alimentos, do próprio açaí, do peixe frito”, exemplifica.



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Para ele, esses conhecimentos não estão isolados. Eles se misturam à culinária, aos temperos, às formas de atendimento e às estratégias utilizadas pelos próprios vendedores para apresentar os produtos aos consumidores.

“O saber ancestral, porque ele vem da utilização das ervas naturais do nosso estado, e um outro que eu colocaria são os saberes da culinária, o tempero”, afirma.

A maneira como os trabalhadores recebem os clientes e conduzem as vendas também faz parte dessa dinâmica. Neco compara o espaço a um grande encontro de técnicas desenvolvidas pelos próprios feirantes.

“As técnicas de vendas que tornam também o Ver-o-Peso um verdadeiro encontro das técnicas de marketing, onde ali os trabalhadores desenvolvem a sua maneira de acolher, de apresentar seus produtos e finalizar também as vendas”, explica.

Fé e manifestações culturais

A cultura presente no Ver-o-Peso também passa pela religiosidade. O comércio de artigos religiosos e a relação do espaço com manifestações tradicionais de Belém fazem parte dessa identidade.

Neco cita, entre outros exemplos, a presença de imagens religiosas e a relação do mercado com o Círio de Nazaré.

“Pegue, por exemplo, as práticas religiosas, a venda dos produtos de artigos religiosos, nas imagens de Nossa Senhora de Nazaré, na relação que o Círio tem com o local”, destaca.

O historiador também chama atenção para outro aspecto que vem ganhando espaço no cotidiano do complexo: as manifestações artísticas.

“Recentemente eu tenho percebido, nas minhas pesquisas, que o Ver-o-Peso tem sido um palco a céu aberto de inúmeras intervenções e atividades artísticas”, afirma.

Segundo ele, o local tem recebido pessoas que utilizam o espaço para apresentações, personagens, danças e coreografias, transformando o mercado em uma espécie de cenário cultural aberto.

Feirantes são fundamentais para manter a tradição

Se os prédios ajudam a contar a história do Ver-o-Peso, são os trabalhadores que mantêm muitas das práticas vivas. Para Márcio Neco, os feirantes ocupam uma posição central nesse processo. “Eu diria que os feirantes são a alma do Ver-o-Peso”, afirma.

O historiador destaca que muitos trabalhadores estão no local não apenas por uma questão profissional, mas também por uma tradição familiar. São conhecimentos que passam de pais para filhos e continuam sendo praticados diariamente.

“Um grande número de pessoas está lá desenvolvendo a sua atividade profissional não só como principal ferramenta de sustento das suas famílias, mas uma herança que receberam de pais”, explica.



Na avaliação dele, retirar essas atividades do espaço significaria comprometer parte importante daquilo que faz o Ver-o-Peso ser reconhecido como um lugar de vivência cultural.

“Se esses feirantes não estivessem lá, seria talvez um local, um patrimônio material apenas de visitação e não de vivências”, ressalta.

Muito além das edificações

A discussão sobre a preservação do Ver-o-Peso também envolve a maneira como o espaço será pensado para o futuro. Para Neco, a conservação não deve considerar apenas a paisagem e os prédios históricos, mas também as atividades que acontecem dentro deles.

“Nós ouvimos sempre ideias como retirar as vendas e fazer daquele lugar apenas colocando alguns barcos. Não. O Ver-o-Peso não se constitui somente pela sua paisagem”, afirma.



O historiador reconhece a importância da conservação da estrutura física, mas defende que ela esteja acompanhada da preservação das práticas culturais.

“A paisagem é muito importante preservar, cuidar, limpar, mas o Ver-o-Peso também tem seu valor não só como patrimônio material, mas imaterial, por conta das atividades que são desenvolvidas naquele espaço”, explica.

Para ele, o mercado funciona como uma espécie de vitrine da cultura paraense e amazônica. É no contato diário entre trabalhadores, produtos e visitantes que muitos desses conhecimentos continuam sendo apresentados às novas gerações.

Um mosaico da cultura amazônica

Na avaliação do historiador, o valor cultural do Ver-o-Peso ultrapassa o período de existência das atuais edificações. “O Ver-o-Peso é um grande mosaico da cultura da Amazônia”, define.

A importância, segundo ele, está também no fato de que costumes, tradições e conhecimentos podem ser mais antigos do que as próprias construções que hoje formam o complexo.

“As atividades, os costumes, as tradições, a cultura, ela é muito mais antiga do que as edificações”, afirma.

Nesse sentido, o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial pode contribuir para que essas práticas sejam preservadas e continuem acessíveis às próximas gerações.

O desafio de preservar sem apagar a identidade

A preservação, porém, não significa manter o espaço completamente distante das transformações da cidade. Para Márcio Neco, um dos principais desafios é encontrar um equilíbrio entre modernização e manutenção da identidade cultural.

“O segredo é harmonizar a modernidade com os nossos costumes, com a cultura, e com todas as edificações, com todas as atividades que ocorrem”, avalia.

Ele defende que decisões sobre o futuro do Ver-o-Peso sejam construídas a partir do diálogo entre diferentes setores.

“Reunir todas essas pessoas e tendo como ponto comum o amor e a preservação de toda a cultura que é produzida naquele espaço”, afirma.

Para o historiador, esse diálogo precisa envolver trabalhadores, frequentadores, pesquisadores, historiadores, especialistas, associações e o poder público. A ideia é que a preservação considere não apenas o patrimônio físico, mas também a identidade construída por quem mantém o Ver-o-Peso em funcionamento.

Afinal, o patrimônio cultural imaterial não está parado no tempo. Ele continua sendo produzido a cada madrugada, no preparo de um alimento, na venda de uma erva, no conhecimento sobre um produto amazônico, no tempero de uma comida, na relação entre feirante e cliente e nas tradições que passam de uma geração para outra.

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